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Foto: Carolina Antunes/PR
Foto: Carolina Antunes/PR| Foto: Carolina Antunes

Lembro-me bem de quando o então candidato Jair Bolsonaro sofreu um atentado em Juiz de Fora. À época eu morava em São Paulo e peguei um avião bem cedo até o Rio para entrevistar aquele que viria a ser ministro da Economia. Nos instantes que se seguiram ao acontecido, testemunhei um Paulo Guedes prostrado. “Este país merece estar onde está”, chegou a dizer. Àquela altura não conhecíamos a extensão do ataque cometido por Adélio Bispo e uma vida corria perigo.

Para a felicidade de todos que prezam os valores democráticos, Bolsonaro não morreu. Pelo contrário, saiu da bem-sucedida intervenção cirúrgica ainda mais líder nas pesquisas e autorizado pelos médicos a participar dos debates. Optou por não comparecer a nenhum deles e assim se elegeu presidente da República. Sem diálogo. Sem ouvir contestações. Falando apenas para seus apoiadores. Um retrato fiel do modus operandi que adotaria em seu governo.

A covid-19 tinha tudo para ser uma segunda facada na vida de Bolsonaro: houve chance de escamotear o medíocre desempenho da economia, a inabilidade política e os ministros anômalos. Contudo, se o isolamento social é desafiador, o moral é incontornável.

A obtusidade nunca foi tão soberana. Muito se falou sobre a dificuldade que a ex-presidente Dilma Rousseff tinha para encadear raciocínios, mas com Jair Bolsonaro o buraco é mais embaixo. Não se trata apenas de alguém afeito a gafes. Tanto assim que perde a oportunidade de associar a avaliação positiva conseguida pelo ministro da Saúde à imagem da sua já combalida gestão. Faz justo o oposto. Torpedeia Mandetta, enquanto mantém incólumes Abraham Weintraub e Ernesto Araújo.

A limitação intelectual do mito se evidencia quando ele não se mostra capaz nem mesmo de imitar aquele em quem depositou o destino da economia. Paulo Guedes está longe de ser um exemplo de lucidez ao escolher palavras, mas até ele conseguiu ensaiar o discurso de que o país vinha bem antes da pandemia — vá lá, após dizer “com 3 bilhões, 4 bilhões ou 5 bilhões de reais a gente aniquila o coronavírus”.

Que Bolsonaro é limítrofe não se discute e, para além da polarização política, assusta que tenhamos sido capazes de dar tanto poder a alguém assim. Entretanto esse não é o maior defeito desse que hoje é a autoridade máxima do Executivo. O maior calo é moral.

O comportamento do presidente nos últimos dias — os passeios por Brasília, as paradas rápidas em padarias e a interação com populares —, somado aos seguidos deboches que há semanas causam espanto, transcende a covardia de espezinhar Mandetta para forçá-lo a pedir demissão. Trata-se de estimular os brasileiros a adotar um comportamento que levará milhares à morte. É cruel.

As teorias sobre o porquê de uma atitude tão insana variam. Há quem defenda que Bolsonaro desistiu de ser presidente e esteja tentando forçar o próprio impeachment. Outros argumentam no sentido inverso: o objetivo é plantar o caos para, mediante uma reação, partir para o golpe de Estado.

Passados 15 meses de governo, está claro que se pode esperar tudo de Jair Bolsonaro. Exceto discernimento, respeito ao cargo, liderança e empatia. À sociedade, cabe ignorar apelos dignos de um facínora e respeitar as premissas de distanciamento social, porém sem deixar de observar quaisquer ameaças à ordem democrática.

Quando esse momento passar, todavia, e há de passar, que não se esqueça de quem tripudiou da sua tragédia, da sua dor e da sua morte.

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