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Paulo Briguet

Paulo Briguet

“O Paulo Briguet é o Rubem Braga da presente geração. Não percam nunca as crônicas dele.” (Olavo de Carvalho, filósofo e escritor)

Regime PT-STF

O Brasil e a difícil arte de ser assaltado todos os dias

Do assalto de rua em 1989 ao golpe digital e ao saque institucional: hoje o cidadão continua sendo roubado — só que por ladrões mais sofisticados. (Foto: Reprodução/Youtube/Esfera Brasil; Albino Oliveira/MDA)

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Numa longínqua madrugada de 1989, quando este que lhes fala não era um cronista de sete leitores, mas apenas um estudante de jornalismo esquerdista, fui assaltado ao sair de uma festa no Restaurante Universitário. Levava na carteira uma nota de dez cruzados novos. Era a época da hiperinflação do Sarney, e aquele dinheiro não valia praticamente nada — talvez nem meia cerveja.

Assim como nos filmes policiais americanos, a dupla de assaltantes era formada por um malvado e um menos malvado. O malvado assumiu a liderança da operação.

— Passa a grana, cara!

Eu passei.

Ele olhou a nota com desprezo.

— É pouco! Tira a peita, tira a peita!

Já comecei a desabotoar minha camisa de mangas curtas. Lembro-me perfeitamente dela: bege, lisa, um pouco amassada e muito confortável. Talvez encorajado pelas cervejas da festa do RU, resolvi apelar à razoabilidade do marginal.

— Pô, mano. Você vai me deixar voltar pra casa sem camisa?

O assaltante menos malvado olhou para mim e decidiu interferir.

— Deixa o cara, deixa o cara.

E assim voltei para a república com dez cruzados novos a menos, porém não descamisado.

Durante muitos anos pensei naquele episódio apenas como uma pequena aventura universitária — uma lembrança cômica e até um pouco inocente. Mas ontem sofri uma tentativa de assalto que me fez lembrar daquela madrugada.

Os assaltos evoluíram muito desde 1989. Naquela época ainda se praticava o método artesanal: dois sujeitos na rua, um pedido de dinheiro, alguma ameaça e pronto. Hoje a tecnologia permite métodos muito mais ousados e eficazes

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No meio da manhã recebi uma ligação do “setor de segurança” do meu banco. Passei por gravações automáticas, musiquinhas de espera e todos aqueles rituais burocráticos que sempre antecedem o atendimento humano. Por fim, surgiu na linha um funcionário muito educado.

— Identificamos aqui uma operação de pagamento do seu cartão de crédito feita às dez horas. O senhor reconhece essa operação?

— Não.

— Pois então suspeitamos que o seu celular tenha sido clonado.

A conversa seguiu por alguns minutos, até que o funcionário pediu para eu compartilhar a tela do celular e insinuou que até “funcionários do próprio banco” poderiam estar envolvidos no problema.

Foi nesse momento que percebi que o problema não estava no banco.

Desliguei, fui até minha agência e relatei o caso ao gerente. Ele ouviu tudo com tranquilidade profissional e concluiu:

— Tentaram aplicar um golpe no senhor. Todos os dias aparecem vítimas disso aqui. Ontem mesmo um policial aposentado perdeu trinta mil reais numa ligação dessas.

Voltei para casa pensando que os ladrões modernos ficaram muito mais sofisticados.

Pergunto a vocês, meus sete leitores: qual é exatamente a diferença entre o sujeito que tentou me aplicar aquele golpe por telefone e os personagens que hoje governam o país?

As revelações do caso Master, os diálogos nefastos entre autoridades da República e seus anfitriões golpistas, a rapinagem legalizada do Estado contra os cidadãos comuns — tudo isso não demonstra que estamos sendo vítimas de um assalto permanente?

Há, contudo, uma diferença importante entre o Brasil atual e aquela dupla de assaltantes de 1989. Os marginais do Restaurante Universitário tinham pelo menos um certo senso de proporção humana. Quando pedi para não voltar para casa sem camisa, um deles achou razoável atender ao pedido. Os nossos assaltantes institucionais, por outro lado, parecem não conhecer essa palavra: razoabilidade.

Enquanto os cidadãos comuns perdem dinheiro, trabalho, segurança e esperança, as autoridades da República se confraternizam em ambientes muito mais refinados do que a rua escura onde fui assaltado na juventude. Degustam uísques raros e charutos caríssimos em elegantes salões de Londres, brindando entre si como se fossem príncipes de um império próspero — quando, na verdade, são administradores de um país saqueado.

Aquela dupla de marginais do RU tinha uma faca, duas frases e um pouco de misericórdia. O regime que hoje governa o Brasil tem tribunais, ministérios, palácios e orçamentos trilionários — mas misericórdia nenhuma.

Naquela madrugada de 1989, pelo menos, um ladrão achou que eu merecia voltar para casa com camisa. No Brasil de hoje, meus sete amigos, a regra é outra. O crime deixou de ser uma ocorrência para se transformar na essência do país. Estamos sendo assaltados agora — e ninguém pretende nos deixar com a roupa do corpo.

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