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No romance “O Senhor das Moscas”, William Golding narra a história de um grupo de meninos abandonado numa ilha deserta. Ali, eles procuram organizar uma nova sociedade e estabelecem um regime de votação para decidir sobre as questões mais importantes da vida comunitária.
A certa altura, surge o boato de que há fantasmas na ilha. Para resolver a polêmica, os líderes do grupo decidem colocar o assunto em votação. A assembleia então decide, por maioria, que os fantasmas não existem.
Essa passagem do livro ilustra uma das principais limitações do sistema democrático: a maioria não é capaz de determinar a verdade. Se os fantasmas existem, eles continuarão existindo, ainda que 100% dos votantes digam o contrário. A propósito, as grandes descobertas da ciência foram feitas quando alguém enxergou o que mais ninguém enxergava.
A maioria frequentemente está errada. Podemos encontrar outro exemplo disso numa famosa parábola de Soren Kierkegaard. O filósofo dinamarquês contava que certo dia um circo se instalou nas proximidades de uma aldeia, ao lado de uma floresta. De repente, a floresta começou a pegar fogo e o palhaço saiu correndo, com suas vestes cênicas, para pedir ajuda aos moradores da aldeia:
— Fogo na floresta! Ajudem, é fogo na floresta!
No entanto, todos os moradores, diante das gesticulações e gritos do palhaço, acharam que se tratava de uma encenação e riram. Apenas um menino achou que talvez o palhaço estivesse falando sério, mas ninguém o ouviu.
O resultado foi que o fogo se espalhou pela floresta, destruiu o circo, destruiu a aldeia e matou todos os seus moradores, inclusive o menino que havia acreditado no palhaço.
Lembro-me aqui também da figura trágica de Cassandra, filha do rei Príamo de Troia, que tinha o dom de enxergar a verdade, mas não era capaz de fazer com que as pessoas acreditassem em suas profecias. A despeito dos alertas de Cassandra, Troia foi reduzida a cinzas.
Durante a pandemia, senti-me um pouco como aquele menino da aldeia na parábola de Kierkegaard. Levei a sério as palavras dos palhaços e das cassandras que se rebelaram contra as injustiças, as mentiras e as atrocidades apoiadas pela maioria — injustiças, mentiras e atrocidades que agora estão sendo reveladas com a abertura dos diários de Anthony Fauci, o Ditador do Vírus.
Naquela época, percebi que muitas pessoas, talvez a maioria, não se recusariam a denunciar um vizinho “negacionista” se as autoridades sanitárias assim lhe exigissem — da mesma forma que, nos anos 30 e 40, um cidadão do Reich denunciaria um vizinho judeu ou um cidadão soviético denunciaria um colega “inimigo do povo”, com a sensação de estar cumprindo um dever cívico.
E devo dizer que me sinto exatamente como o palhaço de Kierkegaard ou a Cassandra de Troia após mais de 20 anos denunciando o caráter maligno do PT e de suas linhas auxiliares, ao perceber que uma extensa faixa da população — a maioria, segundo a Máquina — continua apoiando essa organização sinistra que vem assaltando o país e sugando as forças vitais da sociedade ininterruptamente.
Votar em Lula, ou permitir por omissão que ele chegue a um novo mandato, significa acreditar que um incêndio catastrófico “é coisa de palhaço”. É um suicídio nacional.
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Paulo Briguet é escritor, jornalista, palestrante e professor de literatura. Trabalhou em diversos jornais, revistas e assessorias de comunicação no Paraná. Foi colunista da Folha de Londrina e editor-chefe do jornal Brasil Sem Medo. Publicou diversos livros, dentre eles: “Nossa Senhora dos Ateus”, "Coração de mãe", “O Mínimo sobre Distopias” e “Diário de Moby Dick”. Já escreveu mais de 2 mil crônicas. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



