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“Se você quer mudar o sistema, você já é escravo do sistema.” (Olavo de Carvalho)
Era domingo na Granja Brasil. O rebanho pastava inquieto sob o céu de outubro, convencido de que a escolha do novo capataz dependeria do peso real de cada mugido.
A encenação, contudo, começara antes da aurora. Às nove da manhã, os papagaios da corte – artistas adestrados nas artes da propaganda & puxa-saquismo – já liam um texto pronto sobre um alarme que nem sequer soara: a grande ameaça ao celeiro de Salvador. O pânico não precisava ser verdadeiro; bastava existir no arquivo digital para justificar o que viria a seguir.
Às cinco e meia, o silêncio nas coxias já era absoluto: sabia-se exatamente quem herdaria o chicote
Quando os relógios marcaram cinco da tarde, a porteira foi declarada fechada. Dois minutos depois, o Juiz de Óculos, amigo do Velho Líder, emitiu um édito urgente, sob a desculpa de proteger os retardatários. O rebanho temeu que mil animais fantasmas fossem enxertados no curral àquela hora. Pura ilusão de ótica. Os metadados não mentem aos porcos: menos de 0,03% dos cascos cruzaram a cerca depois do prazo. A porteira aberta servira apenas de cortina de fumaça para entreter os olhos da bicharada ingênua; o verdadeiro destino do celeiro corria por fios invisíveis.
Entre as cinco e as sete horas, enquanto ovelhas e cavalos baliam ou bufavam de ansiedade no terreiro, os corvos do Partido Escarlate e os gansos da Oposição já colhiam, bico a bico, os pequenos rolos de papel colados às árvores – os códigos que o vento comum não decifrava. Às cinco e meia, o silêncio nas coxias já era absoluto: sabia-se exatamente quem herdaria o chicote.
Nos mercados distantes do além-mar, onde os abutres apostavam moedas de ouro no destino da fazenda, os ponteiros despencaram subitamente. Milhões tilintaram nas mãos certas. Nenhum abutre previa o futuro por magia; eles apenas compravam o sussurro dos corvos que já sabiam ler os boletins.
Às seis horas, na Casa Grande, o semblante do Velho Líder desanuviou-se. O uísque foi servido. Do outro lado da cerca, a Oposição guardava os mesmos papéis nas gavetas, paralisada de espanto.
Resta a matemática das urnas, aquela que desafia até as leis da gravidade do celeiro: para que a conta fechasse ao crepúsculo, quase três quartos de todos os animais indecisos, arrependidos e ausentes tiveram de marchar, em uníssono milimétrico, para a mesma gamela.
Na Granja Brasil, todos os votos são iguais. Mas, às cinco e meia da tarde, os bichos vermelhos já eram muito mais iguais que os outros.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Paulo Briguet é escritor, jornalista, palestrante e professor de literatura. Trabalhou em diversos jornais, revistas e assessorias de comunicação no Paraná. Foi colunista da Folha de Londrina e editor-chefe do jornal Brasil Sem Medo. Publicou diversos livros, dentre eles: “Nossa Senhora dos Ateus”, "Coração de mãe", “O Mínimo sobre Distopias” e “Diário de Moby Dick”. Já escreveu mais de 2 mil crônicas. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



