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Laura Dern e Nicholas Cage em "Coração Selvagem", de David Lynch.
Laura Dern e Nicholas Cage em “Coração Selvagem”, de David Lynch.| Foto: Divulgação

“O mundo é selvagem por dentro e tão estranho por fora.” (Lula, personagem de Coração Selvagem)

“Não há nada neste mundo que menos se baste a si do mesmo que o mal. Compreende-se. É que toda verdade do mal consiste única e simplesmente no bem que ele aprofunda e liberta. A alma das lágrimas está no beijo que as deve enxugar.” (Gustave Thibon)

Se você é fã de David Lynch – ou seja, se já se deixou seduzir pelo seu estilo não convencional de contar uma história –, Coração Selvagem, de 1990, estará entre seus filmes prediletos. É nele que uma profusão de esquisitices, dessas que serão levadas às últimas consequências em Twin Peaks e, talvez mais ainda, em Império dos Sonhos, nos é lançada em rosto sem qualquer explicação, mas que dá aquele aspecto onírico e emocional que Lynch tanto preza. Para além dos personagens centrais, cujo exagero é parte da mise-em-scène, algumas figuras incidentais – como um homem com a voz do Pato Donald dizendo yeah! durante uma apresentação de jazz e fazendo perguntas sem sentido aos protagonistas, ou Jack Nance num papel pequenino e com uma conversa doida sobre seu cachorro – tornam nossa experiência bastante peculiar.

Nesse sentido, parece óbvio que Lynch não trabalha de maneira racional; a decisão do que vai na tela é quase toda intuitiva e ele não está preocupado se faz sentido, se tem lógica, pois ele parte do princípio de que muitas coisas na vida não têm lógica mesmo. Michael Ontkean, o lendário xerife Harry S. Truman de Twin Peaks, confirma: “Tudo com David é sempre comovente, é uma espécie de circo caseiro transformado num ritual pagão excêntrico. Veludo Azul confirmou que ele é uma espécie de alquimista antigo, e do nada cria uma atmosfera palpável e duradoura. Você não vê os fios, os arames ou o coelho, a menos que ele queira”.

Em Coração Selvagem, uma profusão de esquisitices nos é lançada em rosto sem qualquer explicação, mas que dá aquele aspecto onírico e emocional que Lynch tanto preza

O roteiro de Coração Selvagem nasceu de um romance de Barry Gifford, Wild at Heart – The story of Sailor and Lula, que o produtor Monty Montogomery, amigo de Lynch, comprara, oferecendo-lhe a produção; mas Lynch, ao ler o manuscrito de Gifford, que era inédito, quis dirigir, e Monty achou ótimo. Lynch tinha acabado de dirigir o piloto de Twin Peaks, mas, quando viu que a coisa tinha virado uma série (o que não era a intenção original), perdeu um pouco o interesse e, antes de voltar, no terceiro episódio, resolveu se dedicar aoutro projeto.

Trata-se de um road movie intenso e psicodélico, que mistura, como Lynch gosta de fazer, ação, mistério e humor na medida certa. Violência, romance e erotismo são explorados de maneira bastante convincente, com muitas cenas picantes de sexo entre o casal protagonista, muito sangue e comportamentos bizarros. Um detalhe importante, como nos diz Kristine McKenna, é a trilha sonora: “A música tem um papel crucial no filme, e na trilha sonora há o suingue de uma big band, metal pesado, rock nʼ roll clássico, o dub pesado de African Head Charge e Im Abendrot, uma das últimas composições de Richard Strauss” (das belíssimas Quatro Últimas Canções). A canção de Strauss, que está na abertura do filme, em meio a um incêndio (que fará sentido durante a trama, que é explosiva por si só), e reaparece em cenas bastante específicas, é a maior prova da paixão profunda e arrebatadora entre Sailor e Lula.

Os personagens, como disse acima, são um caso à parte. Nicolas Cage – que sempre me pareceu um pouco canastrão, mas que está muito bem no filme – é Sailor, e Laura Dern, em sua segunda colaboração com Lynch (a primeira foi Veludo Azul), interpretou brilhantemente Lula. O jovem casal, caricato como todos os personagens de Coração Selvagem, é uma mistura da ingenuidade romântica de Lula com a violência quase psicótica de Sailor. O casal conversa muito, afetuosamente, o que é um excelente sinal de um relacionamento minimamente saudável, apesar de turbulento; eles se amam, de fato. E entre uma conversa séria sobre o futuro e preocupações com o meio ambiente, Sailor – cuja jaqueta de couro de cobra, como ele diz, “simboliza minha [sua] individualidade e minha [sua] crença na liberdade pessoal” – e Lula mergulham num mundo próprio, repleto de música e sexo. Diz o professor Justus Nieland, autor do livro sobre David Lynch da série Contemporary Film Directors:

Lynch coloca a paixão de Lula e Sailor em outra frequência. Aqui, o excesso da paixão procuraria escapar completamente da conversa e do discurso, desdobrando-se num espaço de intensidade sensual. À medida que as extremidades do som, sentimento e gesto são aqui alinhadas com o brilho do pôr do sol, somos lembrados da profecia de Lula sobre o apocalipse solar. A intensidade do casal romântico, cuja vitalidade emocional faz com que o resto do mundo desapareça, o exterior da textura traumática do mundo, é uma defesa contra a radioatividade mortal do sol? Ou é apenas outra versão do mesmo calor e energia que consomem a si mesmos? A música ʻSlaughterhouseʼ do Powermad, é tanto uma fuga do espaço aéreo traumático do rádio quanto um de seus canais mais perturbadores. Este é o paradoxo básico do interesse obsessivo do filme pela combustão, do movimento explosivo da energia em direção à exaustão, quando ela se incendeia em chamas mortais”.

Lynch é capaz de sintetizar tudo isso numa única cena, absolutamente genial, com um pôr do sol estonteante.

Após Sailor cometer um assassinato em legítima defesa e passar um período na prisão, eles resolvem fugir da mãe de Lula, Marietta Fortuna, uma malucona interpretada por Diane Ladd, que tinha seus sórdidos motivos para não aprovar o relacionamento. Durante a viagem, Sailor e Lula são perseguidos por uma série de figuras bizarras – a começar por Marcelo Santos, um assassino de aluguel e velho conhecido de Marietta – para matar Sailor, passando por uma série de vilões intermediários, até culminar no encontro com um personagem que merece destaque especial e que, certamente, é um dos mais icônicos da filmografia lynchiana: Bobby Peru, um sujeito pateticamente assustador interpretado de maneira magistral por Willem Dafoe. Bobby, que aparece só na segunda metade do filme, tem dentes estranhíssimos, que lhe dão um aspecto cômico. Mas não nos enganamos por muito tempo: trata-se de um homem muito violento e sádico, que se aproxima de Sailor, propondo-lhe uma parceria no crime, a fim de emboscá-lo. Dafoe conta: “Porque David é tão bom e o set era muito divertido, Coração Selvagem foi o filme menos estressante que já fiz. Estava interpretando minha fantasia de um psicopata criminoso, sabia como era o cabelo e tive a ideia do bigodinho. Mas o principal no personagem foram os dentes. Está bem claro no roteiro que ele tem os dentes estranhos, socados, e pensei que eles acrescentariam algo aos meus dentes [...]. Acabei conseguindo uma dentadura completa para sobrepor aos meus dentes, e isso disparou o personagem. Eles eram meio grandes demais, fazendo minha boca ficar sempre entreaberta de um modo um tanto lascivo, e me deram um ar estúpido, de assombro, central para o personagem. Os dentes foram ideia de David”.

Há uma cena curta, mas aterrorizante, na qual Bobby assedia Lula, que é uma das mais pungentes dos filmes de Lynch. Dern e Dafoe, cuja brilhante carreira fala por si, dão um show de interpretação.

Lynch é um homem espiritual, no mistério e no milagre Apesar de toda a carga de violência e bizarrices psicológicas que ele nos faz encarar em seus filmes, não é um homem soturno como Lars von Trier

O filme, que inicialmente teria um final trágico, acabou sendo acrescido de uma virada jubilosa, com uma cena fantástica e a presença de Glinda, a Bruxa Boa de O Mágico de Oz (a fantasia de L. Frank Baum tem importância no filme) – interpretada por Sheryl Lee, a Laura Palmer de Twin Peaks. McKenna analisa: “A história de Sailor e Lula parece ditada pelo destino, e em certo momento sopra um vento ruim e a sorte do casal muda. De repente os astros se alinham contra eles e tudo começa a dar errado”. As noções de destino e sorte são parte essencial da visão de mundo de Lynch, como atestam os que lhe são próximos. Mas Lynch observa: “Naquele tempo, um final feliz fazia as pessoas vomitarem – eles achavam que aquilo era se vender. E quanto mais pra baixo, mais legal era. Mas não pareceu correto terminar Coração Selvagem de um jeito pessimista. Tudo é possível, às vezes surge algo do nada e tudo fica bem. Acontece na vida. Porém, se contar com isso você pode se decepcionar. E você precisa estar sempre alerta porque algo pode acontecer a qualquer hora”.

O pequeno diálogo entre Sailor e a Bruxa Boa é um tanto patético – o que está de acordo com o filme – mas é emblemático:

Bruxa: Sailor! Sailor! Lula te ama.
Sailor: Mas sou um ladrão e um homicida. E não tive orientação materna ou paterna.
B: Ela lhe perdoou tudo. Você a ama. Não tenha medo, Sailor.
S: Mas ... tenho um coração selvagem!
B: Se tem um coração selvagem de verdade, vai lutar por seus sonhos. Não fuja do amor, Sailor. Não fuja do amor.

Os críticos não gostaram muito. Um deles, Richard Gaughram, em seu ensaio David Lynchʼs Road Films – Individuality and Personal Freedom?, que consta no livro The Phylosophy of David Lynch, manifesta sua indignação. Mas complementa:

A filosofia declarada de Lynch, que ele expressa abertamente na imprensa e em entrevistas – e que emerge também em seus filmes, recomenda passividade e rendição a uma força interna a priori ou um campo de significado que tem uma correspondência mística no universo mais amplo. Finalmente, não importa, então, se a Bruxa Boa é simplesmente uma manifestação dos desejos de Sailor ou uma entidade individualizada”.

Pode mesmo parecer bobo, mas essa é mais uma demonstração da crença de Lynch – que é, de fato, um homem espiritual – no mistério e no milagre. E, apesar de toda a carga de violência e bizarrices psicológicas que ele nos faz encarar em seus filmes, Lynch não é um homem soturno – como Lars von Trier, por exemplo. Isso fica muito claro quando lemos ou vemos relatos de pessoas que trabalharam/trabalham com ele, ou mesmo de seus familiares; Lynch é um homem bom, pacato, muito amável, preocupado com todos à sua volta, e tem um senso de humor aguçadíssimo. Mädchen Amick, a Shelly Johnson de Twin Peaks, testemunha: “David se importa profundamente com as pessoas e sabe da vida daqueles com quem trabalha, e isso é o que mais me toca nele. Tenho muita sorte de ter sido tocada por essa linda estrela cruzando a nossa galáxia, e aprecio nossa relação. Ele me direcionou e me ensinou a ter altos padrões, e nada se compara à experiência que tive com ele”.

Essa é uma das razões pelas quais seus filmes são interessantes. Estamos diante de um homem que não deixa sua imaginação se limitar pelo que há de cordato e moralmente superior, mas ousa explorar a profundidade da mente humana, e trazer à tona suas contradições e expor tudo aquilo que nosso subconsciente esconde. Lynch não fala à mente, fala à alma. E, por falar em alma, seguiremos para a alma perturbada de Fred Madison em A Estrada Perdida, no próximo artigo desta série.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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