Inspiração para o aplicativo surgiu após um dos fundadores observar a dificuldade dos pacientes do Instituto Paranaense de Cegos para usarem o transporte coletivo.
Inspiração para o aplicativo surgiu após um dos fundadores observar a dificuldade dos pacientes do Instituto Paranaense de Cegos para usarem o transporte coletivo.| Foto: divulgação.

O Rock in Rio 2019 oferecerá as pessoas cegas uma oportunidade inédita de interação com as atrações do festival. Através do app (aplicativo) Veever, este público poderá ouvir, usando comandos de voz executados no celular, indicações de direcionamento para arenas, praças de alimentação, banheiros, entradas e saídas, e até mesmo audiodescrições de cores, formas, tamanhos e curiosidades de cada uma das atrações.

A tecnologia foi desenvolvida pela startup curitibana de mesmo nome e usa dispositivos bluetooth, instalados fisicamente no espaço do festival , para serem reconhecidos por quem tiver o aplicativo instalado no celular. A partir dessa leitura, o app passa a transmitir as informações em áudio, automaticamente.

Esse é o primeiro evento em que a tecnologia será testada. O Veever, no entanto, já passou por uma série de provas em espaços fechados, como museus, escolas e transporte público.

“Os organizadores do festival nos procuraram já que, desde a última edição, eles iniciaram uma política de inclusão muito forte, promovendo estruturas como mapas em braile, pisos táteis e, agora, estavam atrás de soluções em tecnologia”, explica um dos fundadores da startup, João Pedro Novochadlo.

Os números do festival comprovam isso. Para este ano, das 750 mil pessoas previstas para os cinco dias do Rock in Rio, apenas 30 são deficientes visuais e já estão com ingresso comprado. A expectativa é que com o app e as estruturas de inclusão, esse público cresça.

Mercado

Os resultados dessa experiência também prometem impactar diretamente nos negócios da startup. Isso porque a meta dos empreendedores é levar, nos próximos meses, o Veever para os shoppings da capital paranaense, museus e grandes pontos turísticos do estado.

“Estudamos oferecer o serviço para pontos como as Cataratas do Iguaçu, por exemplo, que recebe milhares de visitantes por ano e tem políticas de inclusão estabelecidas”, acrescenta Novochadlo.

O modelo de negócios funciona através da locação mensal dos dispositivos de bluetooth. Cada ponto custa aproximadamente R$ 16. Outros custos envolvendo a implantação da tecnologia são a gestão da informação, gravação das audiodescrições e formulação do projeto de comando de voz, itens que custam em média  R$ 15 mil para serem executados, em espaços de grande acesso público, como centros comerciais.

Curitiba é celeiro

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O app LookforMe Ficou em segundo lugar, entre mais de 70 startups de tecnologia e educação, na semifinal da GESAwards Brasil 2019, que aconteceu em Curitiba durante o Let's Go Festival.| arquivo pessoal.

O Veever não é o único app do gênero criado na capital paranaense, que tem olhado para o segmento de tecnologia assistiva. A LookforMe, outra startup, também tem ganhado destaque no cenário justamente por propor o uso de um aplicativo dentro das salas de aula, que auxilia jovens com algum tipo de deficiência a serem mais autônomos e acompanharem os exercícios, em tempo real.

A tecnologia usa uma espécie de scanner e inteligência artificial para entender os conteúdos passados em quadro e livros. A escrita cursiva é fotografada e então “traduzida” para um formato mais acessível para o estudante, seja como audiodescrição para cegos, áudio aumentado para pessoa surda, lupa para quem tem baixa visão, contraste para quem é daltônico ou áudio diminuído para quem tem deficiência mental.

A tecnologia foi recentemente premiada como a segunda mais impactante na área de educação, no evento nacional GESAwards Brasil e, graças a esse título, participará em janeiro, em Londres, de mentorias e da disputa internacional no segmento. A iniciativa também foi selecionada pelo BNDES Garagem para passar por um processo de incubação e aceleramento, no Rio de Janeiro, durante os próximos três meses. A expectativa dos executivos é que o projeto ganhe o mercado até dezembro.

“Participamos de grupos de tecnologia assistiva em Curitiba, no departamento de design da Universidade Federal do Paraná. Também temos conhecimento de grupos de estudos semelhantes no Maranhão e Santa Catarina”, explica o professor Amaury Dudcoschi Júnior, um dos fundadores do projeto.

“Na área privada vemos investimentos fortes de empresas como a Microsoft e IBM neste tipo de tecnologia, justamente porque é um segmento de forte impacto. De acordo com a Organização Mundial da Saúde temos mais de um bilhão de pessoas com algum tipo de deficiência no mundo. No Brasil, eles são 24% da população. Se focarmos ainda mais só na área de educação, os dados do INEP [Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas] mostram que temos mais de 1,5 milhão de alunos precisando desse tipo de auxílio dentro de sala de aula”, pontua o profissional.

Quando lançado definitivamente, o LookforMe também poderá ser usado em empresas e outros estabelecimentos. A ideia dos empreendedores é cobrar um licenciamento anual das instituições, para que elas ofereçam a plataforma aos estudantes e colaboradores.

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