
Ouça este conteúdo
“A missão multissecular e perpétua da Raça Hebreia, predestinada a formar um laço vivo entre toda a Família Humana; não só no mundo mediterrâneo Romano e na Velha Europa Medieval, como também, agora mesmo, indo dos estepes da Rússia para as montanhas da Califórnia ou para os belos planaltos do Paraná, de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul...” (André Rebouças)
Em 10 de julho de 1891, já exilado e ainda com alguma esperança de que seria possível restabelecer a ordem no Brasil, André Rebouças, falando sobre um projeto de Congresso de Paz e Liberdade de Comércio na América do Sul, escreve ao amigo Joaquim Nabuco: “Vamos continuar nossos trabalhos de 1888 e 1889 para a Confraternização, Paz e Tranquilidade nessa mísera América do Sul. Vamos expiar os crimes de nossos avós, portugueses e espanhóis; do Cardeal Ximenes e Torquemada, para com os míseros Hebreus. O Brasil e a Argentina devem doar toda a zona litigiosa ao barão Hirsch para colocar nela imigrantes Hebreus”.
Desse modo, cinco anos antes da publicação de O Estado Judeu, de Theodor Herzl, o manifesto fundador do sionismo político moderno, Rebouças manifestava o seu sionismo avant la lettre no desejo de, como dito acima, expiar os crimes dos antepassados contra um dos povos mais perseguidos (se não o mais perseguido) da história. Seu projeto é arrojado. Ele continua:
“Comecemos pelo fim e poupemos as despesas de Paz Armada, e, depois, de imigração. Os milionários hebreus vão fazer esse serviço por nós; ficamos livres de compromissos e despesas. É uma doação de 600 léguas quadradas ou de 26.136 quilômetros quadrados. Povoados, como a Bélgica, há 200 habitantes por quilômetro quadrado, nutrirão 5.227.200 hebreus. É exatamente o que precisam as infelizes vítimas do fanatismo teocrático ortodoxo grego, que está repetindo, no fim do século 19, os crimes dos inquisidores do tempo da descoberta da América; os crimes de nossos avós, que nós agora vamos purgar pela lei de Moisés: ʻReddens iniquitatem patrum super filius in tertiam et quartam generationem bis qui oderunt Meʼ (sic)[...castigando a iniquidade dos pais sobre os filhos até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam...]. É esta uma solução de Paz Perpétua; por neutralização absoluta do território litigioso; criando uma Mesopotâmia entre o Paraná e o Uruguai, um novo Éden, superior ao de Moisés. Evitando
toda e qualquer tendência belicosa, porque os hebreus não têm exército, nem armada, nem cônsules parasitas, nem diplomatas intrigantes.”
André Rebouças compreendia a situação judaica como compreendia a escravidão: um flagelo a ser extirpado do mundo
Ou seja, diante da histórica perseguição que os judeus sofriam na Europa, e das constantes expulsões de países em que estavam estabelecidos, por conta dos preconceitos que recaíam sobre eles desde os tempos bíblicos, Rebouças compreende a situação judaica como compreende a escravidão: um flagelo a ser extirpado do mundo.
Ao longo da história, o antissemitismo se constituiu como um fenômeno duradouro e mutável. No contexto greco-romano já havia hostilidade à sua “vida separada” e suas práticas religiosas peculiares. Com a expansão do cristianismo, esse preconceito ganhou uma dimensão religiosa mais estruturada, com a responsabilização pela morte de Cristo entre as acusações mais recorrentes, tornando os judeus vítimas de intensa discriminação, expulsão e violência durante a Idade Média. Nesse período, consolidaram-se estereótipos e mitos que apresentavam os judeus como elementos perigosos ou desviantes dentro das sociedades europeias, frequentemente utilizados como bodes expiatórios em momentos de crise – como o de transmitir doenças durante as epidemias.
Na modernidade, especialmente a partir do século 19, o antissemitismo passou por uma transformação decisiva – entre as muitas que sofreu ao longo da história – ao assumir contornos raciais e pseudocientíficos. Essa reconfiguração permitiu que o racismo contra os judeus persistisse mesmo diante de processos de assimilação, culminando, no século 20, em sua forma mais extrema: o nazismo e o Holocausto, expressão política de um ódio historicamente sedimentado na ideia de superioridade racial. É bom lembrar, contudo, que, embora esse episódio represente seu ápice histórico, o antissemitismo continua a se manifestar sob novas formas – por meio do reforço de estereótipos conspiracionistas e discursos políticos contemporâneos travestidos de luta pelos oprimidos –, evidenciando sua persistente capacidade de adaptação ao longo do tempo.
Rebouças, sensível a todo esse histórico (exceto pelo Holocausto, obviamente), ainda escreveu um artigo na Revista de Engenharia – com a qual colaborava desde sua fundação, em 1879 –, dividido em três partes, em que analise a questão judaica de forma profunda e solidária.
VEJA TAMBÉM:
Ele inicia relatando dois fatos que, para ele, confirmam a vocação dos EUA como “terra da promissão, abrigo e conforto para as infelizes vítimas da teocracia do Velho Mundo”. Em janeiro de 1891, o senado russo emitiu um parecer que restringia a aquisição de propriedade aos judeus. Em fevereiro, nos EUA, “anunciam que se constituiu ali uma companhia com o capital de cinco milhões de dólares para favorecer a colonização de Judeus-Russos na Califórnia”. E emenda: “Nada mais comprobativo da solidariedade da Família Humana; dos fenômenos de ação e reação que promovem a injustiça, a iniquidade, a tirania e o absolutismo”.
Afirma que o Brasil sempre foi receptivo à imigração judaica, tendo recebido, desde 1878, judeus russos: primeiro, protestantes menonitas, “uma seita que não jura nem mata; fugiam às barbáries do recrutamento, às torturas dos quartéis e dos acampamentos; aos sofrimentos das marchas e das manobras militares; aos horrores da guerra, sempre iminente no Velho Mundo”. Depois, os judeus russos que, ele continua, fugiam “à perseguição sistemática dos ferozes teocratas antissemitas; dos devedores dos capitalistas judeus, e até dos lentes e estudantes das Universidades, que não se pejam de confessar que não podem lutar com a superioridade intelectual dos estudantes
israelitas”.
Em seguida, o abolicionista, no alto de sua cultura enciclopédica, recorre ao historiador Theodor Mommsen, considerado um dos especialistas em história da Antiguidade Latina de todos os tempos, e sua monumental História de Roma, a fim de provar que o antissemitismo é uma invenção romana. Mommsen descreve os judeus como um “povo notável, dócil e, ao mesmo tempo, tenaz”, que “estava, tanto no mundo antigo quanto no moderno, em toda parte e em lugar nenhum em casa, e em toda parte e em lugar nenhum poderoso”. E complementa:
“Quão numerosa já era a população judaica em Roma antes mesmo do tempo de César, e quão estreitamente, ao mesmo tempo, os judeus já então se mantinham unidos como compatriotas, é demonstrado pela observação de um autor daquele período, segundo a qual era perigoso para um governador ofender os judeus em sua província, pois poderia certamente contar em ser vaiado, ao regressar, pela população da capital. Já nesse tempo, a principal atividade dos judeus era o comércio; o comerciante judeu se movia por toda parte juntamente com o comerciante romano conquistador, do mesmo modo que mais tarde acompanharia o genovês e o veneziano, e o capital afluía de todos os lados para os mercadores judeus, ao lado dos romanos. Também nesse período encontramos a peculiar antipatia dos ocidentais em relação a essa raça tão profundamente oriental e às suas opiniões e costumes estrangeiros. Esse judaísmo, embora não fosse o aspecto mais agradável no quadro nada agradável da mistura de nações então vigente, era, contudo, um elemento histórico que se desenvolvia no curso natural das coisas, o qual o estadista não podia nem ignorar nem combater e que César, ao contrário – assim como seu predecessor Alexandre –, com correta percepção das circunstâncias, promoveu tanto quanto possível. Enquanto Alexandre, ao lançar as bases do judaísmo alexandrino, não fez muito menos pela nação do que o próprio Davi ao planejar o templo de Jerusalém, César também favoreceu os interesses dos judeus em Alexandria e em Roma por meio de privilégios e concessões especiais, protegendo em particular seu culto específico tanto contra os sacerdotes locais romanos quanto contra os gregos.”
Na modernidade, especialmente a partir do século 19, o antissemitismo passou por uma transformação decisiva ao assumir contornos raciais e pseudocientíficos
Rebouças evidencia a proteção que “gênios superiores” como Alexandre, o Grande, e Júlio César deram aos judeus, povo “elástico e resistente como os fortes aços da indústria moderna”, e finaliza a primeira parte do artigo afirmando, como está na epígrafe, que os judeus tinham um papel predestinado de unir toda a família humana.
A segunda parte, ele inicia, visa a “relembrar as responsabilidades atávicas da família luso-brasileira nos crimes de perseguição e tortura; de suplicio e cremação dos descendentes da raça predestinada, que deu à Humanidade seus mais sublimes representantes: Moisés e Jesus”. Conta o caso terrível dos judeus que, tendo sido expulsos de Castela, na Espanha, em 1492, pelo rei dom Fernando e pela rainha Isabel de Castela, pediram asilo ao rei dom João, de Portugal. Este, tendo lhes cobrado uma quantia absurda em dinheiro por cabeça, a fim de aceitá-los, deveria enviar navios aos portos de Castela para buscá-los. Mas, diz Rebouças:
“Os capitães e mestres destas naus, para deles tirarem mais dinheiro e maiores fretes do que por suas avenças eram obrigados, além do mau trato que lhes davam, lhes faziam as derrotas de sua viagem mais longas, para assim os vexarem e lhes venderem as viandas, água e vinho ao preço que lhes parecia; como lhes fazerem outras afrontas em suas pessoas e desonras a suas mulheres e filhas; mais a lei de perjuros e maus homens que de cristãos.”
Depois diz que, ainda, muitos desses judeus que, por pobreza ou qualquer outro motivo, não puderam embarcar foram feitos escravos pelo rei de Portugal.
VEJA TAMBÉM:
Na terceira e última parte do artigo, lembra o caso nefasto do poeta e dramaturgo brasileiro Antônio José da Silva, que ele chamou de resultado da “canibal perseguição à raça hebreia”. Diz ele:
“Antônio José da Silva, nascido no Rio de Janeiro a 8 de maio de 1785, sofreu prisão e todas as torturas da Inquisição, morrendo queimado em Lisboa a 19 de outubro de 1739... Os inquisidores acusavam-no do ʻcrime de jejuar à moda israelitaʼ. O infeliz brasileiro-hebreu era poeta cômico: empregava, no dizer do crítico F. Wolf, as locuções, os provérbios e as pilhérias do povo; por isso suas comédias têm grande valor linguístico; sobremodo é para admirar-se esse tom popular, essa liberdade e independência de Antônio José. Compreende-se que o jejum, segundo a lei de Moisés, foi um pretexto. O que levou o poeta aos cárceres da atroz Inquisição foi a Liberdade e a Independência. É contra elas que luta desde séculos a hedionda teocracia, que só quer imbecis e fanáticos; servis e mendigos; seres cretinizados e embrutecidos; cadáveres ambulantes – [...] como dizia a feroz fórmula dos jesuítas...”
E, em seguida, faz a ligação entre Inquisição e escravidão:
“Foi a 22 de julho de 1621 que uma Carta Régia criou o hediondo tribunal da Inquisição no Brasil. Não esquecer que os tratados com a Inglaterra exigiam sempre a supressão dos tribunais da Inquisição e do tráfico de escravos na Costa dʼÁfrica... Vede bem: todos esses crimes são conexos: – crimes teocráticos de queimar homens; crimes plutocráticos de vender homens. Todas essas iniquidades pesam sobre a geração atual por atavismo; por herança de nossos avós. Não se herdam somente terras e casas; prata, ouro e brilhantes: herdam-se também os crimes, os remorsos e a urgência fatal da expiação.”
A ligação que Rebouças faz entre os dois maiores crimes cometidos a povos específicos na história da humanidade é uma antecipação do que os judeus fariam em relação aos negros nos anos 1960, apoiando-os durante a luta pelos direitos civis nos EUA
Curiosamente, não exime nem a si próprio quando diz “nossos avós”. Ele sabia que, apesar de negro e de ter sofrido racismo a vida toda, corria nele, também, sangue português. Não renegava, como ele mesmo dizia, sua “qualidade de mulato”.
Por fim, podemos dizer que a ligação que Rebouças faz entre os dois maiores crimes cometidos a povos específicos, por motivos étnico-religiosos, na história da humanidade, é, ao fim e ao cabo, uma antecipação do que, na América, os judeus fariam em relação aos negros nos anos 1960, apoiando-os durante o agudo período de luta pelos direitos civis, pois viam na segregação negra um espelho da que sofreram durante o longo período de sua vida na diáspora. Os escravos cristãos, anteriormente, fariam o mesmo, associando a sua condição ao Israel bíblico escravizado no Egito (conforme analiso no primeiríssimo artigo dessa coluna).
Em tempos de acentuado antissemitismo, inclusive na militância negra progressista, e de judeus sendo expulsos de bares em plena luz do dia, é bom lembrar que o maior brasileiro de todos os tempos estava do lado certo.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos








