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Foto: YAMIL LAGE/AFP
Foto: YAMIL LAGE/AFP| Foto:

O caos institucional na Bolívia está servindo para escancarar a nossa tara por atribuir selos — preferencial e inevitavelmente sob o jugo das nossas visões de mundo e tendências ideológicas. Desta vez, porém, os fatos não estão ajudando.

O problema com o termo “golpe”, no caso da política, é que ele pressupõe injustiça. A adulteração arbitrária das regras do jogo. Neste caso, todavia, o questionamento se impõe: que nome pode ser dado, então, quando quem se autoproclama vítima promoveu manobras para torcer o braço da democracia em benefício próprio?

A verdade é que as cambalhotas jurídicas e ofensas à Carta promovidas por Evo Morales de modo a se perpetuar no poder são inquestionáveis e impedem que ele seja tratado como mártir. E se em 90 dias uma nova eleição for determinada, como manda a Constituição boliviana, a tese do golpe tombará de vez.

Caso contrário, teremos mais um episódio de esculhambação institucional no país. Mais um, passados quase dois séculos desde a independência, em 1825. E não será correto lamentar por quem reiteradamente instigou a sociedade, abrindo a porta para a ira e o descompasso das instituições. A vítima real será o povo boliviano. E só.

Quem preza pela ordem democrática torce por uma nova eleição que restabeleça a ordem na Bolívia. Acima de tudo, entretanto, não deve fechar os olhos para 14 anos de manobras tramadas com o único intuito de rasgar o regulamento e criar raízes no poder, sem tirar nem pôr a estratégia adotada por Morales desde o longínquo ano de 2006.

Infelizmente, nem todo mundo consegue se despir da própria fé. Assim como aconteceu no caso das eleições argentinas e em relação ao regime chavista comandado por Nicolás Maduro, boa parte das pessoas se vê incapaz de ponderar sobre regimes de força à esquerda do espectro político-ideológico como faz quando o exemplo se dá na outra ponta do balcão.

No caso boliviano essa dificuldade não poderia ficar mais óbvia. Pergunta-se: onde estavam todos esses que agora berram “golpe!” durante os últimos 13 anos?

Há quem afirme, com razão de ser, que Morales foi de importância máxima para os bolivianos. Que o país prosperou sob o seu comando. Que a crítica brasileira, enfim, não dá ao ex-presidente o devido valor. Pode ser.

A partir de tal premissa, contudo, outro questionamento se impõe. Talvez ainda mais irrespondível, já que tão constrangedor: estaríamos aceitando, nós, brasileiros, a tese de que democracia é supérflua, a depender da competência de um governo?

A dúvida é fundamental. Até porque, dependendo da resposta, muitos terão de rever seus conceitos quando os saudosistas da ditadura militar brasileira ponderarem a respeito dos benefícios oferecidos à época pelo establishment.

Sempre lembrando que não vale retrucar “que benefícios foram esses?” e bancar o democrata. Afinal, como dizia o outro, “a liberdade é mais importante do que o pão”.

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