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“Aproximai-vos, minha corte.”
No teatro do mundo, a figura do Bobo da Corte tem um papel fundamental: por meio do humor e da arte, dizer a verdade sem medo de ter a cabeça cortada a mando do rei. Por isso, eu virei fã da atriz e influenciadora Katharina Zaparoli e da personagem que ela criou, a Bobo da Corte.
Em vídeos que rapidamente viralizaram pelas redes, a Bobo da Corte usa versos rimados e alcunhas jocosas para denunciar os escândalos e os crimes da corte tirânica que sufoca o Brasil.
Naturalmente, os cúmplices e idiotas úteis da atual tirania não gostaram nada do seu sucesso: acusada de mentir e propagar notícias falsas, a Bobo da Corte sofreu ataques da turma do amor, foi alvo de ameaças criminosas e acabou tendo a sua conta banida no último dia 9 de outubro.
No entanto, como ela mesma diz, a mensagem vai além do mensageiro. Em poucos dias, seu novo canal no Instagram voltou a atrair centenas de milhares de seguidores e os vídeos de Katharina, que de boba só tem o apelido, voltaram a fazer sucesso.
Este cronista de sete leitores teve o prazer de conversar com a mensageira da verdade.
Paulo Briguet: Katharina, queria que você me contasse a sua história. Quem é você e como surgiu essa ideia?
Katharina Zaparoli: Sou uma menina do interior, de Ourinhos, São Paulo. Nasci e cresci aqui, tenho 27 anos. Hoje trabalho com a internet, me comunicando e viajando para eventos, o que pode dar a impressão de uma vida glamourosa, mas a minha infância foi muito simples. Meus pais batalharam demais para que nunca faltasse o essencial para mim e para o meu irmão. Cresci com essa mentalidade empreendedora herdada deles: quando criança, fazia picolé para vender na rua, vendia pulseiras na escola e cones trufados no ensino médio. Sempre me senti um pouco diferente das outras crianças, muito curiosa sobre o porquê das coisas e bastante ligada à arte. Como era mais isolada, passei por bullying, mas isso me ensinou desde cedo sobre autenticidade e relações humanas. Aos 15 anos, ganhei a minha primeira câmera fotográfica profissional e ali a arte virou profissão.
Paulo Briguet: A sua primeira atividade profissional foi, então, a fotografia?
Katharina Zaparoli: Exato. Fui fotógrafa desde os 15 anos e peguei meu primeiro casamento com 16. Me destaquei muito na minha região com festas infantis. Mais tarde, me formei em Análise e Desenvolvimento de Sistemas — nada a ver com a parte artística, mas tenho um raciocínio lógico muito bom. Depois trabalhei dois anos em banco, como atendente e caixa, o que foi uma escola tremenda sobre comportamento humano e resiliência. Saí do banco, voltei a me dedicar totalmente à fotografia e resolvi prestar concurso para a Polícia Militar.
Paulo Briguet: E como foi a transição para a produção de conteúdo na internet?
Katharina Zaparoli: Comecei a postar vídeos em 2023, mostrando a minha rotina pesada de treinos para o concurso da polícia. Em meados de 2024, quando fui reprovada na última fase, resolvi focar para valer nas redes.
Paulo Briguet: A personagem da Bobo já existia nessa época? E como você se descobriu atriz?
Katharina Zaparoli: A Bobo ainda não existia, mas eu já criava outros personagens. A arte me escolheu; desde os seis anos, eu já juntava a família na sala para encenar peças improvisadas. Nas redes, comecei com vídeos de humor e receitas proteicas, até que criei a Dudinha Fit, uma personagem fitness e narcisista que causava muita raiva nas pessoas. Percebi que conteúdos que despertam sentimentos intensos têm um alcance enorme nas plataformas.
Paulo Briguet: Como nasceu exatamente a Bobo da Corte?
Katharina Zaparoli: Eu vinha me aprofundando nos estudos sobre comportamento humano e percebi que temas ligados à identidade — religião, sexualidade, política — criam barreiras intransponíveis num debate convencional. Se você argumenta de forma direta, a pessoa se fecha. A arte, pelo contrário, passa por baixo do radar. Durante o período eleitoral, me perguntei como tocar nas feridas da política sem agredir ninguém e fazendo as pessoas me ouvirem. Estava lendo uma matéria sobre as togas dos ministros do STF quando me veio à cabeça a figura medieval do bobo da corte. Parecia algo que já estava guardado dentro de mim. Comprei uma roupa pela internet, mas não aguentei esperar a entrega de dez dias: improvisei um figurino com o que tinha em casa, escrevi o roteiro e gravei na mesma hora. Postei o primeiro episódio, “O Juiz e o Banqueiro”, perto da meia-noite. Perdi logo uns 50 seguidores e fui dormir achando que tinha dado muito ruim. Quando acordei, o vídeo tinha viralizado completamente.
Paulo Briguet: A figura do bobo da corte é central na história do teatro ocidental, presente até em Shakespeare, porque é o único que pode dizer as verdades mais duras ao rei sem perder a cabeça.
Katharina Zaparoli: Exatamente, ele consegue criticar e passar despercebido. Uso rimas, metáforas e crio nomes como o Rubro Corvo, o Leão Altaneiro, o Rei Fujão ou o Reino de Vera Cruz. É uma forma artística de expressar o que muita gente sente e quer falar, mas não tem espaço ou voz para manifestar.
Milhares de pessoas aderiram e o movimento chamou a atenção. Comecei a receber ameaças diretas de violência
Katharina Zaparoli
Paulo Briguet: A partir de que momento começaram os ataques e a perseguição mais intensa?
Katharina Zaparoli: Nos primeiros episódios, as críticas eram leves, me chamando de parcial. O ponto de virada foi o quinto episódio, “O Reino dos Acusados”, gravado logo após o adiamento do julgamento de Alexandre de Moraes no STF. Ali, a Bobo convocou o público insatisfeito a adotar o sobrenome “da Corte” nos perfis. Milhares de pessoas aderiram e o movimento chamou a atenção. Comecei a receber ameaças diretas de violência. Pouco depois, comentei num post da deputada Eduarda Campopiano dando os parabéns pela vitória dela nas urnas. Grupos feministas juntaram a minha posição pessoal com a personagem e os ataques vieram com muito ódio, com mensagens desejando estupro e até a morte de mulheres da minha família. Gravei o sétimo episódio, “A Bobo Errada”, rebatendo essa hipocrisia e mostrando os prints. Foi a brecha usada para denúncias em massa, culminando na derrubada da minha conta com cerca de 430 mil seguidores por suposta violação de diretrizes.
Paulo Briguet: Como você reagiu ao ver o seu perfil com mais de 400 mil seguidores ser derrubado?
Katharina Zaparoli: Eu estava na estrada, a caminho de São Paulo, quando soube. Senti uma revolta enorme. Foram anos de trabalho jogados fora de uma hora para a outra. Liguei para um amigo mentor que me colocou diante de uma escolha: desistir e me calar ou encarar e ir para cima. Escolhi encarar. Criei uma nova conta e, em dois ou três dias, o público começou a se mobilizar, se maquiando de bobo da corte, gravando vídeos e levantando o novo perfil. É um movimento que ficou muito maior do que eu. Podem calar o mensageiro, mas nunca a mensagem.
Paulo Briguet: E quais são os próximos passos da personagem e do canal?
Katharina Zaparoli: Já tenho vários roteiros prontos e spin-offs em andamento. Vou lançar o episódio oito, que traz a analogia do povo brasileiro com o cavalo: um animal nobre e forte, que aguenta adversidades, mas muitas vezes não tem noção da própria força e se deixa montar. Se o cavalo soubesse a força que tem, corda nenhuma o seguraria. A Bobo vai continuar firme. Podem tentar calar a mensageira, mas não vão silenciar a mensagem.
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Paulo Briguet é escritor, jornalista, palestrante e professor de literatura. Trabalhou em diversos jornais, revistas e assessorias de comunicação no Paraná. Foi colunista da Folha de Londrina e editor-chefe do jornal Brasil Sem Medo. Publicou diversos livros, dentre eles: “Nossa Senhora dos Ateus”, "Coração de mãe", “O Mínimo sobre Distopias” e “Diário de Moby Dick”. Já escreveu mais de 2 mil crônicas. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



