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Paulo Cruz

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A liberdade é um direito radical. Coluna semanal

História

O testemunho de dom Pedro II, ou: que falta nos faz um estadista

dom pedro ii
Detalhe de retrato de dom Pedro II pintado por Pedro Américo, em 1872. (Foto: Wikimedia Commons/Domínio público)

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“Pobre país em que o monarca é mais liberal que o súdito! Em que um desgraçado, que se acaba de fazer senador, ainda quer a nação infamada pela nefanda escravidão.” (André Rebouças, em 1868)

A frase em epígrafe, registrada por André Rebouças em seu Diário, é uma das muitas mostras de admiração que o grande abolicionista tinha por dom Pedro II. E foi exatamente a devoção de Rebouças que me fez querer conhecer mais sobre o maior – se não o único – estadista que esse país já teve. Tudo aquilo que vemos professores de História, pesquisadores militantes e jornalistas dizerem sobre o imperador não resiste aos fatos, todos muito bem documentados por muitos historiadores sérios. De fato, dom Pedro foi um grande homem e um brasileiro verdadeiramente preocupado com o país. Como disse José Murilo de Carvalho em seu pequeno notável Pedro II:

“Havia uma paixão que dominava tanto dom Pedro II como Pedro de Alcântara e soldava os lados conflitantes do homem, a paixão pelo Brasil. Era um amor surpreendente em quem foi mantido isolado da terra e da gente do país até a adolescência, convivendo apenas com os mestres, os serviçais e alguns políticos [...]. Foi como se, na ausência da figura paterna, de um modelo em que se espelhar e em que firmar sua identidade, o imperador adolescente tivesse escolhido o próprio país como referência.”

Tudo aquilo que vemos professores de História, pesquisadores militantes e jornalistas dizerem sobre dom Pedro II não resiste aos fatos, todos muito bem documentados por muitos historiadores sérios

E não há dúvidas de que o golpe que sofreu, em 15 de novembro de 1889, matou o Brasil. Ao ser expulso do país pelos republicanos e militares golpistas – de madrugada, a fim de não provocar a revolta da população, que o amava –, pegou um punhado de terra do chão, guardou e mandou confeccionar um travesseiro com ela, dizendo que, quando morresse, que deitassem sua cabeça nele, numa demonstração não “de demagogia, nem de sentimentalismo barato. Era pobre consolo por ser obrigado a morrer e ser enterrado longe da pátria”, como nos atesta José Murilo de Carvalho.

Há algo mais curioso sobre a anotação de Rebouças, o motivo: a abolição. Diz ele:

“O Imperador ia sair para a festa do Senhor dos Passos, na Capela Imperial; conversou, contudo, ainda uns 20 minutos com o Conselheiro Francisco de Paula Negreiros Saião Lobato, escolhido ontem Senador pelo Rio de Janeiro. Disseram que ontem tivera com o Imperador larga conferência. – Será o organizador do novo Ministério? Conversaram sobre política geral. O Saião Lobato, falando muito mal do partido liberal, sobretudo de Zacarias e Nabuco, pedindo medidas restritivas e dizendo que o princípio monárquico estava em perigo. O Imperador dizia que havia medidas e reformas liberais que se deviam adotar; não achava ainda ocasião de medidas de rigor! O Saião Lobato sustentava o esclavagismo; O Imperador disse ʻque não era mais possível que o Brasil fizesse exceção entre as nações civilizadas; que cumpria fazer, desde já, alguma cousa em prol da emancipaçãoʼ.”

Ou seja, esse é mais um insuspeito sinal do abolicionismo do imperador, dado ainda no fim dos anos 1860. Como afirmo em artigo nesta Gazeta do Povo, é óbvio que, por sua figura “pouco dada a conflitos [...], que o fez protelar as resoluções o quanto pôde [...], não é correto dizer que ele não a queria [a abolição] – ou mesmo o absurdo de que era escravocrata”. Como sabemos também, “logo após assumir o trono, em 1840, alforriou todos os seus escravos, passou a pagar salários para os chamados Escravos da Coroa e a custear os estudos de seus filhos”.

Dom Pedro era um homem simples, acessível, que recebia a todos e, como atesta em sua Fé de Ofício, redigida em 23 de abril de 1891, meses antes de morrer: “jamais deixei de ouvir e falar a quem quer que fosse”. Carvalho atesta:

“Nos primeiros sábados do mês, o imperador recebia formalmente o corpo diplomático. Nos outros sábados, havia audiência pública das cinco às sete da tarde. Qualquer um podia entrar, até ʻo mais humilde negro, em chinelos ou pés descalçosʼ, como anotou [Benjamin] Mossé. O conde dʼUrsel, diplomata belga, que presenciou uma audiência dessas, disse a mesma coisa. Pedro II estendia a mão e conversava com todos. Escragnolle Dória relata que uma senhora negra deixou cair papéis no chão. O imperador abaixou-se para os apanhar e devolver. O soberano ouvia queixas e reclamações, anotava-as e as passava aos ministros.”

Nossos distintos políticos da atualidade nos assaltam, em seu fetiche democrático, para viverem vidas de nababos sem terem sequer a sombra da magnanimidade de um Pedro II

A corte não tinha luxo. Muito pelo contrário. São famosas as observações até de certo desleixo com as instalações do Paço Imperial e mesmo com as roupas do imperador. “Em Petrópolis”, diz Carvalho, “o imperador parecia um cidadão comum. Vestido de casaca preta, chapéu alto, insígnia do Tosão de Ouro na lapela, passeava pela cidade, colhia flores nos jardins, ia a exposições no palácio de Cristal, frequentava as duchas. As crianças às vezes o cercavam”. E há um relato interessantíssimo, feito por Ina von Binzer, uma professora alemã que morou um período no Brasil e escreveu suas experiências em cartas a uma amiga e registradas no livro Os meus romanos – um documento importantíssimo da vida e costumes brasileiros no século 19. Ina trabalhou para uma importante família do Rio de Janeiro como preceptora de sete de seus filhos, e com ela fez algumas viagens. Numa delas, para presenciar a inauguração da Estação Ferroviária de São João del-Rei (MG), realizada com a presença da família imperial, em 1881, escreve à amiga sobre a chegada do imperador e da imperatriz – a citação é longa, mas imperdível:

“Nesse momento, um carro sacolejava estrondosamente sobre o calçamento. ʻO Imperador!ʼ, trovejou uma voz. ʻvivaʼ, gritou a pouco numerosa multidão lá fora. Curiosa, avancei minha cabeça: um senhor alto, imponente, de barba branca, apertava cordialmente a mão do Dr. Rameiro, que se achava perto da porta; depois, esse vistoso senhor entrou no corredor e apertou a mão das senhoras, que se inclinaram levemente, e, a seguir, a dos senhores. Prudentemente, colocara-me na última fila para poder imitar o que as brasileiras fizessem. Atrás do Imperador, vinha uma senhora muito pequenina e um pouco disforme, vestida simplesmente de preto, sorrindo com benevolência e dando a mão a beijar. Eram o Imperador e a Imperatriz do Brasil. Você não pode fazer ideia do que sentia! Era tudo tão horrivelmente simples e eu imaginara de maneira tão diferente uma recepção aos Imperadores oferecida por esses suntuosos brasileiros! Não havia nada impressionante! D. Pedro oferece o braço à sua esposa e o casal sobe a escada lentamente. Nós os seguimos. Em cima, a Imperatriz senta-se no sofá da sala de visitas, as senhoras presentes seguem o exemplo dessa única dama da corte, à direita e à esquerda, nas filas de cadeiras em ângulo reto, e a pobre princesa, velha e cansada, encontra ainda uma palavra amável para cada uma, enquanto o Imperador, como se fosse um moço, sem o mínimo sinal de fadiga, se reúne aos senhores. Imagine, Grete! Ele falou também comigo. Primeiro, assustei-me quando se dirigiu a mim perguntando por meu tio que se acha em Nova York, mas viveu muito tempo no Brasil, tendo sido muito protegido pelo Imperador. Parece que D. Pedro fala bem o alemão, mas comigo falou em francês.”

Um belo contraste para com os nossos distintos políticos da atualidade, que nos assaltam, em seu fetiche democrático, para viverem vidas de nababos sem terem sequer a sombra da magnanimidade de um Pedro II. Sem contar que a ideia de uma corte luxuosa no Brasil esbarrava, antes de tudo, nos recursos bastante limitados da família imperial. Apesar das sucessivas propostas feitas no Parlamento para elevar sua dotação, que era de 800 contos anuais (cerca de 3% das despesas do governo no início do reinado), o imperador jamais concordou com o aumento. Com tais recursos, a administração da Casa Imperial precisava arcar com a conservação dos palácios e com todas as despesas ordinárias, inclusive as viagens pelo território brasileiro. Quando viajava ao exterior, dom Pedro recorria a empréstimos, pois se recusava a utilizar dinheiro público.

Dom Pedro era um grande mecenas. Gastava grande parte do seu dinheiro pessoal com bolsas de estudos para cientistas e artistas, pois tinha em sua mente que a relevância de um país se constrói com conhecimento e cultura

Ao longo do tempo, o imperador procurou reduzir ainda mais as despesas da Casa Imperial, eliminando funções que considerava desnecessárias e diminuindo os gastos com os palácios. Em algumas ocasiões, dom Pedro II chegou a abrir mão de parte de sua própria dotação em favor do Tesouro. Em 1867, por exemplo, determinou que 25% de sua verba anual fosse destinada às despesas da Guerra do Paraguai, gesto imitado pela imperatriz. Sem contar as viagens pelas províncias, que pesavam consideravelmente sobre suas finanças por conta das muitas doações que fazia durante as visitas. E mais, dom Pedro era um grande mecenas. Gastava grande parte do seu dinheiro pessoal com bolsas de estudos para cientistas e artistas, pois tinha em sua mente que a relevância de um país se constrói com conhecimento e cultura. Como nos informa José Murilo de Carvalho:

“Grande parte dos gastos normais do bolsinho imperial, como se dizia, ia para esmolas, doações a entidades beneficentes e científicas, pensões. Muitos pobres de São Cristóvão eram sustentados por esmolas, que recebiam aos sábados, uma espécie de bolsa-família em pequena escala. No ano de 1857, foram gastos noventa contos com esmolas, muito mais do que os vencimentos anuais de todos os seis ministros. No mesmo ano, pensões e aposentadorias consumiram cinquenta contos. Boa parcela das pensões correspondia ao que hoje se chama de bolsa de estudos. Muitos brasileiros estudaram no país e no exterior à custa do bolsinho imperial. D. Pedro fazia o que hoje fazem os órgãos do governo que financiam bolsas de estudo, como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Durante o Segundo Reinado, 151 bolsistas obtiveram pensões, 41 deles para estudar no exterior. No Brasil, foram 65 os pensionistas do ensino básico e médio, dos quais quinze eram mulheres. Os pensionistas no exterior recebiam ajuda para viagem, livros e enxoval. Em contrapartida, tinham de prestar contas trimestrais de seu aproveitamento e assumir o compromisso de regressar ao país no final dos estudos. Agentes diplomáticos brasileiros eram encarregados de fazer os pagamentos e acompanhar o aproveitamento dos beneficiados. As pensões para o ensino superior cobriam diversas especialidades, com predominância da pintura, música, engenharia, advocacia e medicina.”

E complementa: “o descaso do imperador por dinheiro é bem ilustrado pela decisão de distribuir aos pobres os lucros, parcos, é verdade, da Fazenda de Santa Cruz, de propriedade da Coroa. Ele justificava a medida com o argumento de não querer que se dissesse que ʻestava entesourandoʼ”.

Estes são somente alguns testemunhos da grandeza de dom Pedro II. E, quando o comparamos com o que ocorreu com o Brasil após seu exílio e morte, compreendemos a decisão de um homem de sensibilidade superior, como André Rebouças, de seguir com a família imperial para o exílio. Suas palavras reverberam até hoje – e a mim causam tristeza: “Já considero o Brasil uma nação do passado, como a Grécia Antiga. É por isso que só trabalho para a memória de D. Pedro II, que foi, simultaneamente, nosso Pitágoras e nosso Sócrates; nosso Leônidas, na invasão paraguaia, e nosso Péricles, no belo e longo período de perfeita paz, desde 1.º de Março de 1870 até o nefasto 15 de Novembro de 1889”.

Que falta nos faz um estadista!

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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