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Patricia Arquette e Bill Pullman em cena de "A Estrada Perdida", de David Lynch.
Patricia Arquette e Bill Pullman em cena de “A Estrada Perdida”, de David Lynch.| Foto: Divulgação

“Os sonhos são um escudo contra a enfadonha monotonia da vida: libertam a imaginação de seus grilhões, para que ela possa confundir todos os quadros da existência cotidiana e irromper na permanente gravidade dos adultos com o brinquedo alegre da criança.” (Novalis, citado por Freud em A interpretação dos sonhos)

A lembrança mais marcante que eu tinha de A Estrada Perdida certamente um dos filmes mais difíceis de David Lynch –, antes de revê-lo recentemente, é a cena de sexo da belíssima Patricia Arquette, num telão, ao som da sombria banda alemã Rammstein. A cena, que ocorre próxima ao fim do filme, não é explícita, mas forte, incômoda, contrastada com a perplexidade do personagem Pete Dayton, vivido pelo jovem (à época) Balthazar Getty; e a música torna tudo ainda mais desconcertante. O assombroso Homem Misterioso, vivido pelo lendário Robert Blake (o detetive Tony Baretta da série), com uma maquiagem branca no rosto e sem sobrancelhas, que, segundo Kristine McKenna em Espaço para sonhar, “traduz como o mal pode invadir sutilmente a vida cotidiana”, também é um personagem inesquecível. É um filme, como salienta McKenna, que “explora temas como paranoia e identidades cambiantes, e é o filme noir mais clássico de Lynch”.

De fato, como dito em artigo anterior dessa série, o sexo é algo que fascina Lynch por seu poder grandioso e ambíguo, que pode ser, conforme ele diz numa entrevista, “como muitas coisas (...) muito, muito sublime e elevado, e espiritual até; mas pode ser o inverso”, e, se em Coração Selvagem o sexo é um elemento intenso, mas elevado – que ratifica o amor de Sailor e Lula –, em A Estrada Perdida (assim como em Veludo Azul) ele mostra sua face sombria e perturbadora, como a manifestação da solidão e do perverso.

A Estrada Perdida, segundo Kristine McKenna, “explora temas como paranoia e identidades cambiantes, e é o filme noir mais clássico de Lynch”

Entretanto, A Estrada Perdida é, antes de qualquer coisa e ainda usando as palavras de McKenna, um “horror existencial” magistral, de narrativa totalmente fragmentada e misteriosa, que conta a história de Fred Madison, vivido esplendidamente por Bill Pulmann, um saxofonista virtuose de jazz, casado com a estonteante Renee (que também é Alice Wakefield), que começam a receber, em casa, fitas de vídeo com filmagens de sua casa – num primeiro momento, do exterior, mas, posteriormente e para a surpresa de ambos, do interior da casa e até deles próprios, dormindo. A partir daí se desenrola uma trama de assassinatos e violência – física e psicológica, assustadoras.

Há coisas muito curiosas e interessantes sobre a concepção inicial do filme: a primeira é que essa cena das fitas foi a primeira coisa que ocorreu a Lynch; depois, diálogos aleatórios do livro Night People, de Barry Gifford; e, por fim, algo real – e, de certo modo, lynchiano – que lhe aconteceu. Ele conta: “a campainha de casa estava ligada ao telefone; um dia ela tocou e alguém disse: ʻDick Laurent morreuʼ. Corri para a janela para ver quem era, mas não havia ninguém lá fora. Acho que tocaram na casa errada, mas nunca perguntei aos vizinhos se conheciam Dick Laurent, pois na verdade não queria saber”. E essa é, exatamente, a primeira cena do filme.

Um último detalhe é a casa dos Madison, que Lynch havia acabado de comprar a fim de transformá-la num estúdio. A casa, exteriormente, tem um aspecto curioso: é moderna, de linhas retas e duras, com umas pequenas janelas que lhe dão um aspecto hermético. Interiormente, a mobília é simples, os espaços são amplos, mas há muita sombra e espaços totalmente escuros – como um corredor por onde Madison desaparece e reaparece algumas vezes. Sobre a casa, um texto interessantíssimo de Justus Nieland, Furniture Porn: Lost Highway, em seu livro David Lynch – Contemporary Film Directors, aborda os aspectos peculiares dos móveis e da própria casa. Diz ele: “Na verdade, o desenho peculiar da casa quase poderia servir de metáfora para todo o filme: quando visto de frente, há algumas pequenas janelas, oferecendo oportunidades limitadas para ver o interior. Mas quando é abordado por outros ângulos, percebe-se que existem muitas maneiras de observar o interior”. E complementa: “A casa moderna dos Madison permite que Lynch coloque a questão do interior de várias maneiras: através do status conturbado da domesticidade e privacidade burguesas, aqui novamente contaminadas pela teatralidade; pela etiologia do sofrimento psíquico de Fred, que Lynch novamente dá forma arquitetônica angustiante e impulsiona a fragmentação narrativa; e através do enigma de Renee/Alice, cuja misteriosa sexualidade é solicitada a falar sua verdade à maneira pornográfica”.

McKenna resume bem o complexo personagem de Pullman: “Bill Pulmann interpreta o músico de jazz Fred Madison, que está em meio a uma fuga psicogênica, condição psicológica que o faz abandonar a própria identidade e assumir outra. Um forma de amnésia, a fuga psicogênica permite à mente se proteger de si mesma quando a realidade se torna insuportável. Lynch declarou que o filme e parcialmente inspirado nos assassinatos de Nicole Brown Simpson e Ron Goldman, e no julgamento televisionado de O.J. Simpson, que ele achou cativante. Como Fred Madison, Simpson parecia ter se convencido de que não participara do crime cometido”.

Pulmann diz que ele e Lynch eram como “diapasões reverberando, e quando fomos para o set, vi que todos sentiam o mesmo a respeito dele – David é muito bom planejando o dia de um modo que todos se sentem parte do ato criativo”. E Balthazar Getty, que faz Pete Dayton, uma espécie de alter ego de Madison, diz: “Num filme de Lynch, a única pessoa que tem uma visão ampla é Lynch, e Patricia [Arquette] e eu nem sabíamos que tipo de filme estávamos fazendo enquanto rodávamos [...]. Quando, por fim, o vi não tinha ideia de que seria tão aterrador. Patricia e Bill indo e vindo pelo corredor escuro, os sons pesados – nada disso estava evidente no roteiro, que em grande parte estava aberto à interpretação. A técnica de David inclui deixar os atores em suspense, pois isso cria certa atmosfera no set”. Patricia Arquette é a femme fatale, que aparece loira e morena no filme, fazendo um papel duplo com direito a nu e muita sensualidade.

A trama é complexa, intrincada e bastante violenta. Como diz McKenna, “não é um filme amigável com o público. Implacavelmente sombrio, com um enredo fragmentado e não linear que desafia as explicações fáceis, e cenas de sexo que provocaram acusações de misoginia”. Mas acrescenta: “É uma espécie de declaração de independência”, pois Lynch parece querer afirmar – sobretudo aos críticos – que seus filmes não eram (são) feitos pensando na crítica ou mesmo na chamada comunidade do cinema. E nisso eu o admiro demais. Assim como C.S. Lewis, o homem imaginativo de Lynch é mais poderoso que o racional. A trilha sonora tem, além da banda alemã supracitada, Nine Inch Nails, Marilyn Manson, David Bowie e – pasme, caro leitor! – Tom Jobim!

Assim como C.S. Lewis, o homem imaginativo de Lynch é mais poderoso que o racional

O primeiro contato é, para o expectador interessado, sem dúvida uma experiência sensorial profunda. E, talvez, após assisti-lo uma segunda ou terceira vez, poderá fazer considerações racionais sobre a trama – mas não creio que seja necessário. É, sem sombra de dúvidas, um trabalho de mestre que vale cada segundo e é, para muitos, o melhor filme de David Lynch. Não é o de que gosto mais, mas certamente é dos que gosto muito. E termino com um relato de produção, narrado por McKenna, que confirma a extrema sensibilidade artística de Lynch:

“Como provavelmente ficou claro a esta altura, quem trabalha com Lynch se maravilha com sua habilidade em resolver problemas rapidamente; entre eles, Deming, que conta: ‘na última noite de filmagem havia uma cena no deserto envolvendo uma choupana em ruínas, e tínhamos terminado quando David vira-se para Patty Norris e pergunta: ʻo que vai acontecer com a Choupana?ʼ Ela respondeu: ʻo departamento de arte vai derrubá-la amanhãʼ. E ele: ʻpodemos incendiá-la?ʼ Ela riu e ele insistiu: ʻsério, podemos incendiá-la?ʼ Então chamou Gary DʼAmico e pediu: ʻvocê tem um pouco de gasolina, Gary?ʼ, e este se desculpou: ʻpuxa, se tivesse me dito antes – não sei se tenho o suficiente para issoʼ. Gary, então, mandou buscar o que precisava e pouco depois estava montando as bombas de gasolina na choupana’”.

Se já assistiu a A Estrada Perdida, cinéfilo leitor, compreende perfeitamente a genialidade disso e a importância da choupana em chamas para o filme. Se não assistiu, está esperando o quê?

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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