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1. Em 1935, o então ministro de Relações Exteriores da França, Pierre Laval, viajou a Moscou para negociar com o ditador soviético Josef Stálin. Durante a conversa, Laval mencionou a necessidade de atrair o Vaticano e o Papa Pio XI para uma aliança contra Hitler. Nessa altura, Stálin — que quatro anos mais tarde assinaria um maligno pacto com os nazistas — fez um comentário sarcástico:
— O Papa? Quantas divisões tem ele?
Conta-se que o pontífice, ao tomar conhecimento da frase de Stálin, teria respondido apenas:
— Diga a ele que minhas divisões estão no Céu.
2. O advento de Jesus Cristo — que nasceu durante o reinado de Augusto — deu início a uma luta entre o poder espiritual e o poder temporal a que assistimos até os dias de hoje. Desde a grande vitória da Ressurreição de Cristo, César tenta incessantemente restaurar o seu império. Essa luta vai prosseguir até o fim dos tempos. É como escreveu Santo Agostinho: “Dois amores erigiram duas cidades, Babilônia e Jerusalém: aquela é o amor de si até ao desprezo de Deus; esta, o amor de Deus até ao desprezo de si”.
3. Lembrei-me do sarcasmo de Stálin e da luta permanente de César para retomar seu império quando li e ouvi as palavras desrespeitosas do presidente Donald Trump contra o Papa Leão XIV. Como bem disse meu compadre Bernardo Pires Küster, atacar o Papa foi certamente o maior erro cometido por Trump em toda sua carreira política. Igualmente grave foi a tentativa de brincar de Deus, colocando-se em um meme no lugar de Jesus Cristo. Algo tão grotesco que Trump, em um gesto inédito, apagou a postagem.
4. A maior parte das pessoas — e, lamentavelmente muitos católicos — não sabe o que é a Igreja. Enxergam-na somente como uma instituição humana, equiparável aos poderes deste mundo. Enganam-se: enganam-se tragicamente. A Igreja é o Corpo Místico de Cristo, pertence Àquele que sustenta a realidade universal. Hoje, no mundo, vemos três forças revolucionárias — o comunismo, o globalismo e o islamismo — enfrentando-se mutuamente, associando-se eventualmente, e causando destruição e dor por toda parte.
O único adversário real desse monstro de três cabeças — o Cérbero dos Césares modernos — é Jesus Cristo, é a Sua Igreja. Foi essa verdade que Trump desprezou ao desprezar o Papa Leão
Um erro tão grande que, caso não seja reparado por uma retratação sincera, pode levar o homem mais poderoso do mundo à ruína.
5. No século III, a Igreja em Roma viveu um cisma profundo: de um lado, o Papa Ponciano; do outro, Hipólito, o primeiro antipapa, que o acusava de ser brando demais com os pecadores. A rivalidade parecia insolúvel até que o imperador Maximino Trácio os condenou ao mesmo destino cruel: o trabalho forçado nas minas da Sardenha. Naquele campo de concentração antigo, as certezas intelectuais deram lugar à fragilidade da carne e à força da fé. Diante da morte, o orgulho de Hipólito e a autoridade de Ponciano fundiram-se em um abraço de arrependimento e caridade. O perdão final selou a paz: Ponciano renunciou para unir o rebanho, e Hipólito pediu que seus seguidores voltassem à Igreja. Morreram como irmãos, transformando o ódio da divisão no sangue do martírio. Hoje, a liturgia celebra ambos no mesmo dia, provando que a reconciliação é o maior milagre cristão.
6. Eu me lembrei da história dos santos Ponciano e Hipólito como
prova de que o perdão — essa lei estrutural do universo, conforme ensinava o professor Olavo de Carvalho — é o único caminho para a humanidade. Obviamente, existem guerras justas — como já demonstraram Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino —, mas a Igreja jamais deve ser impedida de exercer a sua missão de buscar a paz duradoura e evitar os sofrimentos de inocentes. Diante das forças revolucionárias que hoje disputam o controle sobre o mundo, Trump e Leão XIV correm o risco de ser transformados em vítimas sacrificiais como Ponciano e Hipólito.
7. Em julho de 2024, Trump teve sua vida salva por um milagre. Será o homem mais forte do mundo capaz de um gesto de reconciliação? Stálin, outrora o homem mais forte do mundo, jamais pensou em fazer tal gesto. Morreu sozinho e desamparado, depois de ter mandado para a cadeia todos os médicos que poderiam salvar sua vida. Agonizando no chão de sua sala, talvez o velho ditador tenha pensado naquele lugar etéreo em que estão as divisões do Papa.
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