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Ida de grandes indústrias ao Paraguai atrai empresários, mas conta pode não fechar para todo negócio

Imposto de 1% da Lei de Maquila atrai empresários brasileiros ao Paraguai, mas a vantagem tributária nem sempre se sustenta diante do custo operacional e da falta de um projeto de internacionalização

Indústrias brasileiras avaliam custos de produção, logística e exportação antes de transferir parte das operações para o Paraguai.
Indústrias brasileiras avaliam custos de produção, logística e exportação antes de transferir parte das operações para o Paraguai. (Foto: pexels)

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O número de brasileiros que decidem morar no Paraguai nunca foi tão alto. Em 2025, o país registrou recorde histórico de 47 mil pedidos de residência, alta de mais de 63% sobre o ano anterior. Entre as empresas, o interesse por estruturar operação no país vizinho cresce, impulsionado pela repercussão de grandes indústrias que atravessaram a fronteira e pela reforma tributária brasileira, que entra em transição e mantém o empresário sem saber qual será a alíquota final do IBS e da CBS, com estimativas que variam de 26% a 28%. O maior atrativo é a Lei de Maquila, que cobra 1% de tributo único sobre o valor agregado da produção. Esse ambiente levanta dúvidas para o empresário brasileiro. O Paraguai é para todo mundo?

Segundo o governo paraguaio, 232 empresas brasileiras passaram a operar sob a Lei de Maquila desde 2007, cerca de 70% das mais de 320 companhias estrangeiras no regime. As exportações das maquiladoras somaram US$ 594 milhões até maio de 2026, alta de 24% na comparação anual, segundo o Conselho Nacional das Indústrias Maquiladoras de Exportação (CNIME). Por trás dos números positivos, a conta muda de empresa para empresa e depende do produto, do público que se quer atingir, do objetivo da mudança, do custo operacional de manter uma estrutura fora do país e de a companhia querer de fato se internacionalizar ou apenas produzir no Paraguai para devolver a mercadoria ao Brasil.

Especialista em comércio exterior, Karina Schnaid vê no movimento atual mais entusiasmo do que preparo. "O empresário chega com a pergunta errada. Ele quer saber quanto vai pagar de imposto no Paraguai, quando deveria perguntar onde está o cliente dele. Antes da alíquota, precisa saber para quem vai vender, quanto vai custar manter duas estruturas e em quanto tempo esse investimento volta." Para ela, o discurso dominante fala quase sempre das grandes empresas, que têm musculatura financeira para abrir e fechar operação lá fora sem grandes perdas, o que não é a realidade da maioria que bate à sua porta. "A multinacional abre e fecha sem problema, ela absorve o risco. Para uma empresa média, a conta é outra. O projeto só costuma compensar a partir do momento em que ela já exporta para o Mercosul e tem escala para sustentar duas estruturas."

Outro ponto importante é abordado por Elisberto J.Torrecillas quanto a importância da preservação do capital de giro próprio. “Todo projeto de investimento em estrutura fixa é recomendável buscar financiamento externo  com  encargos compatíveis com o retorno esperado e preservar o capital de giro para o funcionamento normal da empresa", explica. Para ele, quando esse limite é ultrapassado, a empresa compromete sua geração de caixa e de resultado, o que se reflete até na distribuição de dividendos.

Mauro Gomes, especialista em internacionalização há 25 anos e ex-vice-presidente da Câmara de Comércio Brasil-Paraguai, afirma que o país vizinho pode não se sustentar como mercado consumidor, e sim como plataforma, em alguns casos. "O Paraguai tem hoje uma população de 7 milhões de habitantes. Não é um grande mercado, mas tem uma série de incentivos fiscais, parafiscais e financeiros. É estratégico para quem quer crescer no mercado mundial, porque logisticamente está muito próximo do Brasil e tem uma regulamentação tributária muito simplificada."

Nomes conhecidos ajudam a explicar por que o assunto ganhou tração. Na última década, Lupo, Estrela, M.Dias Branco, Karsten, JBS e Lunelli iniciaram ou retomaram produção no Paraguai. No varejo, a paranaense The Best Açaí, rede de açaí e sorvetes, fez do país vizinho a porta de entrada para o mercado internacional.

Internacionalização

Para Karina Schnaid, esse é o ponto que separa um projeto que dá certo de um que fracassa. "Não é uma economia tributária, é uma internacionalização. E internacionalização tem custo de entrada, curva de aprendizado e risco cambial." Segundo ela, é esse cálculo, e não a alíquota de 1%, que deveria abrir a conversa com qualquer consultor antes da assinatura de qualquer contrato.

De acordo com Gomes, responsável pela consultoria de internacionalização da rede, a The Best Açaí começou a se preparar há quatro anos pela regulamentação, com registros de marca e de produto e as adequações sanitárias exigidas nos países de destino. "O Paraguai foi um degrau. Começou de uma maneira bem tímida, mas se mostrou bem comercial. As lojas se mostraram bem vendáveis, e o produto foi muito bem recebido pelo nível de qualidade." Quem está atrás do balcão também chama atenção. "98% dos franqueados lá fora são brasileiros, querendo ter um negócio com tributação mais baixa e margens de lucro melhores. É o pequeno empresário entrando na internacionalização."

Validado o modelo no país vizinho, a rede mirou os Estados Unidos, que Gomes descreve como o maior mercado de sorvete do mundo. "Todo o ensaio feito dentro do Paraguai possibilitou esse início no mercado americano." A primeira unidade americana, própria, foi inaugurada neste ano em Miami Beach. A The Best não produz no Paraguai para vender no Brasil. É isso que, segundo os especialistas, dá sentido à internacionalização.

Nem todo empresário que bate à porta das consultorias chega com esse desenho. Country manager da China Point do Brasil, Junior Costeski sente o aumento da procura. "Está tendo um interesse maior de pessoas que estão curiosas, porque hoje a mídia fala muito sobre. A Lupo, por exemplo, colocou unidade lá dentro, e o Paraguai está em ambiente favorável, mas não é todo tipo de empresa." O consultor já recomendou a clientes que não abrissem empresa no país. O primeiro filtro é o porte, depois vêm produtos, classificação fiscal, logística e mão de obra disponível, em um estudo de viabilidade. Costeski cita dois clientes que produziam camisas sociais no Brasil e hoje têm produção zerada em solo brasileiro. Um deles migrou 99% da operação depois que uma medida antidumping encareceu a principal matéria-prima, importada da China.

O que mais chama atenção nesse movimento é a Lei de Maquila. Criado em 1997, o regime permite que uma indústria instalada no Paraguai, a maquiladora, transforme insumos e produza bens por encomenda de uma empresa estrangeira, com foco na exportação. O contador e advogado Jorge Henrique Paiva resume o mecanismo como uma terceirização industrial. "A empresa brasileira vai lá, se instala no Paraguai e contrata uma maquiladora local para fazer o processo industrial dela. O resultado é a exportação do produto." Insumos, matéria-prima e máquinas entram com tributos suspensos, a transformação ocorre em solo paraguaio e o tributo único de 1% incide sobre o valor agregado, e não sobre o faturamento. Somam-se a isenção sobre a remessa de lucros ao exterior e uma carga trabalhista menor que a brasileira. Na média, empresas no regime convivem com impostos e encargos em torno de 12%. Desde a Lei nº 7.547/2025, regulamentada em abril de 2026, o regime também alcança serviços e tecnologia.

O benefício só vale para a produção destinada à exportação. "A conta não fecha quando o mercado é o consumidor brasileiro, porque você tem que reimportar", diz Paiva, que estima carga próxima de 60% no retorno. Com a reforma tributária, a importação passa a ser tributada no destino até 2033, com a mesma alíquota das operações internas. Há ainda a regra de origem.

Para ter preferência tarifária no Mercosul, o produto precisa passar por transformação efetiva. "A transformação no Paraguai precisa ser de 40%. Se você pega uma mercadoria chinesa e apenas reembala, ela será tributada como se viesse da China." Gomes pondera que a volta ao Brasil não é sentença para todos. Quando a empresa depende de componentes importados, a maquila funciona de forma parecida com o drawback brasileiro, e o retorno pode se pagar. Quando a matéria-prima é brasileira, o ganho tende a ser mais tributário do que financeiro.

Produto e público definem o destino

Lincoln Monteiro Castro, consultor em importação, exportação e novos negócios, propõe comparar quanto custaria fabricar o mesmo produto na China, no Paraguai e no Brasil antes de escolher o endereço, e lembra que o país vizinho favorece quem transforma de fato a mercadoria. "O Paraguai não é para todos. É para quem realmente tem uma boa capacidade de transformação." Com relatos de empresas que levaram até 24 meses para começar a produzir por lá, o porte também pesa. "Numa operação relativamente pequena, você vai trocar seis por meia dúzia."

A Dentalclean, indústria de higiene bucal, estuda a viabilidade de entrar no Paraguai. Mas no início, a empresa fez o caminho inverso ao de muitas indústrias e foi primeiro para os Estados Unidos, onde começou a vender pela Amazon em 2025, após três anos de planejamento e investimentos na parte logística com terceirização, exigências regulatórias e adaptação das embalagens para o padrão americano. A escolha, segundo Castro, que conduziu as primeiras exportações da marca, passa por produto e público. O país é o maior mercado consumidor do mundo, e o fio dental, item de alta demanda por lá e tradicionalmente abastecido pela China, ganhou espaço para fornecedores alternativos com a disputa comercial, cenário em que o Brasil se torna uma opção. Na leitura de Castro, exportar para os Estados Unidos a partir do país vizinho seria mais competitivo em taxas do que a partir do Brasil, alvo de sobretaxas na disputa recente entre os dois governos.

A Koube Química do Brasil, fabricante paranaense de aditivos automotivos com 24 anos de mercado, mostra na prática como produto e preço mudam a conta. A empresa, que dobrou de tamanho em dois anos e já exporta para Argentina, Bolívia e Uruguai, desenhou um projeto para industrializar no Paraguai sem abandonar a fábrica no Paraná. "A ideia é usar o país como porta de saída do Mercosul", diz Wesley Cordeiro, gestor de projetos. O desenho previa levar as operações mais simples e manter no Brasil a parte técnica, que exige equipamentos como reatores. Os números iniciais indicavam redução relevante de custo operacional, mas o estudo trouxe à tona a variável que mais pesa no caso da empresa, o transporte. "Nosso produto é mais pesado, e o frete impacta bastante nesses cálculos." Um caminhão leva 25 mil unidades, e a conta por unidade sobe, enquanto confecções embarcam alto volume sem distorcer o resultado, o que ajuda a explicar por que o têxtil migrou antes.

Outros pontos apareceram só em campo. A empresa enfrentou dificuldade para achar mão de obra especializada em química, encontrou uma cadeia de fornecedores majoritariamente brasileira, esbarrou nas licenças ambientais do setor e viu um mercado automotivo local que compra por preço, enquanto a Koube vende produto premium. Nada disso inviabiliza a ideia, mas define o desenho que faz sentido para ela, com a industrialização no Paraguai voltada à exportação e atendimento de parte da demanda no Brasil.

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