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Jack Nance em Eraserhead, filme de David Lynch.
Jack Nance em Eraserhead, filme de David Lynch.| Foto: Divulgação

“Só o que me exalta ainda é a única palavra, liberdade. Eu a considero apropriada para manter, indefinidamente, o velho fanatismo humano. Atende, sem dúvida, à minha única aspiração legítima. Entre tantos infortúnios por nós herdados, deve-se admitir que a maior liberdade de espírito nos foi concedida. Devemos cuidar de não fazer mau uso dela. Reduzir a imaginação à servidão, fosse mesmo o caso de ganhar o que vulgarmente se chama a felicidade, é rejeitar o que haja, no fundo de si, de suprema justiça. Só a imaginação me dá contas do que pode ser, e é bastante para suspender por um instante a interdição terrível; é bastante também para que eu me entregue a ela, sem receio de me enganar.” (André Breton, Manifesto Surrealista)

O sentimento difuso que me liga ao cinema de David Lynch é o mesmo que me faz amar e odiar Lars von Trier – e que já apresentei numa série de artigos, aqui, nesta Gazeta do Povo. É uma sedução irresistível, arrebatadora. Não há um filme seu de que eu não goste muito, mas nenhum me desce sem um terrível incômodo. Com exceção óbvia para História Real – sobre qual falarei em artigo futuro –, que me emociona e enche de esperança, o cinema de Lynch é caos e inquietação.

O primeiro filme que vi foi, provavelmente, Mulholland Drive (cujo título em português, Cidade dos Sonhos, é um spoiler grosseiro), e foi o suficiente para eu compreender que praticamente tudo em David Lynch é onírico, é surreal, é sensação. É um cinema que foge completamente a qualquer tentativa de racionalização; ou você entra de cabeça ou não verá sentido. Como dizem os professores Robert Arp e Patricia Brace, na obra The Philosophy of David Lynch:

“A beleza do trabalho do cineasta David Lynch é que ele não apenas reconhece essa verdade básica sobre o absurdo da existência humana, mas a celebra para criar sua própria e única visão de mundo. Ao apresentar distorções e manipulações da realidade, paradoxos lógicos e falácias usados como base para as ações de seus personagens, um filme típico de Lynch pode ser desanimador para muitos espectadores. Como seus filmes costumam ser violentos e sexualmente explícitos, com uma estrutura narrativa incomum e conteúdo simbólico pesado, exibições repetidas podem ser necessárias para compreender todas as muitas camadas de significado que ele constrói na estrutura.”

Praticamente tudo em David Lynch é onírico, é surreal, é sensação. É um cinema que foge completamente a qualquer tentativa de racionalização; ou você entra de cabeça ou não verá sentido

David Lynch nasceu em Missoula, no estado de Montana, norte dos EUA, em 20 de janeiro de 1946. Oriundo de uma família de cristãos protestantes bastante peculiar, cresceu num ambiente propício para que sua arte florescesse. Diz Peggy Reavey, sua primeira esposa, em Espaço para sonhar, excepcional bio/autobiografia do cineasta: “os pais de David apoiaram os filhos para que fossem eles mesmos [...], mas o pai tinha padrões definidos de comportamento. Não se podia tratar mal as pessoas e, quando se fazia algo, tinha de ser bem-feito – ele era rígido nesse ponto. David tem padrões impecáveis de elaboração, e tenho certeza de que o pai tem a ver com isso”. Percebendo desde cedo que Lynch tinha talento natural para as artes, muniram-no com tudo de que precisava para desenvolver o seu talento. Kristine Mckenna, sua amiga e colaboradora na biografia, diz que ele “tinha uma habilidade natural para o desenho, e seu talento artístico ficou evidente desde cedo. A mãe recusou-se a dar-lhe livros de colorir – achava que limitavam a imaginação – e o pai trazia do trabalho grandes quantidades de papel quadriculado; Lynch tinha todos os materiais de que necessitava, e era estimulado a se deixar levar pela imaginação ao sentar-se para desenhar”.

Tal liberdade criativa e infância sem grandes percalços – “fui uma criança feliz”, diz ele – o levaram, primeiramente, às artes plásticas. Conheceu, ainda no ensino médio, Jack Fisk, atualmente notável designer de produção e diretor, que também se interessava por pintura e os dois “formaram uma amizade sólida que dura até hoje”. Moraram juntos, tiveram ateliê de pintura e Lynch foi casado com sua irmã por dez anos (de 1977 a 1987). E foi praticando a pintura que David Lynch teve seu verdadeiro chamado vocacional, o cinema. Diz Kristine Mckenna: “O evento crucial na criação do mito David Lynch ocorreu no início de 1967. Quando pintava uma figura de pé entre folhagens em tons escuros de verde, sentiu o que descreveu como ʻum ventinhoʼ e vislumbrou um leve movimento na pintura. Como um dom advindo do éter, a ideia de uma pintura em movimento acionou um gatilho em sua mente”.

E após alguns curta-metragens promissores, mas sem muita expressão, Lynch finalmente passa a investir naquele que só ficaria pronto após cinco longos anos, em 1977, que passaria por inúmeros percalços de produção e se tornaria um dos filmes mais cult do século 20: Eraserhead. Diz Lynch: “Eu senti Eraserhead, não o pensei”, e Mckenna complementa: “Filme magistral que opera sem qualquer tipo de filtro. Eraserhead é id puro”. Um filme sombrio e difícil de categorizar; um misto de terror distópico, drama existencial com pitadas de humor. Com um ar expressionista e uma carga surrealista que faria André Breton feliz, Eraserhead nos convida a um mergulho num universo de sons e imagens nas quais sonho e realidade se misturam a elementos cuja repugnância, ao mesmo tempo, repele e atrai. E é exatamente nesse universo de suspensão da racionalidade que o espaço para a imaginação se amplia. Diz Breton em seu Manifesto Surrealista: “o surrealismo repousa sobre a crença na realidade superior de certas formas de associações desprezadas antes dele, na onipotência do sonho, no desempenho desinteressado do pensamento. Tende a demolir definitivamente todos os outros mecanismos psíquicos, e a se substituir a eles na resolução dos principais problemas da vida”.

Kristine Mckenna resume muito bem a história: “A narrativa é simples. Em uma distopia pós-industrial sombria, o jovem Henry Spenser conhece uma garota chamada Mary e a engravida. Henry é assaltado pela ansiedade com a chegada do filho disforme de ambos e quer se livrar do horror que sente. Ele vivencia o mistério do erótico, em seguida a morte a criança e, por fim, os seus tormentos chegam ao fim com a interferência divina. Em certo sentido, é um filme sobre a graça”. E Lynch completa: “Eraserhead é meu filme mais espiritual, mas ninguém sacou. Acontece que tive uns sentimentos, mas não sabia do que se tratavam. Então peguei a Bíblia e comecei a ler, encontrei uma frase e pensei: ʻé isso aíʼ. Mas não sei que frase foi”. Lendo tais relatos tudo parece fazer sentido, mas não é exatamente isso que sentimos quando assistirmos ao filme. O fato é que Eraserhead é, num nível bastante profundo, desagradável mesmo, e a tal “criança” é uma espécie de alien gosmento, cujo choro constante a torna ainda mais grotesca; e até a “interferência divina”, com uma mulher com bochechas protuberantes, é questionável. Mas isso é David Lynch, que nos coloca num espaço de delírio e nos convida a dar lugar aos descaminhos mais improváveis de nosso subconsciente.

Jack Nance – que se tornaria colaborador habitual de Lynch – foi a escolha perfeita para o papel de Henry Spenser. Com seu sobrecenho carregado e sua cabeleira afoita, é uma figura inesquecível. Sua angústia transparece em cada gesto, em cada expressão, em cada palavra – dita ou não. O modo como tenta, na primeira metade do filme, normalizar aquela presença repugnante, e como vai se tornando cada vez mais impaciente a ponto de ser absorvido por sonhos delirantes, é digna de nota. Nesse sentido, Lynch, em seu primeiro filme, com pouquíssimos recursos, fez um trabalho de mestre. Em meio a muitas necessidades financeiras, é interessante descobrirmos, através dos relatos biográficos, que Lynch passou grande parte de seu início de carreira sofrendo muitas privações e trabalhando em vários empregos convencionais – como pedreiro e carpinteiro – a fim de sustentar sua vocação artística. Valeu a pena.

E foi nessa época também que ele descobriu a Meditação Transcendental. Ele diz: “Eu não dava a mínima para a meditação quando os Beatles estavam meditando, mas depois foi como se tivessem ligado um botão, e quis isso cada vez mais”. E a meditação mudou substancialmente não somente seu modo de fazer cinema, mas sua vida pessoal. Ele completa: “Tudo em mim mudou quando comecei a meditar. Duas semanas depois de começar, Peggy veio me perguntar: ʻO que está havendo?ʼ Respondo: ʻDo que você está falando?ʼ, porque ela podia estar se referindo a várias coisas. Ela explicou: ʻA sua raiva. Onde foi parar?ʼ [...] Antes de começar temia que a meditação me fizesse perder o foco, e não queria perder o pique para fazer as coisas. Descobri que ela te dá mais pique para fazer as coisas, mais alegria ao fazê-las e muito mais agudeza. As pessoas pensam que a raiva é aguda, mas é uma fraqueza que envenena o ambiente à sua volta. Não é saudável, e certamente não é boa para os relacionamentos”.

Após alguns fracassos em festivais – em Cannes disseram: “ele buñuelou Buñuel” –, Eraserhead, finalmente, se tornou cult e um clássico inescapável do cinema, presente no majestoso volume 1001 filmes para ver antes de morrer, que afirma que “as sensações de profundo incômodo ou mesmo horror provocadas pelo filme, que só aumentam em intensidade, quando ele é visto repetidas vezes, são simplesmente inesquecíveis”. E como diz Lynch: “Eu não ganhei dinheiro com Eraserhead, mas adorava o mundo que tinha visto”; mundo esse que o acompanhará por praticamente toda sua filmografia e a qual nos submeterá cada vez mais – como veremos no artigo seguinte. Eu sofro, mas gosto.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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