Foto: Brendan Smialowski/AFP
Foto: Brendan Smialowski/AFP| Foto:

Não estou entre aqueles que acham que os ideais consagrados pelos founding fathers foram seriamente ameaçados na última quarta-feira, quando uma horda de celerados invadiu e vandalizou o Capitólio, em Washington DC.

Na prática, títeres amalucados conseguiram atrasar por algumas horas a confirmação de que a passagem de Donald Trump pela Casa Branca terá sido breve. E só.

Está claro, contudo, que foi um momento histórico. Um choque para o mundo, que assistiu a avacalhação explícita daquela que é tida como a maior democracia do planeta. Um aviso para nós, que temos na presidência alguém disposto a dobrar as instituições para moldá-las à sua maneira.

Estabelecer comparações entre os cenários políticos dos Estados Unidos e do Brasil é arriscado. Diferenças nas estruturas partidárias e nas próprias formações de ambas as sociedades impedem conclusões simplistas.

Grosso modo, entretanto, estamos dois anos atrás dos americanos no calendário disruptivo imposto por Trump e macaqueado por Jair Bolsonaro. Devemos aprender com seus erros.

É possível afirmar que Trump ofereceu inúmeras demonstrações de fragilidade moral e desprezo pelas instituições. Ao terminar seu mandato confrontando a todos e manipulando seus apoiadores, apenas se mantém fiel ao padrão de comportamento que adotou durante todo o período em que esteve no poder.

Enquanto escrevo estas linhas, o quarto presidente americano a não conseguir se reeleger nos últimos cem anos flerta com um vexame ainda maior: sofrer um segundo processo de impeachment. Desta vez, com boas chances de deixar o número 1600 da Avenida Pensilvânia pela porta dos fundos.

O pedido de afastamento estaria embasado nas seguidas incitações para que a massa tomasse o Capitólio sob o pretexto de fraude no pleito de novembro — algo negado pelas evidências, em cortes de todas as instâncias e até mesmo por republicanos.

Caso aconteça, o afastamento de Trump por meio de um impeachment seria didático, porém tão tardio quanto foi o seu banimento do Twitter ou o bloqueio de suas contas no Facebook e no Instagram.

Assim como Trump, Bolsonaro ataca a democracia e as instituições desde o seu primeiro dia no Palácio da Alvorada. Precisa ser enfrentado agora. Não quando a febre eleitoral tomar conta do país.

Ademais, para além das diferenças entre a solidez das nossas instituições e as americanas — lá nunca houve ditadura militar ou presidentes afastados —, Trump não goza de tanto prestígio com as Forças Armadas quanto Bolsonaro. Menos ainda com a polícia. Com a milícia nem se fala.

“Se nós não tivermos o voto impresso em 22, uma maneira de auditar o voto, nós vamos ter problema pior que os Estados Unidos”, afirmou Jair ao comentar a revolta dos aloprados em DC.

Que depois ninguém diga que não fomos avisados.

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