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Lavoura de milho no município gaúcho de Westfália
Lavoura de milho no município gaúcho de Westfália| Foto: Hugo Harada / Arquivo Gazeta do Povo

A soja vem do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul e do próprio Paraná. O milho, do Paraguai e Argentina. Os grãos vão parar principalmente nas cooperativas e agroindústrias dos oestes paranaense e catarinense, que engordam seus frangos e suínos e os enviam para todo o Brasil e o mundo via Porto de Paranaguá.

É esse ecossistema redondinho, funcionando com um relógio suíço -- e com o Paraná como sua principal peça --, que um movimento de produtores quer fortalecer para tornar a produção regional mais barata, eficiente e competitiva.

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O conceito dessa região como um “agro cluster”, termo em inglês que pode ser traduzido como agrupamento agropecuário, será o tema central da AveSui América Latina – Feira da Industria Latino-americana de Aves, Suínos, Peixes e Leite, que será realizada em abril de 2022 em Medianeira, no Paraná. O evento é um dos mais importantes do segmento e reúne os principais produtores de proteína animal e atores dessa cadeia na região.

Nesta edição, o evento quer fortalecer a imagem de uma região que compreende os três estados do Sul do Brasil, as porções Oeste do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul e os vizinhos Paraguai e Argentina como o maior agro cluster da América Latina, em um modelo de associativismo que há décadas funciona nos cinturões agrícolas dos Estados Unidos, por exemplo – o país tem regiões que se especializam em produções como de trigo, milho e soja e cujos produtores se organizam potencializar seus negócios. Mas, levemente diferente dos belts, a aposta daqui é em uma produção transversal, aproveitando potencialidades de produtos diferentes.

“Aqui nós já somos o maior metro quadrado de produção de proteína animal da América Latina. Isso dá essa ideia de termos aqui um cluster importante nessa área. Temos todos os segmentos da produção [ração, engorda e industrialização], da logística, da indústria e da comercialização, com marcas consagradas nesta atividade”, diz Irineo da Costa Rodrigues, presidente da Lar Cooperativa, de Medianeira, uma das mais importantes do Brasil.

Produção de aves e suínos tem tendência de alta no país

O potencial da região na produção de proteína animal é evidente. Nas aves, o Brasil fechou 2020 com uma produção de 13,8 milhões de toneladas. Disso, a região do agro cluster foi responsável por quase 70% dessa produção (o Paraná é o grande protagonista, com 35% da produção avícola do país). Na produção de suínos, a região foi responsável por 75% das 4,4 milhões de toneladas produzidas em 2020 (aqui, o destaque é Santa Catarina, com 30% da produção nacional).

Nas exportações, a região também se destaca. O agro cluster foi responsável por mais de 80% das 4,2 milhões de toneladas de aves e quase 90% de 1 milhão de toneladas de carne suína enviadas ao exterior. Paraná e Santa Catarina novamente se destacam.

E há uma tendência de alta: o Brasil espera fechar 2021 com produção de 14 milhões de toneladas de aves em 2021 (um crescimento de 3,5%), passar a China e ficar atrás apenas dos Estados Unidos; nos suínos, o país deve crescer 7,5% no ano, chegando a 4,5 milhões de toneladas e se consolidando como quarto produtor mundial. Claro, a maior parte disso sairá do cinturão entre Paraná e Santa Catarina.

Para que a produção siga crescendo, estados do Centro-Oeste e vizinhos continentais têm um papel fundamental. O Paraguai tem uma forte produção de milho. Neste ano, por conta de problemas climáticos, ela está estimada em cerca de 3 milhões de toneladas, mas, historicamente, esse número é mais elevado, acima das 4 milhões de toneladas. O país, com isso, se torna um importante fornecedor do grão para a produção da região. Além disso, o país tem crescido na produção se soja, nesse ano estimada em 9 milhões de toneladas. Da mesma forma, a Argentina tem intensificado sua produção de milho, chegando a exportar para o Brasil, e elevando sua já tradicional exportação de soja.

Unido a isso, há uma forte produção de grãos no Mato Grosso (maior produtor de soja do país) e Mato Grosso do Sul, que se soma ao crescimento nas áreas de plantio do Paraná e Rio Grande do Sul.

Mesmo para os grandes gargalos da produção, há indicativos otimista. Um dos projetos que busca resolver o problema logístico, o mais significativo deles, é o da Nova Ferroeste, uma estrada de ferro ligando Maracaju (Mato Grosso do Sul) ao Porto de Paranaguá (Paraná). O projeto conta com short lines, que são ramais férreos pequenos que saem da agroindústria (ou cooperativa) e podem ser acoplados à composição principal na linha férrea. Em fase de licenças, o projeto vem sendo divulgado pelo governo à iniciativa privada e a estimativa é que pode sair do papel nos próximos anos.

“Um cluster é uma grande interligação de todos os segmentos de uma cadeia produtiva, que podem estar ligados de uma forma regional ou de uma forma interfronteiriça entre estados. O foco, no caso da definição, não está necessariamente estar dentro de um país, mas, sim, no negócio que ele gera oportunidades. Aqui há todas as características”, destacou Humberto Luiz Marques, coordenador de Comunicação da AveSui América Latina, durante a apresentação do projeto, em outubro.

“Temos aqui grande produção de proteína animal, grande produção de grãos, investimentos de empresas, cooperativas e investimento logístico, que irá possibilitar o escoamento e melhorar a competitividade. Esse é um processo que identificamos como em andamento e que se consolidará ao longo dos anos”, diz.

A percepção de que a região está se tornando um forte agro cluster ajuda na atração ou potencialização de investimentos para os estados e países que pertencem a ela, na visão de Marques. “Já temos um resultado de forte investimento. Somente as cooperativas, neste ano, devem investir R$ 4,2 bilhões em vários elos da cadeia produtiva”, disse durante apresentação do projeto.

O crescimento pode ajudar a região a futuramente disputar o protagonismo com os organizados cinturões norte-americanos, que hoje produzem mais de 20 milhões de toneladas de aves e 12 milhões de toneladas de suínos, se consolidando como os principais eixos produtivos nas Américas.

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