
Há muitos anos recolho dos jornais e das revistas um farto material em apoio às minhas aulas de redação. Graças aos editoriais, cartas dos leitores, infográficos, reportagens especiais, notas de esclarecimento, publicidades diversas, imagens fotográficas, manchetes e outros modelos de textos o material disponibilizado diariamente pelos jornais tem serventia espetacular, ou seja, é lido pelos jovens estudantes que oriento e ganha lugar de destaque nos seus Cadernos de Redação.

Estudantes aprendem que a interatividade proporcionada pelos jornais estabelece uma bem-vinda conversa entre os leitores atentos
De todos os itens recolhidos nos jornais há um que sobressaí na minha coleta diária: as cartas dos leitores, porque elas constituem o coração pulsante de um veículo impresso. Expressam impressões, apontam queixas, ressaltam virtudes e contribuem com sugestões, além, é claro, das que apenas estabelecem referências às obviedades, entretanto, denotam o que passa pela cabeça dos leitores – o que, sem dúvida, é uma espécie de termômetro dos fatos, das tendências vigentes , das repercussões das medidas legais e dos desejos dos leitores.
Costumo reproduzir cópias das dezenas de cartas para que meus alunos apreciem a objetividade, a exposição clara de uma ideia, os mecanismos da argumentação, as referências intertextuais , entre outros itens desse modelo de texto, mas também observem as construções equivocadas, a subjetividade e as impropriedades da linguagem utilizada; faço idêntico trabalho com as cartas que retiro da seção de leitores nas revistas de grande circulação e de comentários em blogs, porque a expressão das ideias obedece às circunstâncias de tempo e lugar. Nos jornais e revistas elas são mais elaboradas, enquanto nos blogs aparecem descontraidamente compostas; você já reparou nessa caracterização?
Dê uma olhada, prezado leitor, nas cartas que são publicadas hoje na Gazeta do Povo; confirme as suas impressões acerca da pertinência dos temas, na argumentação incisiva e a exposição objetiva atentando à fonte das questões.
Por que ler e produzir cartas aos jornais e às revistas?
Vestibulares concorridos têm solicitado a redação de cartas; eis, portanto, a razão da orientação que ofereço aos meus jovens alunos, mas também é preciso destacar a importância que tem esse espaço de interatividade na recepção das cartas não apenas como forma de aprendizado, mas também de exercício de cidadania.

Vestibulando: treinar a redação de cartas às colunas dos leitores dos jornais e revistas é um ótimo exercício
Quer treinar a escrita? Que tal a redação de cartas à Coluna do Leitor ou à seção de leitores do jornal da sua preferência, sobretudo se você reside fora de Curitiba?
Não esqueça:
> Utilize um dos vocativos Prezado editor ou Caro editor para estabelecer a conversação com o jornal; lembre-se que do outro lado há um destinatário, um interlocutor atento e cuidadoso.
> Pense no objetivo da sua carta (queixa, advertência, cumprimento, sugestão, etc.).
> Exponha objetivamente a sua ideia e para este fim argumente, ou seja, explique seus motivos e busque apoio em exemplos, comparações, citações, dados numéricos ou outros que sejam indispensáveis.
Embora não apareçam, porque são editadas pelo jornal, o vocativo e a saudação final são itens bem-vindos e expressam a sua boa educação, inclusive na escrita.
Proposta 1 – Com a era digital as cartas manuscritas parecem ter desaparecido. A julgar pelo estado das caixas de coletas de cartas dos Correios elas parecem obsoletas diante de celulares, das mensagens em MSS ou MMS, das twittadas e dos e-mails que proliferam, sobretudo entre os mais jovens.
Considere o aproveitamento dos recursos oferecidos pela revolução digital e reflita sobre as observações acima. Tome como referência o editorial O voto em tempos de Twitter (GP, 8 de julho); depois, encaminhe uma carta à Coluna do Leitor (leitor@gazetadopovo.com.br).
Proposta 2 – Na vida de uma cidade as queixas são frequentes, sobretudo quando o cidadão é observador atento. Na foto abaixo você avista uma cobradora de ônibus dentro de uma estação tubo em Curitiba; a julgar pelas roupas e o encolhimento do corpo, a funcionária está com muito frio. Quem costuma utilizar do transporte público reconhece a situação de desabrigo dos que trabalham nessas condições, especialmente nos dias de inverno. Faça um comentário e envie à Coluna do Leitor; se puder, apresente sugestões de melhoria, ao contrário das críticas destituídas de seriedade.

“Estou com muito frio” parece declarar a cobradora de ônibus – Cenas curitibanas, julho 2009
Comecei a escrever cartas aos jornais e revistas quando era uma adolescente; mandava cartinhas para a seção de leitores das revistas em quadrinhos (eu adorava as edições mais antigas do Pato Donald, Mickey, Tio Patinhas) e tinha uma assinatura da antiga revista infanto-juvenil chamada Nosso Amiguinho. Troquei cartas e centenas de cartões postais com outros leitores, também adolescentes, portanto treino a redação há muito tempo; mais tarde, universitária, comecei a escrever aos jornais – e hoje estou aqui trocando ideias com você, prezado leitor.
Ler e escrever participando da vida em sociedade é uma prática extremamente saudável, porque expressa dois lados muito interessantes: a liberdade de expressão conquistada e a importância dos espaços de interação nos veículos impressos ou nas plataformas digitais. Sou fascinada pelas possibilidades de expressão das ideias, sobretudo através da escrita – e você?
Até a próxima!







