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Paulo Briguet

Paulo Briguet

“O Paulo Briguet é o Rubem Braga da presente geração. Não percam nunca as crônicas dele.” (Olavo de Carvalho, filósofo e escritor)

Crônica de domingo

As folhas da figueira e o aborto: uma memória do massacre dos inocentes

Uma reflexão sobre o aborto, a defesa da vida e a memória dos inocentes. (Foto: Fernando Cremonez/Câmara Municipal de Londrina)

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“Foi ouvida em Ramá uma voz, uma lamentação, um pranto amargo: é Raquel que chora os seus filhos.”
(Jeremias 31, 15)

Um velho padre certa vez me contou uma história antiquíssima sobre o apóstolo Natanael, também conhecido como Bartolomeu, cuja festa comemoramos no último dia 24.

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Todos se lembram do encontro entre Jesus e Natanael, relatado no Evangelho de São João. Num primeiro momento, Natanael se mostra cético e até sarcástico quanto à possibilidade de que o Messias tenha vindo de Nazaré, a cidade onde Jesus foi criado; homem dedicado aos estudos, Natanael sabia que o Messias viria de Belém.

— Acaso algo bom pode vir de Nazaré? — ironiza Natanael.

Seu companheiro Filipe apenas diz para ele vir e ver com os próprios olhos.

Jesus recebe Natanael com uma calorosa saudação:

— Eis um verdadeiro israelita, em quem não há dolo!

— Donde me conheces tu?

— Eu te vi quando estavas debaixo da figueira — fala Jesus.

Ao ouvir essa frase, Natanael sofre um impacto violento e responde:

— Mestre, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel!

Sempre me pareceu surpreendente essa súbita mudança no estado de espírito de Natanael, o filho de Ptolomeu (Bar-Tolomeu).

Aquele velho padre que eu mencionei no início dizia haver uma razão secreta para tal transformação. Trinta anos antes daquele encontro, a mãe de Natanael escondera o seu filho recém-nascido sob as folhas de uma figueira, para evitar que o bebê fosse morto pelos soldados de Herodes, no episódio conhecido como o Massacre dos Inocentes.

Lembrei-me dessa história ao participar, na última quarta-feira, de uma reunião pública intitulada “Aborto aos nove meses: um crime contra a humanidade”, promovida pelas vereadoras Michele Thomazinho e Jessicão, da Frente Parlamentar Cristã, na Câmara Municipal de Londrina.

Naquela noite, ouvi estarrecido os relatos de estudiosas do tema sobre o avanço da cultura da morte em nosso país e no mundo. Relatos como as mortes de bebês até os nove meses de gestação e os abortos provocados pelo maligno método da assistolia — uma tortura que já ceifou milhares de vidas nos últimos anos, por ordem de nosso Herodes, ministro-ditador do Supremo Soviete.

Herodes ordenou a morte das crianças em Belém, mas o seu reinado não terminou; ao contrário, ganhou o mundo. De 2005 a 2019, 898 milhões de bebês tiveram suas vidas ceifadas dentro do ventre de suas mães, por obra dos Herodes modernos. É um crime bárbaro contra a humanidade, que um dia, se Deus quiser, terá o seu Nuremberg.

Durante a reunião da última quarta-feira, passou de mão em mão a réplica de um feto igual aos que hoje são vitimados pelo aborto. Naquele momento, pensei na criança que não deixei nascer há muitos anos, e que hoje teria a idade de Cristo.

Não usarei as folhas da figueira para esconder o meu pecado, mas para ajudar a proteger, com a força do perdão e da palavra, a vida de todos aqueles que não têm voz.

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