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A imagem mais antiga que carrego na memória é do ano de 1972: meu pai, sentado à luz do abajur, em nosso pequeno apartamento da Alameda Barão de Limeira, lê um livro. Dezessete anos depois, durante a hiperinflação do Sarney, quando o país inteiro passava por grandes dificuldades, Paulo se virou para mim, apontou a estante de livros e disse:
— Eles podem nos tirar tudo, exceto isso.
Quem eram eles? Os donos do poder. O que era isso? Não eram os livros físicos (objetos materiais que podem ser confiscados ou queimados), mas o conhecimento contido em suas páginas, e que agora estava dentro de sua alma de leitor. Meu pai me ensinou muitas coisas valiosas ao longo do tempo, mas talvez nenhum ensinamento tenha sido tão determinante para o curso da minha vida.
Pensei no saudoso Paulo Lourenço quando li, na Gazeta do Povo, a notícia sobre os pais das meninas de Jales, condenados a 50 dias de prisão por praticarem homeschooling (educação domiciliar). Um dos aspectos que mais me chamou a atenção no caso foi o fato de que as filhas do casal condenado leram juntas mais de 60 livros somente em 2025. Aos 14 anos, a filha mais velha leu 32 livros, totalizando 6.146 páginas. Aos 10, a mais nova leu 30 obras, totalizando 2.502 páginas. Isso é mais do que um universitário lê; acredito mesmo que muitos doutores não leem tanto. E não se trata de bobagens: entre as obras lidas, encontram-se autores como Júlio Verne, J. R. R. Tolkien e a Doutora da Igreja Santa Teresinha de Lisieux.
A menina mais velha atingiu qualificação em língua inglesa, recebendo um prêmio da Escola Kumon. As irmãs têm aulas de latim, piano e canto coral, nas quais praticam atividades comuns com outras crianças e adolescentes. Segundo o depoimento de várias testemunhas, inclusive conselheiros tutelares, as filhas do casal de Jales encontram no próprio lar um ambiente de estudos que faria inveja a qualquer escola.
Mesmo assim, um juiz da comarca local decidiu condenar o pai e a mãe dessas meninas a 50 dias de prisão em regime semiaberto, por suposto abandono intelectual (!). Entre os fundamentos de sua decisão, o magistrado aponta o fato de que as meninas não gostam de funk nem de música sertaneja — o que, segundo ele, indica uma atitude preconceituosa dos pais —, não assistem aos maravilhosos filmes nacionais (esses que precisam de cota para obrigar o público a vê-los) e não têm aulas sobre sexualidade, gênero e questões ambientais.
O que essa decisão nos diz sobre o Brasil? É muito simples: condenar pais que conseguiram educar suas filhas sem a tutela panóptica do Estado revela a doença espiritual que infectou praticamente todas as nossas instituições: o mal revolucionário
Muitíssimos de nossos agentes públicos — juízes, promotores, políticos, funcionários, burocratas, professores, jornalistas, produtores culturais, ativistas sociais — possuem a convicção de que existe uma fórmula perfeita para transformar o mundo; consequentemente, acreditam eles, todos os que atrapalham esse projeto político devem ser rigorosamente punidos. Dentro de uma tal visão doentia, famílias educadoras fazem parte daqueles grupos da população que os revolucionários consideram inimigos da fórmula perfeita para salvar o mundo; portanto, devem ser castigadas.
Estou entre aqueles que consideram importantíssimo evitar um quarto mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, mas devo advertir que uma eventual derrota eleitoral do ocupante da Presidência não vai eliminar essa doença política que corroeu a vida institucional brasileira. Por isso, digo a vocês, meus sete leitores: o estrago que a esquerda fez na alma do país só será curado por uma restauração da inteligência — ou seja, por meio de uma guerra infinitamente mais importante e demorada do que qualquer eleição.
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