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Paulo Briguet

Paulo Briguet

“O Paulo Briguet é o Rubem Braga da presente geração. Não percam nunca as crônicas dele.” (Olavo de Carvalho, filósofo e escritor)

Crônica de domingo

A minha primeira matéria no jornal

Entre vinis, laudas e máquinas de escrever, nasceu uma crônica: quando o jornalismo ainda exigia memória, ouvido e sensibilidade. (Foto: Imagem criada utilizando OpenAI/Gazeta do Povo)

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Era uma quinta-feira, 17 de setembro de 1992. Oficialmente ainda estávamos no inverno, mas já fazia calor em Londrina. Depois de dar uma passada na biblioteca do bosque, onde peguei um livro do Domingos Pellegrini, de quem eu muitos anos depois me tornaria amigo, resolvi dar um pulo na redação do jornal da cidade, para conversar com alguns companheiros de movimento estudantil. Naquele tempo eu não tinha nem sete leitores, só alguns amigos.

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Há 34 anos os computadores ainda não haviam sido instalados na redação, e as velhas máquinas de escrever e as laudas de 20 linhas viviam seus últimos momentos de protagonismo. Estava tomando um café e conversando com meu amigo e parceiro Ranulfo Pedreiro quando a editora de cultura se aproximou e disse:

— Paulinho, você não quer escrever uma matéria para nós?

Naquele tempo, em que eu era militante de esquerda, todos os jornalistas eram muito carinhosos comigo — daí o “Paulinho”.

Então a editora me passou uma pauta: a morte do compositor Herivelto Martins, aos 80 anos, no Rio de Janeiro. Curiosamente, a minha primeira matéria de jornal foi um obituário.

E o que eu sabia sobre Herivelto Martins? Rigorosamente nada. Como naquele tempo não havia Google nem inteligência artificial — estávamos limitados à nossa ignorância natural —, dirigi-me até o local conhecido como arquivo, onde imperava a minha amiga Cléo.

— Cléo, tudo bem?

— Tudo bem, Paulinho. Que manda?

— Por acaso tem pasta do Herivelto Martins?

— Vou dar uma olhada.

Cléo virou-se, deu alguns passos, abriu uma das gavetas de metal e voltou com um envelope pardo, no qual se lia “Martins, Herivelto – compositor”.

O conteúdo do envelope consistia em diversos recortes de revistas e jornais antigos, além de algumas fotos em preto e branco. Peguei um bloquinho que me deram na redação e, usando o livro do Pellegrini como apoio, anotei as informações básicas sobre a vida e a obra do Herivelto. Minha principal fonte, se bem me lembro, foi uma reportagem biográfica da revista Manchete.

Naquele tempo, como vocês sete sabem, eu era ateu. Com certa surpresa e uma dose de ceticismo, vim a saber que uma das principais canções de Herivelto intitulava-se “Ave Maria do Morro”. Anotei também os nomes de outras canções mais famosas do autor: “Caminhemos”, “Praça Onze” e “Cabelos Brancos”. Fiquei sabendo também de sua turbulenta relação amorosa com a cantora Dalva de Oliveira, uma das rainhas do rádio nos anos 40. A briga pública entre os dois rendeu uma série de canções em que se acusavam mutuamente de mentiras, abusos e traições. Mesmo tão jovem, eu havia saído de um namoro bem complicado na época, e me identifiquei com a história.

O caso é que eu julguei necessário não apenas ler sobre as canções de Herivelto Martins, mas também ouvi-las. Como não havia YouTube nem Spotify na época, decidi dar um pulo numa emissora de rádio que ficava a dois quarteirões, no 10° andar do Edifício Palácio do Comércio.

Chegando à rádio, perguntei ao técnico do estúdio:

— Companheiro, você tem aí discos do Herivelto Martins?

Ele foi até o arquivo da rádio e voltou com vários discos de vinil – os famosos elepês, bisavós do mp3. Passei um tempão diante da vitrola, escutando as canções do Herivelto por aqueles imensos fones de ouvido do tempo do Onça.

“Não, eu não posso lembrar que te amei
Não, eu preciso esquecer que sofri
Faça de conta que o tempo passou
E que tudo entre nós terminou
E que a vida não continuou pra nós dois...”

“Não falem desta mulher perto de mim
Não falem pra não lembrar minha dor
Por ela vivo aos trancos e barrancos
Respeitem ao menos os meus cabelos brancos...”

“E o morro inteiro no fim do dia
Reza uma prece Ave Maria
E o morro inteiro no fim do dia
Reza uma prece Ave Maria...”

Com essas músicas dançando na cabeça, saí de lá voando para a redação e me sentei diante de uma velha Remington. Coloquei uma lauda na máquina e escrevi, não um simples obituário, mas a minha primeira crônica publicada em jornal, sobre a vida de um homem que conheci numa tarde de quinta-feira em Londrina.

“Guardai os vossos pandeiros, guardai
Que hoje a escola de samba não sai...”

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