
Ouça este conteúdo
“Nem todo o oceano será capaz de lavar o sangue das minhas mãos.”
(Shakespeare, Macbeth)
Pegajoso, pútrido, escorregadio, borbulhante, implacável, ameaçador e letal, ele escorre por todos os lados, feito um animal cego que avança no meio de um pesadelo. Não tem uma forma definida ou dimensão mensurável; sem pedir licença, move-se como uma lesma gigantesca e atroz, carregando tudo que existe pela frente; seu odor fétido de argila revolvida abraça os limites geométricos do espaço, empesteando a atmosfera e as próprias almas. É uma coisa não newtoniana, ora líquida e invasiva, ora sólida e asfixiante; e o vapor que exala lembra o veneno dos infernos.
Estou falando dele, do mar de lama.
Começou não com a explosão de um dique, mas com um suspiro no aeroporto. Momentos antes de embarcar para as Arábias, o banqueiro foi preso. Sim, ele, o homem do Master, o mestre, o maestro, o amigo dos maiorais e dos magistrados, acabou sendo apanhado antes de decolar. E, desde aquele momento, a lama não parou de escorrer por todos os poros do gigante deitado em berço esplêndido.
Entenda-se: o mar de lama não é simplesmente algo que aconteceu no governo, mas a sua razão de ser. Constitui a essência mesma dos que mandam no país. Não há um mar de lama no governo, há um governo no mar de lama. Assim como o Espírito de Deus pairava sobre as águas, o espírito do diabo paira sobre o atoleiro.
Eles negam a existência do diabo e agora tentam negar a existência do brejo oceânico. Inútil! Mal o banqueiro havia obtido seu habeas corpus, as ondas sujas tomavam corpo, penetrando as portas e as paredes do Supremo Soviete. A maré viscosa correu pelo chão de mármore, tingiu as tapeçarias, invadiu os gabinetes, envolveu as poltronas, manchou as togas e inundou os palácios.
Dizem que à noite, quando todos estão dormindo, a lama cobre inteiramente até mesmo aquela horrível estátua que foi manchada de batom pela Débora. Em seguida, tudo é apagado pelos funcionários do asseio público, com a ajuda dos influenciadores de aluguel.
Enquanto os chefes se reúnem para decidir o que fazer, o som da maré sombria, ao mesmo tempo metálica e sulfúrea (por ser composta de terra e matéria orgânica em decomposição), pode ser ouvido ao fundo. Nas paredes das salas de reunião, já se veem as manchas escuras e as sombras das leis e processos apodrecidos. Até o uísque e os canapés servidos nessas reuniões carregam um aroma de sepulcro.
O mar de lama é um monstro que se alimenta com voracidade. Ei-lo deglutindo os 139 milhões da advogada-esposa, o resort de luxo, os diálogos cabulosos entre a bandidagem, os seis telefonemas desesperados, o rato ministerial que abandonou o navio, as celebridades movidas a likes e cash, as economias de vidas inteiras, os contratos frios, as mensagens de celular, as imagens comprometedoras de festinhas particulares e a paz dos que ousaram denunciar os verdadeiros crimes.
É claro que o mar de lama não se limita ao Master: ele também está no INSS, no Pix, nos Correios, nas estatais, na Rouanet, nas milícias virtuais do regime, na orgia perpétua de Brasília. Hoje, nós somos inteiramente governados pelos navegantes do mar de lama.
Assim, de golpe em golpe, de fraude em fraude, de farsa em farsa, de escândalo em escândalo, de desfalque em desfalque, de desvio em desvio, de imposto em imposto, de roubo em roubo, de assalto em assalto, o mar de lama vai sufocando a todos nós.
Chegará o dia em que esses timoneiros do caos olharão para as próprias mãos e não conseguirão discernir o que é corpo e o que é sujeira. Pois o regime não apenas governa sobre a lama; ele se tornou a lama.
E eu lhes pergunto, meus sete leitores: quem poderá limpá-la?
Canal Briguet Sem Medo: Acesse a comunidade no Telegram e receba conteúdos exclusivos. Link: https://t.me/briguetsemmedo




