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Nesta semana ouvi mais uma vez a linda história contada por uma conhecida médica católica, a Dra. Filó, sobre um menino que estava sob os seus cuidados numa UTI pediátrica.
Quando ela se aproximou do pequeno paciente, ele disse:
― Você não está vendo?
― Vendo o quê, meu amor?
― Os anjos. Eles estão todos aí.
Nesse momento, Dra. Filó teve a certeza de que o menino morreria em poucos minutos. Os anjos de Deus tinham vindo levá-lo de volta para Casa.
Novamente, eu me emocionei com a história. Fiquei pensando nessa Casa para a qual os anjos levaram o menino ― e me lembrei de Camões.
Um dos mais belos poemas de Luís Vaz de Camões ― e, por conseguinte, de toda a língua portuguesa ― inspira-se no Salmo 137 para expressar um sentimento universal que habita o coração humano. Exilado na Ásia, o poeta chora de saudade à beira de uma confluência de rios dos quais não conhecemos os nomes, mas que evocam os rios do exílio do povo hebreu na Babilônia. E assim Camões começa:
Sôbolos rios que vão
por Babilónia me achei,
onde sentado chorei
as lembranças de Sião
e quanto nela passei.
Ali, o rio corrente
de meus olhos foi manado,
e tudo bem comparado:
Babilónia ao mal presente,
Sião ao tempo passado.
O poeta lembra os acontecimentos felizes do seu passado ― talvez a época de amores e estudos em Portugal, talvez as passagens da infância e adolescência, quando tudo parecia mais vivo e familiar. Mas mesmo as doces lembranças acabam por se transformar em amargura, em razão de seu caráter transitório, efêmero, evanescente:
Ali, lembranças contentes
n’alma se representaram,
e minhas cousas ausentes
se fizeram tão presentes
como se nunca passaram.
Ali, depois de acordado,
co rosto banhado em água,
deste sonho imaginado,
vi que todo o bem passado
não é gosto, mas é mágoa.
Até aqui, temos um belo poema, uma redondilha tecida com o engenho e a arte que nunca faltam a Camões. No entanto, algumas estrofes adiante, encontraremos o toque de genialidade que faz dele o maior mestre do nosso idioma. Influenciado pela doutrina platônica da reminiscência, o autor nos mostra que a verdadeira essência da saudade não está nos acontecimentos deste mundo, mas em nossa origem transcendente. O poeta sente saudades do Céu.
Mas ó tu, terra de Glória,
se eu nunca vi tua essência,
como me lembras na ausência?
Não me lembras na memória,
senão na reminiscência.
Que a alma é tábua rasa,
que, com a escrita doutrina
celeste, tanto imagina,
que voa da própria casa
e sobe à pátria divina.
Não é, logo, a saudade
das terras onde nasceu
a carne, mas é do Céu,
daquela santa Cidade,
donde esta alma descendeu.
Acredita-se que Camões tenha escrito esse poema durante seu amargo exílio na província indiana de Goa, pouco depois de ter sobrevivido a um naufrágio no Rio Mecom, no qual morrera a sua amada Dinamene. Note-se que o pensamento do poeta não se volta para uma suposta “era de ouro”, em que tudo fora melhor, mas para a reminiscência de um estado ideal, acima do tempo, em que a criatura se identifica plenamente com o Criador. O poeta chora a falta daquilo que existia antes mesmo da sua própria existência; uma ausência que não pode ser suprida dentro do tempo.
Nas suas noites de exílio, talvez Camões tenha olhado para as estrelas e se sentido pequeno em comparação com elas. Do século XVI para cá, a ciência descobriu que essa diferença de proporções entre o homem e os corpos celestes é mais assombrosa do que mesmo Camões poderia imaginar. Comparada à duração de uma estrela, a nossa existência material terrestre nada mais é do que uma minúscula chama, um fragmento quase imperceptível de tempo. E, no entanto, esse pequeníssimo fragmento do ser que somos cada um de nós contém o segredo da eternidade.
“Vós sois deuses”, diz Jesus Cristo. Ou seja: nós temos uma alma imortal que vai durar mais do que todas as estrelas e galáxias do universo.
Materialmente, nós somos filhos das estrelas. Espiritualmente, as estrelas são nossas filhas, porque somos criados à imagem e semelhança do Deus que as criou. Somos pó, e ao pó voltaremos. Somos poeira das estrelas. Porém, comparadas com uma única alma imortal ― que pode ser a sua, a minha, a do menino, a de Dra. Filó, a de Camões ― as estrelas todas não são mais do que poeira.
Isso é a graça. Isso é o milagre. Você, que lê minhas palavras agora, vai viver mais do que todo o universo ― ao lado do menino levado pelos anjos e do poeta que chorou sobre os rios da Babilônia.
Ditoso quem se partir
para ti, terra excelente,
tão justo e tão penitente
que, despois de a ti subir,
lá descanse eternamente.
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Paulo Briguet é escritor, jornalista, palestrante e professor de literatura. Trabalhou em diversos jornais, revistas e assessorias de comunicação no Paraná. Foi colunista da Folha de Londrina e editor-chefe do jornal Brasil Sem Medo. Publicou diversos livros, dentre eles: “Nossa Senhora dos Ateus”, "Coração de mãe", “O Mínimo sobre Distopias” e “Diário de Moby Dick”. Já escreveu mais de 2 mil crônicas. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



