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Paulo Briguet

Paulo Briguet

“O Paulo Briguet é o Rubem Braga da presente geração. Não percam nunca as crônicas dele.” (Olavo de Carvalho, filósofo e escritor)

Liberdade

Carta a um jornalista de esquerda (com o coração nas mãos)

Foto da cadeira de Olavo de Carvalho. O professor dizia que o perdão é uma lei estrutural da realidade: completar o dom, dando ao outro aquilo que lhe falta para encontrar a verdade. (Foto: Thiago da Costa/Imagem cedida)

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“Se a liberdade significa alguma coisa, significa o direito de dizer às pessoas o que elas não querem ouvir.”
(George Orwell)

Caro amigo,

Eu sei que há muito tempo não nos falamos, mas ouso romper esse silêncio de tantos anos para tratar de um assunto importante.

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Um querido professor dizia que o mais importante para alguém que lida com a palavra escrita é sempre escrever com o “coração nas mãos”, isto é, com absoluta sinceridade, desde o centro da consciência. Levo tão a sério esse conselho que o adotei como ideal pessoal. Quando eu não estiver mais por aqui, quero que todos, mesmo os meus 17 críticos e meus 177 haters, lembrem-se de mim desta maneira:

Aquele era o Briguet, que escrevia com o coração nas mãos.

O título desta carta é quase um pleonasmo. Segundo uma pesquisa da Universidade Federal de Santa Catarina, 82% dos jornalistas brasileiros se declaram “de esquerda”. Os outros 18% ou estão nos raros jornais não esquerdistas, como a Gazeta do Povo, ou são de esquerda e não sabem, não admitem, não entendem.

Como talvez você saiba, eu já fui de esquerda como você. Mudei por diversas razões, que não vou repetir aqui, porque não vêm ao caso. Hoje eu quero falar sobre algo gravíssimo que aconteceu nesta semana: a sentença de morte do sigilo jornalístico, decretada por Alexandre de Moraes para defender o seu colega de soviete, Flávio Dino.

Sejamos sinceros: todos nós sabemos que, se a mesma medida fosse tomada por um político ou juiz de direita, o mundo teria caído, os portais de notícia estariam pegando fogo, as celebridades do show business e toda a classe falante brasileira pediriam o impeachment e a prisão de dez gerações da figura envolvida.

Chegamos ao ponto mais sensível da questão. Você sabe, eu sei, todo mundo também sabe que o fim do sigilo da fonte é a morte do jornalismo e, cedo ou tarde, vai atingir você. Basta, para tanto, você publicar uma simples matéria de denúncia contra alguma das inúmeras correntes ligadas ao sistema de poder.

Quero dizer aqui, com toda sinceridade, que sairei publicamente em sua defesa caso isso aconteça. Não é por você ter apoiado a prisão dos inocentes do 8 de janeiro, os crimes supremos e a destruição da lei e da economia brasileira que eu vou aceitar que sofra uma injustiça. Aliás, é precisamente isso que me diferencia de você. Eu acredito no perdão.

Sabe quem me ensinou isso? O mesmo professor que se sentava na cadeira da foto acima. Ele dizia que o perdão, muito além da desculpa ou da condescendência, é uma espécie de lei estrutural da realidade. Perdoar é “per donare”, ou seja, completar o dom, dar ao outro aquilo que lhe falta para encontrar a verdade. Ao fim de tudo, eu espero que você receba o perdão, ou seja, complete o dom que Deus lhe ofereceu com a vida.

Felicidades, meu amigo. Cor in manibus.

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