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O período compreendido entre os anos de 2002 e 2013 já está marcado como aquele em que o maior líder político em nossa história recente, no comando do maior partido, instituiu um projeto corrupto para se encastelar no poder. Lula e o PT deixaram rastros de destruição na economia, mas nada se compara à desesperança na política. Foi calcado nesse sentimento que Jair Bolsonaro se esgueirou até alcançar a presidência. É graças a ele que, diante da maior crise em gerações, o país se vê na contramão do mundo. Órfão de liderança, bom senso e empatia.

O trauma provocado pelo petismo foi tão forte que, para muitos, o principal pré-requisito que um candidato deveria apresentar nas últimas eleições era honestidade. Pois, olhando para 2022, o presidente já logrou estabelecer um nível de exigência ainda mais baixo: sanidade mental.

Só um perfeito celerado pode incitar a população a ir às ruas em meio a uma pandemia global que já infectou centenas de milhares, matou e ainda matará outros tantos.

Só alguém desprovido de sensatez pode menosprezar em alto e bom som a morte de seres humanos. Incluindo a de seus próprios conterrâneos.

Só alguém alheio aos preceitos mais básicos de empatia pode sorrir enquanto minimiza uma doença ainda sem vacina e espalha desinformação sobre tudo o que a cerca — da viabilidade de remédios ao seu poder de letalidade, da maneira pela qual ela se propaga ao perfil dos mais vulneráveis.

Bolsonaro fez tudo isso e ainda fará muito mais. Quem garante é ele próprio. É o seu histórico de declarações outrora tidas com bizarras, mas que, no fundo, sempre dialogaram com os crimes contra a humanidade.

Há um motivo que explica os recentes comentários do presidente. Não é o mesmo que guiou sua defesa pelo fuzilamento de Fernando Henrique Cardoso ou que o fez enaltecer o torturador de Dilma Rousseff. Tampouco suas declarações, à época, de admiração por Hugo Chávez. Aqueles foram apenas momentos de sinceridade explícita. Expuseram sua visão de mundo.

A razão pela qual Bolsonaro faz o que faz, hoje, é a mesma que norteia o seu mandato desde o início: reeleição.

O problema é que até para rezar na cartilha da realpolitik o sujeito precisa ser astuto, e o presidente não foi brindado com o dom da inteligência. Assim, à guisa de esperteza para inclusive usar o covid-19 a seu favor — como faz Paulo Guedes ao dizer que o Brasil trilhava o caminho do crescimento —, restou o desvario. A desconexão com a realidade. Um festival de declarações que impressionam pela ausência de compaixão.

Não há mal que dure para sempre. A pandemia há de passar. Jair Bolsonaro há de passar.

Entretanto — e essa constatação ainda calará fundo por anos —, é penoso constatar que tenhamos optado por percorrer um caminho tão tortuoso. Que tenhamos nos colocado sob o jugo de alguém capaz de normalizar a morte de brasileiros — e de guiar boa parte de seus seguidores a fazer o mesmo — em nome de um projeto autoritário de poder.

Se, para além de uma notória incapacidade administrativa, também falta ao presidente o dom de nutrir afeto pelo próximo, nada mais justo que atualizemos a nossa linha de corte.

É justo. E diz mais sobre nós do que sobre ele.

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