Imagem: reprodução TV Câmara
Imagem: reprodução TV Câmara| Foto:

Liberdade de expressão não pode servir de salvo-conduto para apologia à ditadura, defesa da volta do AI-5 e do fechamento da Suprema Corte. Daniel Silveira é um boçal; o fato de ter sido eleito deputado evidencia o clima de insanidade coletiva que permeou as eleições em 2018. Obviedades à parte, o vídeo em que Silveira expõe de maneira tão eloquente a essência do bolsonarismo não deveria surpreender. Muito pelo contrário.

Por 364 votos a favor, 130 contra e 3 abstenções, a Câmara dos Deputados decidiu manter a prisão do deputado “bolsonarista raiz”. Se tudo der certo, em algum momento no futuro próximo ele será afastado da política. O problema é que, mais do que doença, sua presença no parlamento é um sintoma.

Atenção ao decoro nunca foi a marca dos nossos representantes. Para ficar no presente, temos hoje uma deputada (Floridelis, PSD-RJ) que circula pela Casa com tornozeleira eletrônica, denunciada de envolvimento no assassinato do marido. Há também um senador (Chico Rodrigues, DEM-RR) que acaba de  reassumir o mandato após ter sido flagrado com R$ 30 mil na cueca. Nenhum episódio de afronta à compostura que se espera de um parlamentar, contudo, pode ser comparado ao ocorrido em 17 de abril de 2016.

“Perderam em 64, perderam agora em 2016. Pela família, pela inocência das crianças em sala de aula, que o PT nunca teve, contra o comunismo, pela nossa liberdade, contra o Foro de São Paulo, pela memória do Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff, pelo exército de Caxias, pelas Forças Armadas, pelo Brasil acima de tudo e por Deus acima de todos, o meu voto é sim.”

O voto de Jair Bolsonaro pelo impeachment de Dilma Rousseff foi histórico. Ao louvar um torturador, o então deputado deveria ter enterrado sua carreira política. Foi premiado com a presidência da República.

Antes mesmo de exaltar Ustra, em 2003, o mito disse à deputada Maria do Rosário (PT-RS) que ela não merecia ser estuprada.

Corria o ano de 1999 quando, durante um programa de televisão, declarou-se favorável à tortura, detendo-se sobre a eficácia do pau de arara. Também à imprensa, defendeu que só uma guerra civil que matasse “uns 30 mil, começando com o FHC” daria jeito no país. E deixou claro o seu apreço por uma intervenção das Forças Armadas, mencionando os termos “ditadura” e “regime de exceção”. Desta vez, contudo, o fez da tribuna da Câmara.

Os Daniéis, Eustáquios e Saras Winter país afora devem responder por seus atos. Ninguém os obrigou a ameaçar a democracia ou a incitar o cometimento de crimes, como ataques violentos a juízes e instituições. Foi Jair Bolsonaro, porém, quem legitimou e estimulou seus demônios.

Ao enquadrar o deputado Daniel Silveira, o STF, guardião da Carta, agiu em defesa da democracia e do Estado de Direito. Quando olhamos para um passado nem tão remoto assim, entretanto, perguntar o porquê de não ter demonstrado o mesmo ímpeto em relação a Bolsonaro é inevitável.

Seja qual for a resposta, ela jamais isentará a Câmara de sua cumplicidade com o atraso civilizatório. Tampouco a sociedade por abrir mão do próprio destino.

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