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Numa longínqua manhã, há 37 anos, a saudosa professora Maria Helena Viana entrou na sala de aula – onde 12 jovens alunos se sentavam diante de velhas máquinas de escrever – e nos ensinou a lição básica do jornalismo: o que é o lead. Nunca mais me esqueci das seis perguntinhas básicas que toda matéria jornalística deve responder: Quê? Quem? Como? Quando? Onde? Por quê? E o primeiro exercício que Maria Helena nos mandou fazer foi um lead sobre o caso do goleiro chileno Rojas, que simulou ter sido atingido por um rojão durante uma partida das Eliminatórias da Copa do Mundo, no Maracanã, para tentar salvar o seu time da desclassificação.
As perguntas do lead, como vim a descobrir com o tempo, guardam em si a maior virtude que um jornalista deve possuir: o amor à verdade. Infelizmente, esse amor à verdade acaba sendo suplantado, em nossas escolas de Jornalismo, por uma frase que constantemente é repetida pela maioria dos professores: O jornalista é um agente de transformação social. O resultado é que a maioria dos jornalistas acaba por amar o poder antes de amar a verdade. Para o militante de redação, a verdade é boa, desde que não atrapalhe o projeto político que ele defende; se atrapalhar, às favas com ela! Eis o cerne da mentalidade revolucionária que hoje domina a política brasileira, até mesmo amplos setores da direita.
A política, no Brasil, há muito tempo deixou de ser a procura pelo bem comum e se tornou uma simples guerra suja em que a primeira vítima é a verdade
Diante de um caso como o de Flávio Bolsonaro e sua relação com Daniel Vorcaro – antes negada, mas agora evidente –, a atitude de qualquer jornalista sério, como bem explicou meu amigo Luís Ernesto Lacombe em uma coluna que é uma verdadeira aula de jornalismo, deve ser a procura e elucidação completa de todos os fatos. Esse amor à verdade é uma túnica inconsútil, como a de Cristo: sendo a própria Verdade, Ele não admite seletividades convenientes. Nenhuma eleição, por mais importante que seja, vai me fazer desprezar a realidade dos fatos em nome de um projeto político.
Mas o Brasil, como eu já disse aqui, está doente de política. Quando foi que nós abrimos mão do amor pela verdade e o substituímos pela conveniência eleitoral? Fechar os olhos para a realidade não nos ajudará em nada. Se o país está como está, é porque os donos do poder alçaram a mentira à categoria de lei incontestável. Vivemos sob um regime que todos os dias trata as pessoas como idiotas e exige que elas renunciem à própria capacidade de discernir a verdade.
Estamos loucos de política, e grande parte da responsabilidade por essa loucura pertence a jornalistas que, além de abandonar a verdade, há muito tempo entraram em rebelião contra ela. Vejam vocês, meus sete amigos leitores, e também vocês, meus 17 críticos, o caso da recente convocação de Neymar. Há muito tempo, a esmagadora maioria de militantes que compõem a mídia nacional fazia campanha contra a convocação do maior craque brasileiro, um gênio do futebol, capaz de decidir uma partida ou uma competição com um mero rasgo de seu talento assombroso.
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Quando Ancelotti, um homem que entende o futebol, e sabe a diferença que Neymar pode fazer em campo numa Copa do Mundo, decidiu convocá-lo, a matilha de hienas midiáticas começou a salivar de ódio, ultrajando a escolha do técnico. E por que isso? Porque Neymar tem posições políticas que não as agradam. Simplesmente isso.
A política, no Brasil, há muito tempo deixou de ser a procura pelo bem comum e se tornou uma simples guerra suja em que a primeira vítima é a verdade. Quer saber onde está a verdade? Ela está na reação das milhões de crianças que festejaram a convocação de Neymar como se fosse a vitória numa final de Copa do Mundo. Em homenagem à professora Maria Helena, eu vou terminar esta crônica com um lead:
QUEM? As crianças.
QUÊ? Festejaram a convocação de Neymar.
COMO? Com gritos e pulos de alegria.
QUANDO? Na segunda-feira.
ONDE? Em todo o Brasil.
POR QUÊ? Porque estavam felizes.
A vida é muito mais que a política, meus amigos.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos








