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O título desta coluna seria outro: “Ansiedade no cárcere”. Imaginei escrever sobre como, ao estimar os dias que faltam para a próxima eleição presidencial — 641 —, me vi na pele de um prisioneiro no melhor estilo Conde de Monte Cristo. Daqueles que riscam traços na parede para não perder a noção do tempo.

A nossa postura frente à Covid-19 me levou a mudar de assunto.

Enfrentamos uma pandemia que já ceifou quase 200 mil vidas, contudo festas de tamanhos impressionantes se espalham por todo o país; as praias estão lotadas. Vacina ainda não há, mas é como se já houvesse.

Quem o diz é a ciência: fundamentalmente, o contágio se dá por meio do contato entre pessoas. Logo, celebrações e convescotes vultosos são propulsores do flagelo. Mais lógico é impossível.

Reconheço a minha dificuldade em entender alguém que faz pouco caso da dor alheia. Que não se abala com o sofrimento do outro. Nem mesmo diante da morte. É de se considerar, porém, que a origem de tudo isso extrapole a teimosia ou deficiências cognitivas.

O comportamento a que estamos assistindo não é normal. Faz todo sentido, entretanto, vindo de uma sociedade que enxergou em alguém que é fã confesso de um torturador a pessoa mais qualificada para comandar o país.

Jair Bolsonaro não é presidente por acaso. Quanto antes assumirmos isso, mais cedo seremos capazes de encarar uma necessária autoanálise. Só assim decifraremos o porquê dessa sanha autodestrutiva. Certa repulsa pelo bom senso.

O auxílio emergencial não explica a condescendência dispensada ao presidente. Aqueles que estão desassistidos ou abaixo da linha da pobreza não podem se dar ao luxo de priorizar o debate ideológico. Têm total legitimidade para endossar quem momentaneamente resolver suas carências mais básicas.

Em boa parte, o problema está na postura da nossa elite intelectual. Na fatia da esquerda que tenta impor as suas bandeiras mais caras. E que estigmatiza quem não diz amém para a sua cartilha.

Mesmo assim a conta não fecha.

Ainda que em 2018 o momento tenha sido de extrema polarização, com a candidatura de Fernando Haddad forçando boa parte dos brasileiros a embarcar na catarse bolsonarista, o apoio que o presidente ainda hoje sustenta da classe média é injustificável.

Ou, por outra, é mais fácil de ser explicado do que gostaríamos de admitir.

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