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“A religião é uma espécie de má aguardente espiritual, na qual os escravos do capital afogam a sua imagem humana, as suas reivindicações de uma vida minimamente digna do homem.” (Vladimir Lênin)
Em 2024, levantei uma bola aqui, nesta Gazeta do Povo, sobre a relação da esquerda com os evangélicos, após o show da cantora Madonna em Copacabana e os comentários odiosos de esquerdistas exultantes pelas já um tanto batidas provocações da Rainha do Pop ao cristianismo. Inclusive, repito aqui uma frase dita por mim, à época, no X: “Daqui a dois anos, durante a campanha presidencial, veremos: ʻentenda por que os evangélicos votam na ~extrema direita~ʼ. Ou: ʻpor que os evangélicos rejeitam a esquerda?ʼ. Aí os sociólogos e palpiteiros de esquerda nem vão precisar explicar. É [só] pegar meia dúzia de tuítes de 04/05/24”.
Pois bem, o tempo chegou e, como citei recentemente, os cristãos – sobretudo os evangélicos – são uma força política impossível de ignorar, para o bem e para o mal. E o governo de esquerda que, por princípio, vê a religião como mero exercício de poder e opressão saiu a campo para tentar cooptar os crentes. Após a Janja, toda “recatada e do lar”, cantar o jingle de campanha em companhia do pastor esquerdista Kleber Lucas, Lula teve um encontro com pastores e reclamou do uso político da fé – enquanto fazia exatamente isso.
Esquerdistas, de uma hora para outra, passaram a ser carolas de procissão, e Lula se tornou praticamente um congregado mariano
Mas tal aceno, obviamente, não produziu o efeito desejado. Então o desespero da campanha se acentuou, à medida que as pesquisas mostram uma possibilidade real de o presidente não ser reeleito, e Lula, ao que parece, partiu para um plano B no mínimo curioso: colocar católicos contra evangélicos.
Uma notícia falsa foi plantada pela campanha na imprensa, de que haveria um projeto de Flávio Bolsonaro para retirar da Virgem Maria, em sua manifestação de Nossa Senhora Aparecida, o papel de padroeira do Brasil. Nossa Senhora Aparecida, vale lembrar, foi oficialmente declarada padroeira do Brasil pelo papa Pio XI, em 1930. Cinquenta anos depois, em 1980, durante a visita do papa João Paulo II ao país, o dia 12 de outubro foi instituído como feriado nacional por meio de lei federal.
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Isso se espalhou como um rastilho de pólvora e esquerdistas, de uma hora para outra, passaram a ser carolas de procissão, e Lula se tornou praticamente um congregado mariano. Janja, que poucos dias atrás fazia cosplay de cantora gospel, essa semana, com semblante compungido, exibiu uma enorme medalha da Virgem no peito. As redes sociais explodiram numa guerra santa sem precedentes, tendo como os mais radicais cruzados um bando de militantes que, se pudessem, enforcariam o último rei nas tripas do último padre. Uma farsa abjeta de dar nojo, mas que capturou completamente o debate político brasileiro.
Curiosamente, a mídia mainstream se dividiu. Enquanto alguns jornalistas se posicionaram de modo crítico à empreitada, outros saíram em defesa do presidente, plantando provas que, segundo eles, não deixariam dúvida de intenção do Zero-Um: desde uma frase de Flávio, de agosto, de que decretaria que “o Brasil é do Senhor Jesus Cristo” (obviamente, uma oração invocatória e não um projeto de lei), até um livro – se é que podemos chamar por esse nome –, escrito em 2001 pelo pastor JB Carvalho, amigo do presidenciável, no qual questiona o título de padroeira do Brasil. Também ressuscitaram (!) projetos arquivados há décadas, de revogação do título. Houve até quem invocasse – como a indefectível Daniela Lima – documentos, produzidos por entidades ligadas à CNBB, em que acusam um suposto projeto político para transformar o Brasil num evangelistão, através da chamada Teologia do Domínio – mais uma ideologia importada dos Estados Unidos.
As redes sociais explodiram numa guerra santa sem precedentes, tendo como os mais radicais cruzados um bando de militantes que, se pudessem, enforcariam o último rei nas tripas do último padre
A coisa foi tão absurda que não poderia passar despercebida daquela entidade que, há muito, se mete em toda e qualquer picuinha que ocorre no país: o Supremo Tribunal Federal e seus ministros-celebridade. Após o humorista Antônio Tabet publicar as fake news em seu perfil no X, usando o termo “família miliciana” e jurando de pés juntos que não falava especificamente de Flávio Bolsonaro, o ministro André Mendonça, numa canetada, determinou que todos os posts com a “notícia” fossem retirados – inclusive o de Tabet, que ficou, junto com seus amiguinhos da imprensa, esperneando contra a censura. Flávio Dino suspendeu a canetada de Mendonça. Mas Luiz Fux entrou na treta e, numa decisão-pito em Dino, mandou restabelecer a proibição. A bagunça agora está no plenário do STF.
Como o leitor deve saber, não sou eleitor de Flávio, mas de Renan Santos – que, inclusive, generosamente me convidou para ser seu ministro da Educação. Mas a manipulação petista é tão descarada, tão sórdida, tão maquiavélica que é impossível não se indignar com tal expediente. E mais quatro anos dessa total avacalhação institucional serão extremamente danosos para o país. Urge uma reação da sociedade, daqueles que não aceitam mais viver encabrestados por esse projeto de assistencialismo eleitoreiro perene que está falindo o país.
O que estamos assistindo, nesses dias, é Lula não só dizer, mas aplicar aquilo que Dilma afirmou ser a tática petista: “fazer o diabo para ganhar a eleição”. Curioso e bem ao gosto da esquerda: usar a religião para fazer o diabo. Que Deus nos ajude.

Paulo Cruz é professor e palestrante, formado em Filosofia e mestre em Ciências da Religião. Em 2017, foi um dos agraciados com a Ordem do Mérito Cultural, honraria concedida pelo Ministério da Cultura a nomes que se destacaram na produção/divulgação cultural, e em 2022, com o podcast Noir, foi vencedor do Prêmio Governo do Estado de São Paulo para as Artes, na categoria Cultura Urbana. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



