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Marcio Antonio Campos

Marcio Antonio Campos

Vaticano, CNBB e Igreja Católica em geral. Coluna atualizada às terças-feiras

Liturgia

Leão XIV e o cardeal Sarah tentam uma trégua nas “guerras litúrgicas”

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O papa Leão XIV durante audiência geral na Basílica de São Pedro, em 26 de agosto. (Foto: Vatican Media handout/EFE/EPA)

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Alguém inventou o termo “guerras litúrgicas” (às vezes no singular, “guerra litúrgica”) para descrever o estado generalizado de conflito entre grupos católicos a respeito de qual missal celebrar, e como celebrar. Há os que consideram a missa tridentina uma relíquia do passado que deveria ser suprimida de vez, há os que dizem que a missa nova é inválida e leva as pessoas a perderem a fé, há os que dizem que comunhão em pé e na mão é coisa do demônio, há os liturgistas e padres que bagunçam as missas com elementos que não estão previstos nos livros litúrgicos (de procissões extravagantes ao “parabéns” para os aniversariantes)... e, no meio disso, há uma multidão de pobres católicos que só deseja poder ter acesso a uma missa decente, bem celebrada, com música que eleve a alma a Deus, sem serem acusados disso ou daquilo. O papa Leão XIV e o cardeal Robert Sarah estão do lado desses últimos, como deveria ser, e o demonstraram em falas recentes.

O papa está dedicando suas catequeses de quarta-feira aos documentos do Concílio Vaticano II, e há algum tempo está falando da constituição sobre a liturgia, a Sacrosanctum Concilium. Na quarta-feira passada, tratando da reforma litúrgica, Leão XIV disse que “a reforma litúrgica promovida pelo Concílio Vaticano II insere-se no sulco da tradição viva da Igreja”, mas logo na sequência acrescentou que “a sua correta compreensão permite também rejeitar os abusos que se verificaram em certos setores da Igreja no período pós-conciliar e que, infelizmente, às vezes ainda hoje ocorrem”. Sem desmerecer a missa tridentina, o papa defendeu a liturgia promulgada em 1969, mas também lamentou que muita gente, ainda hoje, abuse dela (com muito mais frequência que o indicado pelo “às vezes” usado pelo papa, infelizmente).

Aliás, quem ler o conjunto completo de catequeses de Leão XIV sobre a Sacrosantum Concilium perceberá que ele tem insistido muito na celebração correta e reverente da missa, e eu inclusive já comentei aqui uma dessas audiências. Na semana retrasada, o papa falou da música sacra e lembrou que os padres conciliares davam prioridade ao canto gregoriano e ao uso do órgão – ambos elementos desprezados pelos liturgistas “moderninhos” (esses mesmos que dizem estar “em sintonia com o Concílio”) e que estão praticamente sumidos das missas por aí, associados erroneamente e maldosamente a algum tipo de elitismo eclesiástico.

“Não podemos declarar guerra aos que participam devotamente da missa só porque preferem uma forma em vez de outra.”

Cardeal Robert Sarah, em entrevista ao vaticanista Nico Spuntoni.

Se a maneira como a reforma ocorreu refletiu de fato aquilo que os padres conciliares desejavam é assunto que eu deixo para os historiadores da Igreja, para os liturgistas e para os teólogos – em suas memórias, por exemplo, o cardeal Joseph Ratzinger afirmava que não houve, na passagem da missa tridentina para o Novus Ordo, o chamado “desenvolvimento orgânico”, mas o que ele comparou à demolição de um edifício para a construção de um novo. No entanto, nem Ratzinger (que depois se tornaria Bento XVI), nem qualquer um dos liturgistas que afirmam ter havido uma ruptura do desenvolvimento da liturgia, como Dom Alcuin Reid ou Klaus Gamber, negaram a legitimidade da Igreja para mudar o missal, ou afirmaram que ele seria nocivo à fé, ou sabe mais Deus o quê. Eles podem até discordar do palavreado empregado por Leão XIV na audiência, mas não tomam o lado do tradicionalismo radical.

No dia seguinte à audiência papal, o italiano Il Giornale publicou uma entrevista do cardeal Robert Sarah ao jornalista Nico Spuntoni. Todos sabem que Sarah é crítico das restrições impostas à missa tridentina e defende a sua liberação, e na entrevista ele volta a bater nessas teclas, como quando diz acreditar que, quando os remanescentes da “geração de 68” se forem, a aversão à liturgia tradicional acabará junto com eles. Mas, quando fala de seu respeito pelos fiéis tradicionalistas que fazem longas viagens para ir à missa tridentina, ele termina com uma observação bem interessante:

“Como Igreja, não podemos declarar guerra aos que participam devotamente da missa só porque preferem uma forma em vez de outra. Essa é uma postura míope e totalmente ideológica – não é pastoral, não é cristã. É daninha e destrutiva para a Igreja.”

Reparem (e muitos também já repararam nisso) que o cardeal Sarah não fala da guerra aos que “preferem a missa tridentina à missa nova”, mas aos que “preferem uma forma em vez de outra”. O tradicionalista que prefere a missa tridentina e só quer poder ter acesso a ela em paz, sem aderir a loucuras cismáticas como as da SSPX, não merece o desprezo dos “radicais do Vaticano II”, gente como Andrea Grillo, que abusa do Concílio para bater em quem discorda de suas loucuras “progressistas”, que trata os adeptos da missa tridentina como gente apegada ao passado, um bando de saudosistas litúrgicos. Mas, da mesma forma, o católico que simplesmente prefere a missa nova, por qual motivo for, também não merece o desprezo de tradicionalistas radicais que o tratam como ignorante, como alguém que está pondo a alma em risco, como alguém que “não sabe o que é bom”, que se alimenta espiritualmente de lavagem, quando poderia ter o manjar da missa tridentina.

Nenhuma dessas atitudes de desprezo e até hostilidade é pastoral, nem cristã, e quem diz isso é o cardeal Sarah. O papa Leão XIV, aos poucos, também está reconstruindo pontes que as “guerras litúrgicas” destruíram, em busca de uma unidade que não é uniformidade, mas que é sensível às necessidades espirituais dos fiéis – e a primeira dessas necessidades é o culto digno a Deus na missa, porque, como disse São João Paulo II, a Igreja vive da Eucaristia. Quanto mais bispos, padres e fiéis derem ouvidos ao que o papa pede, mais chances teremos de desarmar os radicais dos dois lados, em uma Igreja na qual a preferência litúrgica não será mais motivo de divisão e de perseguição.

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