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Passadas quase duas semanas desde as ordenações episcopais ilícitas e a consequente excomunhão dos bispos da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, a internet fervilha em debates sobre o alcance e até mesmo sobre a eficácia das decisões do Vaticano. Discute-se, por exemplo, se os padres da SSPX estariam excomungados – isso está na nota explicativa, mas não aparece no decreto do Dicastério para a Doutrina da Fé, e de fato o que tem força normativa é o decreto, não a explicação dele; outros argumentam que, como foi o papa Francisco quem concedeu aos padres da SSPX a faculdade de ouvir confissões e assistir casamentos, só o papa Leão XIV poderia revogá-la. Não sou canonista e a coluna de hoje nem é sobre isso; basta sabermos que a SSPX é canoa furada e o mais prudente é nos afastarmos dela, bem como daqueles que a defendem ostensivamente, e também daqueles que passam pano enquanto posam de observadores neutros.
O que me interessa hoje é continuar de onde terminei a coluna do último dia 2: o Vaticano pediu que os bispos façam um esforço para acolher os padres e fiéis que decidam pular da canoa furada e embarcar novamente na barca de Pedro. Depois das excomunhões, não têm faltado notas assinadas por bispos e arcebispos, alertando os fiéis sobre as consequências da frequência às cerimônias da SSPX, e exortando os fiéis tradicionalistas a permanecer (ou re-entrar) em comunhão com Roma. Muito bom, mas o que realmente importa é: se os bispos podem e devem estender a mão aos lefebvristas, o que irão oferecer a eles em caso de retorno?
Um lefebvrista cuja única razão para estar na SSPX é a preferência litúrgica não tem motivo para permanecer com os cismáticos quando há uma alternativa idêntica e regular oferecida pela diocese
Das missas mal celebradas ao tradicionalismo radical
Não conheço estudos aprofundados sobre o assunto (talvez o livro de Stephen Cranney e Stephen Bullivant, que está para ser lançado, traga pistas), e a evidência que tenho é anedótica, mas nada me tira da cabeça duas coisas: 1. que missas no rito de Paulo VI mal celebradas – vocês sabem, bateção de palmas, showzinhos, abusos litúrgicos mil, tudo aquilo que o rito não prevê, mas padres e liturgistas fazem mesmo assim – empurraram gente para a missa tridentina, onde isso foi possível; e 2. que, depois que as pessoas se afeiçoaram ao rito tridentino, as restrições impostas por Traditionis custodes jogaram católicos nos braços da SSPX, e ali gente que só queria poder assistir à missa tridentina em paz acabou envenenada pelo discurso anti-Vaticano II e anti-hierarquia.
Então, se a única coisa que um bispo tiver para oferecer a um fiel ou padre que abandone a SSPX for o Novus Ordo – e um Novus Ordo mal celebrado, ainda por cima –, a chance de tirar gente do cisma é um zero gigantesco. Felizmente, nos casos norte-americanos que a Catholic News Agency reportou, com tradução da Gazeta do Povo, trata-se de dioceses em que a missa tridentina é oferecida regularmente. Um lefebvrista cuja única razão para estar na SSPX é a preferência litúrgica não tem motivo para permanecer com os cismáticos quando há uma alternativa idêntica e regular oferecida pela diocese. Se o problema for outro, como a radicalização no discurso contra o que eles chamam pejorativamente de “Igreja conciliar”, aí eu já não sei o que mesmo o mais bem intencionado dos bispos poderia fazer no curto prazo.
Dioceses brasileiras que já oferecem missa tridentina saem na frente
A coluna entrou em contato com várias dioceses brasileiras onde os lefebvristas têm alguma presença, seja com um priorado, uma capela ou missas com frequência menor que semanal, de acordo com as informações do próprio site da SSPX. Algumas dessas dioceses até já tinham emitido notas como as que citei acima – foi pelo comunicado do cardeal Paulo Cezar Costa que fiquei sabendo que o padre Françoá estava em Brasília. Das dioceses que responderam até o momento (o espaço continua aberto para as demais), a que tem maior oferta de missa tridentina regular – ou seja, com autorização do arcebispo – é a Arquidiocese do Rio de Janeiro, com quatro igrejas, embora dê para melhorar: só uma delas tem localização mais central, com missa todo domingo; uma outra também tem missa todo domingo, mas fica mais distante; as outras duas são bem localizadas, mas as missas ocorrem em outros dias da semana.
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“A Arquidiocese sempre responde positivamente às demandas dos fiéis; caso haja necessidade, ofereceremos mais missas no rito antigo”, afirmou monsenhor André Sampaio, que é o responsável arquidiocesano para os fiéis ligados ao rito tradicional. “Além das missas tridentinas, temos a Irmandade de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, que oferece missa em latim no rito de Paulo VI, e tem tido uma grande procura”, acrescenta monsenhor André – e isso é fundamental: não dá para reservar toda a solenidade e reverência apenas para as missas tridentinas e deixar todo o resto bagunçado. Os fiéis que desejam a missa no rito novo têm tanto direito a uma celebração digna (em latim ou português) quanto os tradicionalistas, e os papas Francisco e Leão XIV já enfatizaram a necessidade de respeito pelas normas litúrgicas.
Em Curitiba, há missa tridentina regular dominical e também em determinadas festas, celebrada na capela de um convento em localização bastante central, no bairro Cristo Rei. “Do ponto de vista teológico, eu considero mais ampla a significação da celebração segundo o missal de Paulo VI, mas temos em Curitiba esse grupo que tem apreço pela missa tridentina, que deseja caminhar com a Igreja Católica e a arquidiocese, e não vamos deixá-lo sem celebrações”, afirma dom José Antônio Peruzzo. “Aqueles que estão na SSPX e desejarem retomar a comunhão com a Igreja Católica, seguindo as diretrizes do Concílio Vaticano II, serão acolhidos com toda a familiaridade e apreço”, garante o arcebispo.
O cardeal-arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, explicou à coluna que há dois locais na capital paulista onde os católicos têm acesso à missa tridentina dominical – ambas as igrejas, São Gonçalo e a capela do Menino Jesus e Santa Luzia, estão no coração da cidade, com acesso muito fácil pelo metrô; esta última também oferece a missa no rito de Paulo VI em latim. “Além disso, outras celebrações podem ocorrer de modo extraordinário em alguma igreja, mediante pedido e autorização específica”, acrescentou o arcebispo. Dom Odilo afirma que a arquidiocese está “aberta para acolher aqueles que desejarem retornar à plena comunhão com a Igreja”, sejam fiéis ou sacerdotes da SSPX, que tem um priorado em São Paulo.
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Bispos brasileiros têm uma oportunidade ímpar para se aconselharem
Aqueles bispos que estejam empenhados em trabalhar com o papa Leão XIV para buscar a unidade da Igreja e recuperar as ovelhas desgarradas da SSPX têm entre seus irmãos no episcopado alguém que pode orientá-los muito bem: dom Fernando Arêas Rifan, bispo da Administração Apostólica São João Maria Vianney. Ele percorreu o caminho do tradicionalismo radical até a comunhão com Roma, tendo sido parte da União Sacerdotal São João Maria Vianney, “parceira” da SSPX por muitos anos – o grupo chegou até a ordenar um bispo sem permissão papal: dom Licínio Rangel, em 1991. Anos depois, os chamados “padres de Campos” (em referência à cidade fluminense onde eles estavam sediados) assinaram um acordo com o papa João Paulo II, todas as penas canônicas foram levantadas e a Administração Apostólica foi erigida, tendo dom Licínio como seu primeiro bispo.
Se há algum bispo no Brasil capaz de explicar a seus irmãos o que os tradicionalistas pensam, quais são os seus anseios, quais as melhores formas de explicar-lhes o Vaticano II, e o que não se deve fazer ao tratar com eles, esse bispo é dom Fernando – que não raro também “empresta” os padres da Administração Apostólica para celebrar missas em outros lugares. A coluna chegou a enviar algumas perguntas a ele, mas ainda não veio a resposta; espero que ele não se incomode com a propaganda não solicitada que estou fazendo da sua expertise.

Marcio Antonio Campos é editor de Opinião da Gazeta do Povo. Autor de "A razão diante do enigma da existência" e coautor de "Bíblia e natureza: os dois livros de Deus – reflexões sobre ciência e fé", mantém a coluna quinzenal Tubo de Ensaio, sobre a relação entre ciência e religião, e uma coluna semanal sobre temas relacionados à Igreja Católica. Em 2025, cobriu em Roma o conclave que elegeu o papa Leão XIV. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.










