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O fabuloso Vinho da Madeira, entenda por que ele é tão famoso
| Foto: Bigstock

O vinho da Ilha da Madeira reina, desde seu nascimento a cerca de 600 anos atrás, dentre os maiores do mundo. Sua grandiosidade deve-se às castas Sercial, Verdelho, Boal, Malvasia (Malmsey) e Terrantez, todas brancas. Esta última quase extinta e de todas a mais espetacular. Desfrutar de um grande Madeira, seja seco ou doce, é um prazer inigualável. Possui uma intensidade única, aliada a complexidade, nuances, energia e poder indescritíveis. Além de ser capaz de viver gloriosamente por mais de 100 anos, podendo ir até 200.

O arquipélago é formado por ilhas vulcânicas belíssimas, a maior delas coberta por luxuriante vegetação, isoladas no pleno azul do Oceano Atlântico, a 545 km da costa da África (Marrocos).  Fascinou a imaginação dos navegadores antigos, associado à imemorial lenda da existência das Ilhas Encantadas, verdadeiro paraíso na Terra, perdido em algum lugar para além das colunas de Hércules, em pleno oceano desconhecido. Em alguns mapas pré-renascentistas, de cerca de 1350, a lendárias existência de Ilhas Encantadas era plotada pelos cartógrafos em posições aleatórias do ignoto oceano.

Descoberta e início do cultivo da vinha

Sua existência e posição vieram afinal  ser definidas com a descoberta e conquista pelas frotas do Infante D. Henrique, o Navegador. Em 1419, o grande navegador português Gonçalves Zarco, a serviço do Infante, descobriu e tomou definitivamente possa das Ilhas Encantadas para Portugal, permanecendo até hoje como território português. Madeira, assim chamada pelas densas florestas,  é a ilha mais importante.  Pela posição estratégica, passou a ser ponto de passagem, abastecimento e aguada das frotas das descobertas portuguesas e depois das rotas da Índia, do Oriente e Brasil.

A vinha foi introduzida pelo Infante D. Henrique, que mandou plantar as uvas Malvasia, da Grécia, logo a seguir ao descobrimento. Já no século XVI, a vinha tornou-se a cultura dominante da ilha, pela excelência dos vinhos produzidos na faixa predominante entre 300 e 750 metros de altitude. Os melhores vinhedos situam-se na parte Sul da ilha. As vinhas são plantadas em socalcos, nas encostas íngremes dos penedos, no sistema de latadas. Aquelas situadas na altitudes mais elevadas produzem vinhos mais ácidos, delicados e perfumados, enquanto os mais baixos, vinhos mais frutados e mais doces.

Pela sua beleza apaixonante e clima permanentemente temperado, a Madeira sempre foi associada à ilha dos amores, sendo parada obrigatória de muitos casais em lua-de-mel. Possui hotéis belíssimos, paisagens deslumbrantes e clima permanentemente temperado. É famosa a história do Machin, jovem inglês, que se apaixonou por Ana de Harfet, filha de um casal da nobreza. Como os pais da noiva negaram permissão para o casamento, em razão da origem humilde do noivo, os jovens apaixonados fugiram de barco para ir viver na França. Uma tempestade acabou por arrojar os dois na Ilha da Madeira, onde viveram seus dias de amores, tendo por lar o oco de uma gigantesca árvore. Até hoje, na Madeira, há o local denominado Machico, onde supostamente o casal apaixonado viveu seus amores.

Grandes episódios do Vinho da Madeira

Ilha da Madeira.
Videiras nas encostas da Ilha da Madeira. | Bigstock

O Vinho da Madeira, pela sua altíssima qualidade, sempre foi muito apreciado pelos ingleses, que o consomem em grandes quantidades desde o século XVI. Mencionavam a Madeira como a Ilha do Vinho. O Duque de Clarence, condenado à morte por conspirar contra o soberano, Henrique IV, escolheu morrer afogado dentro de um tonel de Malvasia (Malmsey) da Madeira, vontade fielmente cumprida na Torre de Londres. O fato bem mostra a importância do Madeira já no final do século XVI.

Na literatura de Shakespeare, o Madeira aparece num episódio do “Henry IV”, em que Falstaff vendera a alma por um cálice de Madeira e uma perna de frango.

Difundido pelos ingleses, o consumo dos suntuosos e opulentos vinhos da Madeira tornou-se muito expressivo nas 13 Colônias da América. Mais tarde, com as lutas pela independência, o Vinho da Madeira passou a ser um dos importantes símbolos da rebelião dos americanos contra o rei da Inglaterra.

De fato, o primeiro incidente do movimento contra o fisco britânico, que ao final gerou a famosa “tea party” em Boston, foi a rebelião contra o pagamento de direitos à coroa britânica por 100 pipas de vinhos provenientes da Madeira.  O Vinho da Madeira tornou-se um símbolo das lutas pela liberdade e foi com ele que brindou-se a Independência dos Estados Unidos. Entre seus fiéis apreciadores, Franklin, Washington, John Adams, Thomas Jefferson.

Muitos dos vinhos embarcados aos Estados Unidos no século XVIII e XIX eram de altíssima qualidade e as grandes garrafas disputadíssimas ao preço de ouro, chegando a valores muitas vezes mais altos que os melhores clarets (Bordeaux), até 40 dólares a garrafa, isso no século XIX !

Durante o século XIX, reinou como um dos ícones de consumo e bom gosto na opulenta corte dos Czares da Rússia.

Napoleão, ao passar pela Madeira a caminho de seu exílio em Santa Helena, ganhou uma pipa de vinho do governador da ilha. Essa pipa acabou não sendo consumida. Voltou à ilha e foi engarrafada a partir de 1940, com o título de Battle of Waterloo. Winston Churchill, de visita à ilha, foi um dos poucos contemplados com uma garrafa desse lendário vinho.

O estilo consagrado

Assim como o Vinho do Porto, o estilo hoje conhecido do Vinho Madeira somente começou a aparecer no século XVIII, quando iniciou-se o processo de adição de aguardente vínica ao vinho, e depois ao mosto em fermentação. Esse estilo acabou por triunfar e dominar a produção do Vinho da Madeira.

| Bigstock

Pelas normas atuais, a Madeira é uma região vinícola demarcada, cabendo ao Instituto do Vinho da Madeira a fiscalização do produto. A vinha é muito dividida, sendo pequenas parcelas distribuídas por um grande número de pequenos proprietários, que vendem seu produto às poucas casas exportadoras. O Vinho Madeira terá um grau  alcoólico não inferior a 17,5% e não superior a 22%.

Em casos especiais, seu teor alcoólico poderá ser autorizado pelo IVM até 15,5%. A aguardente a adicionar aos mostos será obrigatoriamente vínica. Pode se adicionada durante a fermentação ou após a fermentação. Quanto mais tarde for a adição da aguardente, menos doce será o vinho resultante.

Uma vez feito o vinho, se ele não for de canteiro, poderá passar por um processo de estufagem. Esse método procura imitar o efeito das antigas viagens marítimas, nos navios a vela, em que o vinho, nos seus tonéis, sofria com o balanço do mar e com os calores das viagens para as Índias e para a América. Cedo notou-se que os vinhos chegavam ao destino melhores do que quando haviam sido embarcados.

Por outro lado, muitos tonéis que retornavam à origem mostravam-se ainda muitíssimo superiores ao vinho quando tinha sido embarcado. Esses últimos eram os cobiçadíssimos vinhos ditos de “torna-viagem”, “de volta”, “de roda”, em oposição aos vinhos que ficavam “em canteiro”, sem sair da Ilha.

Os vinhos “de roda” eram mais apreciados na Inglaterra que os “de canteiro”, valendo em média o dobro do preço, em especial os icônicos “East India Madeira”, ou ainda os V.O.W. I. (Very Old West Indies Madeira).

Pois bem, com as guerras napoleônicas, o frete dos navios tornou-se proibitivo e assim os produtores começaram a tentar o mesmo efeito com os vinhos em terra, deixando-os em estufas (hoje em dia, de sol ou artificiais), em que a temperatura chega aos 40°C a 46°C, pelo tempo de uns 3 meses. Há Madeiras, contudo, que não passam pelo processo de estufagem e são conhecidos atualmente como vinhos de “canteiro”.

As castas

As principais uvas de qualidade, todas brancas, são: Sercial (Cerceal), a rainha para os vinhos secos, plantada nas altitudes mais altas, elevada acidez, por muito tempo pensou-se ser a Riesling do Reno, mas hoje está demonstrado não haver relação entre elas; Verdelho, dominava os vinhedos antes da filoxera, também para secos, ligeiramente menos ácida e mais encorpada que a Sercial, com o tempo dá vinhos penetrantes, com nuances esfumaçadas e de frutos secos; Boal (ou Bual) mais cheia, mais escura, mais adocicada, grandiosos vinhos de sobremesa, muito complexa; Malmsey (ou Malvasia), excelente corpo, balanço, perfume; e a Terrantez, verdadeiramente sublime, quase extinta.

É famosa a quadra popular em homenagem à Terrantez, pela qualidade única de seus vinhos:

"As uvas Terrantez,
Não as comas nem as des.

Para o vinho,
Deus as fez.
"

Contudo, após as sucessivas pragas do oídio e da filoxera, que devastaram os vinhedos de meados ao final do século XIX, as castas brancas tradicionais cederam lugar às castas tintas, que acabaram responsáveis por aproximadamente 90% da produção total, das quais se destaca da Negra Mole, de longe a mais difundida na Ilha. De origem desconhecida, há quem defenda que resulta de cruzamentos entre a Pinot Noir e a Grenache. Se plantada mais ao alto, dará vinhos de estilo próximos à Sercial ou Verdelho.

Mais abaixo, vinhos no estilo Bual ou Malmsey. Por algum tempo, produtores não tão escrupulosos vendiam vinhos “Malmsey” ou  “Sercial”, por exemplo, em que quase 100% do lote era feito com Negra Mole. Hoje em dia esta prática está abolida e quando um vinho declare uma casta, pelo menos 85% do lote deverá ser da variedade declarada. Aos poucos, as vinhas estão sendo reconvertidas para as castas nobres tradicionais, mas pela sua versatilidade e bons vinhos que pode produzir, a Negra Mole deverá ainda continuar dominando o panorama por algum tempo.

O Madeira  à mesa

De modo geral, os Madeiras mais secos são bebidos antes das refeições ou com as sopas. Os mais ricos (doces), com a sobremesa ou após as refeições. Temperatura de serviço em volta dos 12°C para os mais secos (Sercial, Verdelho, p. ex.), e dos 17ºC para os mais doces (Malmsey, Bual, p. ex.) . Copos com algum volume, como para o Vinho do Porto.

Acaso a garrafa tenha depósito, é essencial decantar, para que o vinho não se turve ao servir. Turvo, além de perder a beleza da cor, o vinho fica como que abafado, e perde muito de suas melhores nuances e atrativos.

Madeiras secos combinam lindamente com caviar, ovas de peixe, defumados, presuntos, azeitonas, sopas, consomés, e atum – é famosíssimo o atum pescado em volta da ilha. Madeiras doces vão lindamente com sobremesas como mousse de maracujá (uma iguaria !), chocolate, cremes, tortas, frutas secas. Acompanham muito bem o filé à Madeira, fígados, cogumelos, carnes de porco, foie gras (Madeira doce) e assim por diante.

Duas combinações clássicas, seculares e absolutamente perfeitas para o Madeira são o bolo de mel e os charutos.

Guarda e longevidade

Terrantez 1960 e Justino's 10 anos: dois ícones. Arquivo pessoal/Guilherme Rodrigues.
Terrantez 1960 e Justino's 10 anos: dois ícones. Arquivo pessoal/Guilherme Rodrigues.

A garrafa, depois de aberta, pode ser conservada por muitos dias, por mais tempo ainda que o Porto. Fechada, deve ser armazenada preferencialmente na posição vertical.

É um dos vinhos mais longevos e resistentes de todos, sendo muito bem conhecidas garrafas em perfeito estado com vinhos do século XVIII e XIX. A casta mais nobre e hoje em dia muito rara é a Terrantez, cujos vinhos começam a ficar maduros após pelo menos 30 anos. Um Madeira Terrantez com mais de 50 ou 60 anos de idade (pode ter até 200 ...) é sempre um dos vinhos mais espetaculares que alguém poderá beber alguma vez na vida.

Lembro-me de um Madeira Blandy’s Terrantez 1902, provado em meados dos anos 90, cuja opulência de aromas encheu a sala e destronou a vedete do dia, nada menos do que um soberbo Noval Nacional 63. Com o nariz a mais de 40 cm do copo sentia-se, o perfume inebriante, intenso, complexo e delicioso do vinho. Na boca, uma elegância como poucos vinhos: concentradíssimo, puro extrato, uma sinfonia de aromas e sabores exóticos, frutado, fresco … isto mesmo, com quase 100 anos e um frescor que daria inveja a grandes vinhos recém elaborados. Uma verdadeira obra de arte. Dentre os vinhos que bebi até hoje, se fosse para escolher 3 garrafas, esta seria sempre uma delas !

Michael Broadbent, o grande crítico de vinhos inglês e ex-diretor de vinhos da casa de leilões Christie’s, em sua obra clássica “ The Great Vintage Book”, onde reproduz a avaliação das provas que fez dos vinhos mais notáveis do mundo desde o século XVII, emprega um critério em que o máximo são as tradicionais 5 estrelas. Mas às vezes as 5 estrelas não bastam, e Broadbent atribui impensáveis 6 estrelas a alguns raríssimos vinhos, de tão notáveis. Entre eles, um Madeira, o H.M. Borges Terrantez 1.862, bebido algumas vezes por eles, maior parte durante a década de 1980. O vinho com cerca de 120 anos, portanto.

Há diversos tipos de Madeira. Os mais singelos e também deliciosos, com menos idade. A qualidade sobe (ou deve subir) com a idade. No patamar de 10 anos, com a indicação a idade, já são vinhos bem superiores. Daí em diante, quase sempre a safra vem indicada, assim como o tipo de uva com que é feito.

Em alguns casos o vinho é resultante do processo de solera, um loteamento através dos anos com vinhos de diversas safras. Nestes caso, a data indicada é a do vinho mais velho, que educa os mais novos que lhe são adicionados, dando a personalidade do vinho final.

Felizmente a Madeira está voltando à sua boa e antiga forma. São vinhos extraordinários, exóticos e únicos, com uma história riquíssima. Incursionar por esse mundo, dos vinhos das Ilhas Encantadas, é uma experiência única.

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