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“Caminhante, são teus rastros/ o caminho e nada mais;/ caminhante, não há caminho,/ faz-se o caminho ao andar.”
(Antonio Machado)
Nikolas, meu jovem amigo,
Peço desculpas se o tom desta carta lhe parecer meio paternal; isso não acontece por alguma presunção de superioridade, mas tão somente porque eu tenho idade para ser seu pai.
Confesso que fiquei preocupado e até um pouco receoso quando você anunciou sua intenção de caminhar até Brasília. Mas logo você deixou claro que estava falando sério, e não alimentava ilusões quanto aos resultados imediatos da sua decisão. Não era uma “bala de prata”, nem um “72 horas”, nem um “eu autorizo”. Era apenas um começo. O despertar após uma longa noite.
Fiz os meus cálculos aqui: se Deus quiser, você deve chegar hoje à Praça do Cruzeiro em Brasília após 365.040 passos. Na simbologia clássica, os pés representam a alma. Esse número a que cheguei, portanto, é a imagem do itinerário de sua alma durante os últimos sete dias. Mas o que você talvez não saiba, meu irmãozinho, é que esses passos simbolizam a trajetória da alma de todo o país: pois 365 são os dias do ano e 40 é o número dos dias e dos anos que passamos no deserto. Foram necessários 365 mil passos para que o pó da BR-040 finalmente encontrasse o mármore e o concreto de Brasília.
Ouso dizer que essa caminhada não é política, e que os seus 365.040 passos não são meramente físicos. Trata-se de uma jornada que reflete a essência da vida humana: nossa existência nada mais é do que uma longa peregrinação para o encontro com Deus. Por isso, com muito acerto, você denominou seu movimento de Caminhada pela Liberdade e Justiça. Essas coisas que já existiam antes da política, como dons oferecidos por Deus, e não podem ser revogadas por ela.
Não é por acaso que a grande mídia (com a exceção da nossa Gazeta, claro) está ignorando a sua caminhada; e que esbirros e cúmplices da ditadura tentem sabotá-la ou sequestrá-la. Eles simplesmente não possuem imaginação moral para conceber possibilidade de que alguém esteja simplesmente lutando por liberdade e justiça.
A sua caminhada, Nikolas, é uma vitória sobre o nosso maior inimigo: o medo. Através do seu sacrifício, vamos exorcizar os fantasmas despertados em outro janeiro e finalmente mostrar ao sistema de poder que eles podem quase tudo, mas não podem aprisionar a nossa consciência.
Quando o escritor Václav Havel estava preso na Tchecoslováquia comunista, e só era autorizado a escrever cartas para sua esposa — cartas que eram submetidas a uma rígida censura —, ele conseguiu enganar os seus censores ao fazer uma defesa da liberdade e da justiça sem necessidade de mencionar essas palavras. Em suas antológicas “Cartas a Olga”, ele falou sobre a necessidade de caminhar ao encontro do Ser.
O Ser é Deus, nosso único objetivo. A esperança desse encontro não pode ser medida por critérios pragmáticos ou políticos, como ensina Havel: “A medida da esperança, em seu sentido mais profundo, não é a medida de nossa alegria pelo bom transcurso das coisas e nossa vontade de investir em empreendimentos que levem a um sucesso em breve, mas a medida de nossa capacidade de nos esforçarmos por alguma coisa porque ela é boa, e não por ter garantia de sucesso. Quanto mais desfavorável a situação, mais profunda a esperança”.
Havel escreveu essas palavras em 1985, após ter saído da prisão. Em 1989, ele se tornou presidente de seu país. Tenho a esperança de que o mesmo acontecerá com você, meu jovem caminhante.
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