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Paulo Cruz

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A liberdade é um direito radical. Coluna semanal

A ciência de viver

  • PorPaulo Cruz
  • 28/01/2019 15:59
Nepomuceno (MG). Foto do autor/Paulo Cruz
Nepomuceno (MG). Foto do autor/Paulo Cruz| Foto:

Aos meus amigos Luís Antônio, Paulo Rogério, Maciel e Jairo.

Às tias Maria e Maria Fátima (Fatinha).

“Existe outra ciência além da que cai para dentro da memória: a ciência de viver”.

(A.-D. Sertillanges)

Escrevo estas linhas enquanto descanso um cadin, cercado pelas montanhas de Minas Gerais – o estado mais lindo do Brasil. Não sou mineiro de nascimento, mas minha alma é; como filho de mineira, sinto-me profundamente atraído por essas montanhas, por esse chão, esse café, esse queijo, esse sotaque, esse povo. Não há lugar melhor no Brasil para eu tomar fôlego – pois férias, mesmo, não tenho há bastante tempo –, entre uma atividade e outra, do que aqui. Troco qualquer praia por um rio, uma cachoeira, um bosque, uma floresta. Felizmente, meus sogros se mudaram para cá há uma década, e desde então esse é meu destino mais frequente.

Outra coisa que me traz à alma um enlevo revigorante são meus amigos. Ontem (25 de janeiro de 2019), antes de esticar até aqui, passei uma tarde com amigos que conheço há mais de vinte anos – um deles, Luís Antônio, há mais de trinta! – num local que foi nosso destino por muitos feriados na década de 1990: Córrego dos Mulatos, um bairro (afastado) do município de Estiva, no sul de Minas. Muitas Festas do Morango e muitos carnavais fizeram a história de nossa juventude ali, sob o carinho das tias e da avó de alguns de nossos confrades. Lotávamos a casa dessas mulheres abençoadas e pacientes; dez, vinte moleques, dormindo pelo chão da sala e pelos corredores, sem a menor cerimônia, sendo tratados – todos, sem exceção – como filhos. Tempos maravilhosos!

Muitos anos depois, voltamos, agora com nossas famílias, ao Vila (como chamam os moradores) para um churrasco épico. Aberto o baú de lembranças, nos divertimos por longas horas, numa configuração, digamos, menos apolínea, daquilo que C. S. Lewis descreve tão bem em Os Quatro Amores (Martins Fontes) – numa passagem belíssima que não canso de repetir:

“Numa Amizade perfeita, esse Amor Apreciativo é muitas vezes, na minha opinião, tão grande e tão solidamente alicerçado que cada membro do círculo se sente, em seu íntimo, humilde diante dos demais. Às vezes ele se pergunta o que está fazendo ali, entre pessoas melhores que ele. Estar na companhia deles é uma sorte que não merece. Especialmente quando o grupo inteiro está junto, cada um despertando tudo o que há de melhor, de mais sábio ou de mais engraçado em todos os outros. São aquelas reuniões especiais – quando quatro ou cinco de nós nos reunimos na estalagem, depois de um dia cansativo; quando calçamos nossas pantufas e estendemos os pés na direção do fogo, cada um com sua bebida no braço da poltrona; quando o mundo inteiro, e algo além do mundo, se abre para nossas mentes enquanto conversamos; e quando ninguém tem nada para exigir ou cobrar de ninguém, mas estamos todos livres e iguais, como se tivéssemos nos conhecido há uma hora, e ao mesmo tempo uma Afeição, amadurecida pelos anos, nos envolve. É o melhor presente que a vida – a vida natural – tem para nos dar. Quem poderia merecê-lo?”

Tais momentos são preciosos para relembrar as admoestações de Antonin-Dalmace Sertillanges (A.-D Sertillanges) em seu sublime A vida intelectual (É Realizações). Sertillanges foi um teólogo e frade dominicano, que viveu entre o final do século 19 e início do 20, e cuja obra sobre a vida de estudos é uma verdadeira maravilha. Na introdução à segunda edição, ele nos diz: “O intelectual não é filho de si mesmo; ele é filho da Ideia, da Verdade eterna, do Verbo criador e animador imanente a sua criação. Quando pensa corretamente, o pensador segue Deus à risca; ele não segue sua própria quimera. Quando tateia e se debate no esforço da busca, ele é Jacó lutando com o anjo e ‘forte contra Deus’”. E segue nos dando lições valiosíssimas sobre como ser alguém voltado ao cultivo do intelecto – da pesquisa e da produção intelectual.

Para Sertillanges, o intelectual é um consagrado, voltado à busca incessante da Verdade: “a vida de estudo é austera e impõe pesadas obrigações. Ela traz compensações, por sinal, generosas; mas ela exige um investimento à altura de poucos. Os atletas da inteligência, tal como os do esporte, devem prever as privações, os longos treinos e uma tenacidade às vezes sobre-humana. É preciso entregar-se de todo o coração para que a verdade se entregue. A verdade só está a serviço de seus escravos”. E arremata: “o senhor é um consagrado: queira o que quer a verdade; consinta, por ela, a mobilizar-se, a instalar-se nos setores próprios a ela, a organizar-se e, por ser inexperiente, a apoiar-se na experiência dos outros”.

Mas não é propriamente desse aspecto vocacional da vida de estudos que quero tratar, e sim daquele que envolve o início deste artigo e seu título: o descanso, a recreação e o “contato com a vida”. Um intelectual não pode ser um bitolado; não pode mergulhar incessantemente nos estudos, esquecendo-se que há outras dimensões da vida que merecem sua atenção. Descansar, se divertir e manter contato com outras pessoas (sobretudo aquelas que, verdadeiramente, ama) é fundamental para que o próprio trabalho renda e se desenvolva da melhor maneira possível. Nesse sentido, nunca é demais relembrar as palavras sábio escritor do Eclesiastes:

“Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.

Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;

Tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar;

Tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar;

Tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar;

Tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de lançar fora;

Tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar;

Tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz”. (Eclesiastes 3,1-8)

Manter contato com a natureza – ah, essas montanhas mineiras! – é revigorante. Observar certos aspectos da ordem natural é contemplar a Criação, certificando-se, realmente, que “os céus declaram a glória de Deus” (Salmo 19,1). Caso não sejas cristão ou, ao menos, deísta, caro leitor, não há porque melindrar-se com o exercício público de minhas convicções. Contemple a Natureza e como as coisas se ordenaram tão incrivelmente à revelia de uma inteligência superior – se conseguir, evidentemente. Para sua vida intelectual, é importante mesmo que creio no que Sertillanges diz: “A árvore é um instrutor e o prado formiga de ideias tanto quanto de anêmonas ou de malmequeres; o céu está carregado de inspirações em suas nuvens e astros; as montanhas estabilizam nossos pensamentos com sua massa, e as altas meditações se precipitam, num mesmo ímpeto, atrás das correntezas”.

E também é fundamental relaxar, desligar-se do fatigante trabalho intelectual para, por exemplo, fazer um churrasco com amigos queridos de longa data. Sobre isso, Sertillanges diz: “A descontração é um dever, tal como a higiene, onde ela se inclui, tal como a conservação das forças”. E vai além, amparando-se no Aquinate: “Santo Tomás explica que o autêntico repouso da alma é a alegria, a ação deleitável. Os jogos, as conversas familiares, a amizade, a vida em família, as leituras prazerosas cujas condições já foram colocadas, a proximidade da natureza, a arte quando estiver acessível, um trabalho manual bem ameno, o perambular inteligente numa cidade, os espetáculos nem muito incisivos nem muito excitantes, os esportes moderados: são esses os elementos que asseguram a descontração”.

Portanto, caríssimo leitor, dê a si mesmo, como faço eu neste exato momento, mesmo que a vida de estudos não seja propriamente o seu caso, momentos de lazer saudáveis com sua família e seus amigos. Isso é fundamental para que consigas seguir adiante, um dia após o outro, nessa vida tão cheia de percalços que é a vida de todo brasileiro.

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Ps.: Por motivos óbvios – além dos expostos acima –, envio toda minha solidariedade e minhas orações àqueles que foram direta ou indiretamente atingidos pela tragédia sem precedentes em Brumadinho. Que Deus traga consolo, e a lei, justiça.

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