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“Hoje nós temos, por exemplo, o Frei Gilson como grande expoente, reúne multidões. Se o senhor pudesse dar um conselho a ele como irmão mais velho, o que é que o senhor diria para ele?”
“Seja gentil com o povo. Não seja agressivo quando fala com o povo.”
“O senhor acha que ele tem sido?”
“Acho.”
“Por quê?”
“Eu acho que é a formação que deram para ele. Você é agressivo?”
“Não, acredito que não.”
“E você?”
“Acredito que não.”
“E você?”
“Não.”
“É porque vocês são comunicadores e têm um extrato. E eu também fui educado a dizer a verdade sem machucar. Eu posso discordar e concordar sem machucar o outro, porque o outro existe, ele é pessoa. Uma frase (inaudível) nas pregações, muito, muito, muito é o outro, o outro, o outro, o outro. Depois eu.”
“Mas o senhor julga de alguma maneira que o trabalho dele faz bem à Igreja?”
“Faz, faz. Ele ensina a orar.”
“Sim.”
“Isso é uma coisa que o mundo precisa.”
“O senhor já acordou às 4 horas para rezar com ele? 4 horas da madrugada?”
“Não, sou doente. Eu tenho diabetes. Eu tive um AVC e eu tenho câncer em tratamento. Se eu não descansar, eu não vou ser útil. Mas, se eu tivesse, no tempo que eu tinha saúde, ih, eu varava a madrugada também.”
“O senhor disse que a oração que ele ensina faz bem. Tem algo que ele faça que o senhor não tá de acordo?”
“O modo agressivo com que ele fala com o povo, os erros do povo. Você pode corrigir uma pessoa sendo gentil. Falta isso. Eu escrevo muito sobre isso. Padre tem que ser gentil mesmo que discorde, porque o outro tá sofrendo, ele é machucado. Ele veio para aquela igreja para quê? Para ser xingado? Então, há um tipo de Boanerges moderno, que é aquele que roga para que caia fogo do céu sobre gente impenitente. Jesus foi contra isso, os dois irmãos. Então, eu quero que o outro me ouça. Se ele não quiser, a gente vai tomar um café junto. Mas eu não vou brigar com ele pelas minhas ideias. Vou oferecer. Eu não imponho e é por isso que eu tenho tanta aceitação do povo. Eu ofereço, eu proponho, eu não imponho, e há uma pregação que impõe. E Jesus não queria isso, nem Paulo. Na verdade, os apóstolos eram todos gentis. Todos os papas que eu conheci, desde Paulo VI, eu conheci quatro, eles eram uma doçura. O jeito de olhar no olho, o que tô fazendo com vocês também. Olha no olho da pessoa e conversa. A gente é irmão.”
Essa é a íntegra do trecho da entrevista do padre Zezinho ao canal Jornada Infinita, do jornalista Rodrigo Alvarez, em que ele fala sobre frei Gilson. Mas posso apostar o terço que o papa Leão XIV me deu faz quase um ano que a maioria de vocês só soube das frases que eu coloquei em negrito acima. Acertei, não acertei? Confira aqui a entrevista toda, e a parte sobre frei Gilson começa no minuto 14.
O padre Zezinho não citou exemplos de agressividade do frei Gilson, e o entrevistador também não perguntou, então é difícil saber se o padre Zezinho se referia a casos reais de agressividade (o que eu, particularmente, acho difícil, embora não siga o frei Gilson tão de perto para estar atento a tudo o que ele diz ou faz), ou se o “agressômetro” do padre está desregulado para o lado da hipersensibilidade. Mas, ainda que o padre Zezinho tenha sido injusto com o frei Gilson a respeito disso, igualmente injusta é a campanha de cancelamento que sites e perfis especializados em rage bait moveram, e que funcionou, pois desde o último domingo o padre Zezinho está fora das mídias sociais, como ele anunciou ao longo de toda a semana passada.
Os canceladores, muito convenientemente, fizeram o corte que lhes interessava e omitiram o elogio, a parte em que o padre Zezinho disse que o frei Gilson fazia bem à Igreja
Eu discordo da forma como a biógrafa do padre Zezinho, Gabi Bonvechio, descreveu a entrevista, em texto que o sacerdote também publicou. Ela falou em “emboscada”, em “pergunta claramente tendenciosa (...) construída para citar nomes, provocar uma reação e gerar um corte”. Tendo visto toda a entrevista, não me pareceu assim. Quem trouxe o nome foi o próprio entrevistador, e não foi uma pergunta direcionada, do tipo “o senhor não acha que o frei Gilson é agressivo?”; foi uma pergunta aberta: que conselhos ele daria. Quem levantou a questão da agressividade foi o padre Zezinho, que ainda reafirmou essa opinião mais duas vezes. Mesmo assim, não há justificativa para o que fizeram com ele depois.
Os canceladores, muito convenientemente, fizeram o corte que lhes interessava e omitiram o elogio, a parte em que o padre Zezinho disse que o frei Gilson fazia bem à Igreja. Esqueceram que, menos de um ano atrás, o mesmo padre Zezinho, comentando um show do frade em Barretos, comparou-o a Fulton Sheen (que será beatificado em breve), disse que ele, “com seu Rosário de madrugada, desafiou um país inteiro”; que “aí tem o dedo de Jesus e o olhar da mãe dele”; que “não pregamos do mesmo jeito, mas, se concordo com 95% do que ele prega, por que eu deveria acentuar aqueles 5%?”; que vê “a força do Frei Gilson com seu humilde violão, seu hábito marrom e sua pregação direta!”
E aí já colocam no balaio a amizade que o padre Zezinho tem com outros sacerdotes, como o padre Júlio Lancellotti (como se isso em si fosse um grande erro), ou dizem que o padre Zezinho é adepto confesso da Teologia da Libertação, o que ele não é, tendo repetido isso reiteradamente em suas publicações. Quanto a isso, a única concessão que faço é que ele acaba se enrolando demais quando fala em “Teologia da Libertação marxista” e “Teologia da Libertação bíblica”, dizendo que a primeira foi condenada pela Igreja e que a segunda é a TL “purificada” do elemento marxista, em linha com os documentos da Igreja dos anos 80, como a Libertatis nuntius, a Libertatis conscientia e a carta de João Paulo II ao episcopado brasileiro. E, quando se diz adepto dessa “Teologia da Libertação bíblica” em vez, por exemplo, de dizer que apenas defende a Doutrina Social da Igreja, acaba dando margem a mal-entendidos – primeiro, porque praticamente todo teólogo “da libertação” que existe hoje é da vertente socialista; e segundo, porque todos eles, obviamente, dirão que suas ideias estão ancoradas na Bíblia e não em Marx ou Gramsci.
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O padre Zezinho é um ícone da evangelização para gerações de católicos brasileiros, inclusive a minha. Não quero dizer com isso que ele tenha passe livre para dizer o que quiser sem ser contestado; se errar, se for injusto com alguém, que mostrem, que argumentem, de preferência em particular, quando possível, mas também em público se for o caso. Mas linchamento virtual é outra coisa, por si só detestável, mas pior ainda quando se dirige a alguém que os católicos acreditam ter sido chamado por Deus para o ministério de ser Cristo para os outros. Que eu esteja publicando isso no dia do padre, quando comemoramos a festa de São João Maria Vianney, é de uma ironia cruel. Eu já disse outro dia que os padres precisam de nossa oração muito mais do que imaginamos, mas pelo jeito os canceladores também precisam.
O cardeal Roche partiu pro desespero
Enquanto o rage bait brasileiro cancelava o padre Zezinho, o rage bait global se voltava (de novo) contra o papa Leão XIV por causa do que o cardeal Arthur Roche, prefeito do Dicastério para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, disse ao jornal católico inglês The Tablet em uma entrevista: “o papa Leão não vai mudar Traditionis custodes, e ele não retornará a Summorum Pontificum”. Ou seja, a perseguição à missa tridentina vai continuar.
Mas será mesmo? Vamos comparar o que o cardeal Roche diz com o que o próprio papa já disse ou fez. Em outubro do ano passado, Leão XIV permitiu que a missa tridentina fosse celebrada na Basílica de São Pedro pela primeira vez desde 2021. No mês seguinte, ele mandou seu núncio na Inglaterra dizer aos bispos do país que aprovaria todos os pedidos de exceção às regras impostas em Traditionis custodes. Em março deste ano, enviou mensagem aos bispos franceses, reunidos na sua conferência anual, e lhes pediu que tornassem a missa tridentina mais acessível aos fiéis. Um papa disposto a perseguir a liturgia tradicional não faz essas coisas.
Vá lá, a rigor Leão XIV nem revogou Traditionis custodes, nem voltou ao status de Summorum Pontificum, e aí o cardeal estaria certo. Mas o contexto da sua fala aponta para repressão, e as atitudes do papa apontam para um cenário em que a letra da lei ainda é a de TC, mas a prática é bem mais permissiva, ao menos enquanto não se chega a uma outra solução formal mais adequada, uma espécie de se acata pero no se cumple, como se fazia na América colonial espanhola com as ordens da corte.
O cardeal Arthur Roche parece disposto a “amarrar” Leão XIV ao seu próprio programa de perseguição à liturgia tradicional
Sinceramente? O que eu vi na entrevista foi um cardeal que já passou da idade da aposentadoria (Roche tem 76 anos), cujo mandato de cinco anos no Dicastério para o Culto Divino expirou agora há pouco (no fim de maio), e que está aterrorizado com a possibilidade de ver desfeito um trabalho a que se dedicou tanto nos últimos anos – porque eu não me lembro de nada mais significativo que Roche tenha feito à frente do dicastério, para ser honesto. No desespero, ele tentou “amarrar” Leão XIV ao seu próprio programa de perseguição à liturgia tradicional.
O arcebispo de San Francisco, Salvatore Cordileone, não comprou a história. “Não sei o quão bem ele conhece a mente do Santo Padre”, afirmou ao canal EWTN, acrescentando que está muito claro o desejo do papa pela unidade na Igreja, e que as restrições à celebração da missa tridentina estão empurrando pessoas para grupos fora da comunhão com Roma, como a SSPX. O cardeal Roche também falou de unidade, mas de uma forma que eu considero bem equivocada: “a Eucaristia é o sacramento da unidade: é o lugar onde todos deveríamos poder estar juntos para celebrar a Missa. Então, se isso começa a nos dividir, alguma coisa está muito errada”. Mas essa não é a concepção de unidade na diversidade que sempre norteou a Igreja, com seus inúmeros carismas, formas de viver a fé, e também de celebrar; a unidade de Roche é a unidade na uniformidade, o que a Igreja nunca buscou impor.
Um fiel, teólogo ou bispo pode muito bem considerar que a missa de São Paulo VI é melhor que a missa tridentina, por razões teológicas, litúrgicas, práticas, o que for. Mas não tem como discordar do que Bento XVI afirmou na excelente carta aos bispos que acompanhava Summorum Pontificum: “Aquilo que para as gerações anteriores era sagrado, permanece sagrado e grande também para nós, e não pode ser de improviso totalmente proibido ou mesmo prejudicial”.
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Talvez a pior parte da resposta, no entanto, nem seja a tentativa de entrar na cabeça do papa, mas o que a vaticanista Diane Montagna chamou de gaslighting dirigido aos tradicionalistas. “Gaslighting” é a prática de distorcer fatos para que uma pessoa duvide da sua própria avaliação da realidade. “Quando encontro grupos que querem a liturgia antiga, e eu digo ‘veja, o Santo Padre lhes deu isso, então qual é o problema?’, eles ficam sem resposta. Mas vão embora e dizem ‘ainda estamos sendo perseguidos’. Mas perseguidos como? Por que a banda ainda está tocando uma melodia que destoa da vida da Igreja?”, afirma Roche. O que ele está dizendo é que não há perseguição nenhuma à missa tridentina, que isso é coisa da cabeça dos tradicionalistas.
É mesmo? Queria que o cardeal Roche fosse perguntar “mas como assim vocês se acham perseguidos?” aos católicos de dioceses cujos bispos proibiram totalmente as missas tridentinas no dia seguinte à publicação de Traditionis custodes. Aos católicos de dioceses do tamanho do Rio Grande do Norte, que tinham várias opções de missa tridentina em paróquias às quais estavam totalmente integrados, e que viram essa oferta reduzida a uma missa semanal, exigindo deslocamentos de horas. Ao arcebispo de Melbourne, que perguntou ao cardeal Roche se podia celebrar uma missa tridentina em sua catedral, e recebeu um “não”. Perseguição definitivamente não é coisa da cabeça dos tradicionalistas; ela existe. Não é motivo para alguém abraçar cismas como o da SSPX, mas existe.
Não sei se Leão XIV vai renovar o mandato do cardeal Roche; se não o fizer, posso dizer que não sentirei a menor falta dele, que esteve muito abaixo de seus antecessores, especialmente os africanos Robert Sarah e Francis Arinze. E rezo para que seja substituído por alguém disposto a recuperar e incentivar a sacralidade e a solenidade na liturgia nova, e a mostrar que também a missa tradicional e aqueles que desejam celebrar e cultuar nessa forma têm espaço na Igreja.

Marcio Antonio Campos é editor de Opinião da Gazeta do Povo. Autor de "A razão diante do enigma da existência" e coautor de "Bíblia e natureza: os dois livros de Deus – reflexões sobre ciência e fé", mantém a coluna quinzenal Tubo de Ensaio, sobre a relação entre ciência e religião, e uma coluna semanal sobre temas relacionados à Igreja Católica. Em 2025, cobriu em Roma o conclave que elegeu o papa Leão XIV. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.










