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um corpo caído no banheiro. veste terno.

Todas as classes sociais são vítimas de um acidente relativo à tentativa de suicídio (photo credit: cadáver coronel II via photopin (license))

Começo este artigo com um relato revoltante, triste, absurdo, dado por uma amiga em um post meu no Facebook:

Uns 2 anos atrás socorri uma amiga que tentou se matar tomando um coquetel de drogas. Ela tinha 28 anos e tinha acabado de retornar dos EUA depois de sofrer anos de abuso do marido americano, desesperada por não ter conseguido autorização pra trazer com ela a filha de 3 anos. Mas também não aguentava mais ser surrada na frente da criança quase que diariamente. Ao chegar no Brasil entrou em depressão profunda. Eu liguei pra ela por acaso, enquanto ela ainda estava passando mal pelo efeito das medicações que tomou. Ela não tinha tinha plano de saúde e eu a levei numa UPA, onde, chegou já tendo convulsões e ao saber a causa, o emergencista a classificou como baixo risco. Eu questionei a decisão dele, disse que o risco de morte era altíssimo. E ele riu: “Mas não era isso que ela queria? Lá fora tem gente com problemas realmente graves e lutando por suas vidas, enquanto ela tentou tirar a própria. Eles são prioridade pra mim, ela não”. Voltei com minha amiga pra recepção, onde ela convulsionou mais duas vezes, e ninguém da UPA ofereceu nenhum tipo de assistência. Ela foi atendida inconsciente, mais de 3 horas depois e não me permitiram acompanhá-la quando entrou. De lá foi transferida pro Souza Aguiar e como dei meu contato no atendimento, fui eu quem soube primeiro de sua morte. Fui com a irmã dela reconhecer o corpo, que estava nu, jogado no chão molhado do necrotério. Dos maiores traumas que vivi na minha vida…

Acredito que a proporção entre bons e maus profissionais na área médica segue mais ou menos a proporção de bons e maus profissionais na espécie humana.

Feita essa ressalva – necessária para aqueles que entendem tudo como generalização -, digo que eu soube (de fonte que não posso revelar por motivos corporativos e pessoais óbvios), que é comum que pessoas que chegam aos pronto-socorros depois de tentativas malsucedidas de suicídio sejam maltratadas pelas equipes médicas.

Os motivos são diversos. O mais comum é que médicos e enfermeiros se ressintam de precisar atender uma pessoa que tentou se matar enquanto há tantos casos na fila, no mesmo instante, de pessoas que querem viver ou apaziguar alguma dor ou minimizar algum ferimento acidental.

Como se a pessoa que tentou suicídio não quisesse viver, apaziguar a dor ou amenizar seus ferimentos, físicos e emocionais.

Quem é o médico para decidir, através de uma avaliação moral, quem merece mais ou menos viver?

Existe algo que o laureie com essa dádiva de caráter no juramento de Hipócrates?

Leigos costumam erroneamente entender que uma tentativa de suicídio seja apenas uma maneira de chamar a atenção, pois “quem quer se matar mesmo consegue”.

Uma frase tristemente comum essa.

Ainda que isso, em parte, fosse verdade, uma tentativa de suicídio é uma ocorrência médica que precisa de atenção e o mesmo tratamento humano que qualquer outra.

Nem mais nem menos.

Ainda que fosse uma tentativa de chamar a atenção ou mesmo, na pior das hipóteses, de manipular os sentimentos de familiares, pessoas amigas e parceiras, essa tentativa é passível de acidentalmente vir a se concretizar.

E o que é um acidente?

O motorista bêbado sofreu um acidente?

E o eletricista que não seguiu as regras de segurança?

E o que dizer de quem abusa da velocidade ou digita enquanto dirige?

Antes que eu avance pelo terreno um tanto sofista de determinar as fronteiras entre intenção, descuidos e acidentes de fato ou mesmo dizer que não existem acidentes mas consequências a riscos consciente ou inconscientemente assumidos, vou emitir minha opinião sobre o tema.

A mesma que emiti no meu perfil do Facebook:  pacientes originários de tentativas de suicídio estão com problemas reais e precisam de ajuda tanto quanto qualquer outro que esteja em um atendimento de emergência ou urgência.

As profissões da área médica devem estar eticamente além de qualquer julgamento moral idiota e superficial que porventura o profissional possa fazer.

Considerando que nenhum de nós é santo e não conseguimos evitar julgar, esse julgamento deveria ser guardado para si e não transparecer no tratamento que é dado ao paciente.

Depois que publiquei essa opinião, diversas pessoas emitiram seus comentários e relatos, mostrando que é comum que certos acontecimentos e doenças sejam passíveis de maior empatia médica que outros. Particularmente, os de origem psicológica são passíveis de menos empatia.

E não precisa ser suicídio. Basta parecer, de maneira que os profissionais, sem evidências, cheguem às suas próprias conclusões.

Tive um acidente que nada tinha a ver com suicídio e muitos enfermeiros ficaram fazendo pressão pra mim praticamente ‘confessar’ algo que eu não tinha feito. Uma delas chegou pra mim e começou a dar lição de moral, em tom ameaçador, falando que na minha idade ela já tinha um filho e blablabla. Eu pela situação fragilizada não consegui mandar ela a merda, afinal minha saúde ainda dependia da boa vontade desse tipo de pessoa… Foi horrível. Realmente acontece, e muito. Vi cada tipo de comportamento desse povo durante o tempo que passei internada, que é inacreditável. Os que tem humanidade são a minoria, infelizmente.

O que dizer desta paciente de transtorno alimentar?

Quando eu passei por transtorno alimentar fui fazer uns exames e o médico falou que se continuasse daquele jeito ia ter que me internar, transfundir sangue, acho que só pra me assustar. E completou com a pérola “gente que doa sangue espera que vá pra quem mereça, não pra gente como você”.

O tema suicídio – daqueles que querem, por força, partir dessa vida – levantou o tema daquelas que querem trazer uma vida ao mundo:

Tudo isso parece muito com a violência obstétrica que as mulheres sofremos diariamente no Brasil, ao tentar parir. Coisas como ouvir “na hora de fazer não gritou, né?”, humilhações de todo tipo, toques e invasões desnecessárias, procedimentos vexatórios, zero acolhimento e empatia… Eis o sistema de saúde disponível à parturiente.

No post você verá muitas outras afirmações de pessoas reais, amigos meus, que confirmam a existência dessa situação. Não sei em que grau, mas considero que basta que existam algumas para me deixar preocupado com a humanidade do atendimento médico.

São feitas inclusive sugestões de se levar mais a sério a presença de uma pessoa formada em psicologia nas equipes de emergência.

No final, restam as indagações sinceras de meu amigo, diretor de teatro, Adriano Esturilho, deixada no meu post:

Será que a classe médica faz alguma coisa a respeito? Existe uma preocupação ou ação entre os próprios médicos e enfermeiro pra regular esse tipo de postura de alguns de seus colegas de profissão? São perguntas sinceras, não provocações.

Com a palavra, doutores, doutoras, enfermeiros, enfermeiras e outros profissionais da área. Mas sinto que preferirão ficar calados.

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