
Nem sempre as coisas dão certo na cozinha. Pelo menos não do jeito que a gente imagina. E a regra vale, inclusive (ou principalmente) para cozinheiros graduados, chefs consagrados, que estão sujeitos a um ou outro deslize na execução de seus pratos. Um detalhe de sal a mais ou a menos, de um ponto fora do ponto ou de uma apresentação um tanto mais relaxada pode comprometer todo um trabalho de profissional.
O que não é o nosso caso, ainda bem. Um errinho aqui, proporção equivocada deste ou daquele ingrediente podem não produzir o prato perfeito. Mas, para o consumo doméstico, tudo bem. Não que o cozinheiro fique satisfeito, pois o desejo é sempre apresentar o melhor. Mas pelo menos não é de se jogar fora.
Aconteceu com nossas alcachofras. Gosto, preferencialmente, de comprar os ingredientes que utilizo no Mercado Municipal. Especialmente os perecíveis, frutas e verduras, carnes e pescados. Mas o horário nem sempre favorece e, amarrado por outros compromissos, não consegui chegar ao mercadão a tempo de adquirir as alcachofras programadas para o jantar. Estavam lindas, quando as vi na véspera, mas ainda sem intenção de fazê-las.
Na opção pelo supermercado, a primeira constatação: eram bem menores. E o caule não estava tão rijo quanto deveria, embora não comprometesse. Na falta de tu, que vá tu mesmo – diria o matuto. E foi. Vieram as tais alcachofras a, digamos, 80% do ideal.
A ideia era fazê-las recheadas, sem nenhuma sugestão prévia para o recheio. Sobras da geladeira. Tínhamos lá uns tomatinhos-cereja, meio talo de alho-poró, duas fatias de presunto cozido e um fundinho de creme de leite fresco. Com algumas uvas-passas, amêndoas laminadas e farinha de mandioca da despensa poderíamos completar um bom conjunto.
Para começar, cozinhar as alcachofras. Aprendi há muito tempo um método que nunca falha e nem dá trabalho. Depois de limpar bem a alcachofra na água corrente, embalo cada uma delas com papel-filme, envolvendo-as bem. Feito isso, levo ao microondas por 10 minutos. Pronto, resolvido. Só precisa ter cuidado para retirar o papel, pois o vapor retido está muito quente.
Enquanto isso, hora de tratar do recheio. Um pouco de azeite para refogar umas duas colheres (sopa) de cebola picadinha. Assim que murcharam, juntei o alho-poró e depois os tomatinhos, o presunto picado, as uvas-passas e as amêndoas. Quando tudo estava bem misturado adicionei umas duas colheres de creme de leite e mexi bem para amalgamar tudo. Para dar o ponto, fui despejando (em forma de chuva, como dizem os polenteiros) aos poucos a farinha de mandioca até dar o ponto, temperei com o sal e reservei.
Para preparar a alcachofra a ser recheada é preciso retirar as folhas internas, deixando formar uma coroa. É só puxar as folhas (não jogue fora, dá para ir comendo as bases, molhando em vinagrete) e depois, com a ajuda de uma pequena colher, raspar o fundo, para retirar aqueles espinhos que cobrem o coração da alcachofra. Feito isso, é só rechear, ajeitar bem as folhas, cobrir com queijo parmesão ralado e levar ao forno (180ºC) por 20 minutos, em assadeira forrada com papel alumínio.
Não tem erro. Ou tem, caso a alcachofra não esteja exatamente no ponto. Aquele murchinho que detectei ao comprar logo se manifestou perante o calor do forno e as folhas foram se desidratando até algumas se enrolarem completamente. Fui acompanhando pelo vidro do forno a estranha evolução, mas como essa parte não é comestível e interfere apenas na estética, deixei seguir até o fim.
O resultado foi uma alcachofra que parecia mais com essas obras de arte retorcidas que a gente encontra em toda parte. De flor ou de coroa quase nada mais restava. Mas, ainda assim, o prato foi devidamente valorizado e foi à mesa. Apesar do aspecto inusitado, o sabor compensou e tudo valeu a pena. Mas ficou o registro de que nem sempre tudo é maravilhoso na cozinha. Pelo menos no aspecto.
(Para quem se interessou em fazer a receita, pode arriscar sem erro. Desde, é claro, que as alcachofras estejam bem fresquinhas.)
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