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Nos últimos dias, tenho sido procurado por muitos amigos, todos eles profundamente decepcionados e tristes com o resultado das eleições presidenciais. Alguns pensam em desistir de tudo e deixar o país; outros se mostram particularmente indignados com entes queridos que apoiaram a candidatura de Lula e festejaram sua infame vitória. Nessas conversas dolorosas, mais de uma vez surgiu a pergunta que uma querida amiga fez entre lágrimas:
— Por que Deus permitiu que isso acontecesse, Paulo?
Não tenho uma resposta para essa indagação; mas tenho a firme convicção de que existe, sim, uma razão última para estarmos passando pelos sofrimentos atuais e vindouros. Se a própria salvação do gênero humano pressupôs o mais injusto dos crimes — a crucificação de Jesus Cristo — por que razão nós não podemos esperar que as presentes tribulações sejam o sinal de uma redenção gloriosa, muito superior a qualquer triunfo político?
Um desses amigos, um empresário de sucesso, procurou-me no último Dia de Finados para tomarmos o café e disse que há muito tempo não se sentia tão desanimado.
— Paulo, eu não tenho conseguido dormir à noite, pensando no futuro dos meus filhos e netos.
Então eu contei a esse amigo a história de Viktor Frankl. Em 1941, na Viena ocupada pelos nazistas, Frankl já era um conceituado médico psiquiatra, famoso por seu trabalho com pacientes depressivos. No entanto, por sua ascendência judaica, viu-se cada vez mais perseguido pelas autoridades do Terceiro Reich.
Um dia, Frankl recebeu uma notícia aparentemente alentadora: graças à atuação de amigos no exterior, ele obtivera um visto de imigração para os Estados Unidos. Havia, no entanto, um problema: o visto valia apenas para ele. Seus pais idosos teriam que permanecer na Áustria nazificada.
Mesmo nas piores ditaduras que o mundo já enfrentou — como as do nazismo e do comunismo —, Deus reservou a cada ser humano uma tarefa que só ele poderia realizar
Durante uma visita à casa dos pais, Frankl notou que havia uma pedra sobre a mesa. Era um fragmento que o pai de Frankl acabara de recolher nas ruínas de uma sinagoga destruída pelos nazistas. Frankl pegou nas mãos a pedra e percebeu que uma letra do alfabeto hebraico estava gravada sobre ela. Tratava-se de Kaf, a letra inicial do mandamento de Deus que diz:
Kabbēd ’eṯ-’āvîḵā wə-’eṯ-’immeḵā — Honra a teu pai e a tua mãe
Naquele momento, o médico decidiu ficar ao lado de seus pais e honrá-los, apesar de tudo.
Cerca de um ano depois, toda a família de Frankl foi presa e encaminhada para os campos nazistas, onde os pais e a jovem esposa de Viktor Frankl encontraram a morte. Só ele sobreviveu, depois de passar pelas mais extremas experiências que um ser humano poderia suportar.
Diante de uma catástrofe tão absoluta, Frankl podia-se perguntar, como de fato fez: — Por que Deus permitiu isso?
A resposta exata nós nunca teremos; Frankl também não. Mas, de alguma forma, aquela tragédia permitiu a Frankl conhecer a realidade do campo de concentração e escrever, em apenas nove dias, um dos livros mais importantes do século XX: Em Busca de Sentido.
Até sua morte, aos 95 anos, Viktor Frankl receberia em média dez cartas diárias de pessoas que diziam basicamente: “A leitura do seu livro salvou a minha vida”. Mesmo nos últimos dias, internado no hospital, continuava atendendo seus pacientes por telefone e ajudando a aliviar seus sofrimentos.
Mesmo nas piores ditaduras que o mundo já enfrentou — como as do nazismo e do comunismo —, Deus reservou a cada ser humano uma tarefa que só ele poderia realizar. É precisamente essa tarefa que você precisa descobrir agora e realizá-la da melhor forma possível. Alguns precisarão deixar o país para cumprir essa tarefa (como aconteceu com inúmeros dissidentes que deixaram os países socialistas); alguns, ao contrário, devem permanecer e enfrentar as dificuldades aqui e agora. Contudo, não resta a menor dúvida de que a atual ditadura só será vencida conforme cada um assumir e realizar o sentido de sua vida. Há uma letra que Deus escreveu para você — mas ela não está numa pedra, está em seu próprio coração.

Paulo Briguet é escritor, jornalista, palestrante e professor de literatura. Trabalhou em diversos jornais, revistas e assessorias de comunicação no Paraná. Foi colunista da Folha de Londrina e editor-chefe do jornal Brasil Sem Medo. Publicou diversos livros, dentre eles: “Nossa Senhora dos Ateus”, "Coração de mãe", “O Mínimo sobre Distopias” e “Diário de Moby Dick”. Já escreveu mais de 2 mil crônicas. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



