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“Quem morre agora em algum lugar do mundo, sem razão morre no mundo, olha para mim.”
(Rainer Maria Rilke)
Uma das frases mais terríveis de todos os tempos foi pronunciada por Caim depois de ter assassinado Abel. Em resposta a Deus, que lhe indaga sobre o destino do irmão, Caim diz:
— Não sei. Acaso sou eu o guarda de meu irmão?
É claro que Deus já sabia de tudo. Vejam a sutileza da misericórdia divina: naquele momento, Caim teve a oportunidade de pedir perdão por seu crime. No entanto, não o faz. Preocupa-se apenas com a própria vida.
Não por acaso, tempos depois, Caim funda a primeira pólis, ou seja, a primeira sociedade política. Até hoje vivemos na cidade fundada por Caim, e só a misericórdia de Deus explica por que não nos matamos uns aos outros como víboras e lobos, até que não reste mais ninguém.
A única forma de sobrevivermos à aniquilação mútua é o amor ao próximo. Mas, no mundo envenenado pela política, essa preocupação com a existência do outro virou motivo de chacota. Tudo o que interessa é o eu: meu poder, meu prazer, meu partido, minha vitória, minha felicidade. Quanto ao outro, que se dane. Morreu? Antes ele do que eu.
A indiferença de Caim, no entanto, não pode ser explicada em termos de justiça humana. Ela é fruto da nossa condição decaída, de algo muito importante que o homem perdeu ao rebelar-se contra Deus. A esse sentimento de falta em nosso coração chamamos pecado original. Não há como explicar a atitude de Caim — e sua persistência até hoje — sem atentar para essa semente do mal que ainda habita nosso coração.
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Lembrei-me da história de Caim ao ler as notícias sobre o rapaz que foi deixado por uma companheira de trilha no Pico Paraná. Abandonado pela suposta amiga, o jovem passou cinco dias de pesadelo perdido na mata, enquanto sua família o procurava desesperadamente. Penso na solidão e na angústia desse rapaz, que encontrou forças para sobreviver mesmo nas condições mais adversas.
Essa indiferença pelo destino do outro, que congela a alma de nosso tempo e muitas vezes se transmuta em puro ódio ou na politização absoluta do real, é a inversão completa de uma das belas parábolas de Jesus: a história do Bom Samaritano. Jesus conta essa parábola quando alguém lhe pergunta: “Quem é o meu próximo?”
Ora, o meu próximo é esse que vinha descendo de Jerusalém para Jericó (a cidade mais baixa do mundo, símbolo da danação eterna) e foi atacado por ladrões, sendo deixado quase morto à beira da estrada; o meu próximo é esse menino que começou a passar mal e a vomitar quando descia o Pico Paraná; é esse venezuelano que teve a sua vida aniquilada e festejou a queda do ditador; é esse homem inocente que caiu e bateu a cabeça dentro da prisão; é esse outro jovem que está preso por uma viagem que não fez, por um texto que não escreveu e por um site que não visitou; o meu próximo é esse inimigo, samaritano, que não merece ser deixado morto à beira da estrada como Celso Daniel há exatos 24 anos.
Sim, eu sou o guarda de meu irmão. Mesmo que ele seja meu pior inimigo. Perdoa-me, Senhor, por aqueles que deixei sangrando até a morte à beira do caminho.
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