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“Devemos escrever sempre como se escrevêssemos pela primeira e pela última vez. Dizer tanto como se fosse uma despedida, e tão bem como se estivéssemos estreando.” (Karl Kraus)
Cá estou eu, de volta a esta coluna após um período sabático não exatamente programado. É bom saber que nesta casa, que me abriga, num ambiente de absoluta liberdade de expressão, há mais de dez anos, ainda tenho leitores que anseiam por aquilo que tão prazerosamente escrevo neste espaço.
Sim, escrevo. Pois quando estreei, em 16 de agosto de 2015, ainda sem coluna semanal, mas cheio de ideias para colocar para fora, parecia absurdo que um artigo de opinião fosse escrito por outro que não aquele que opina. Que o ghostwriting descesse ao nível de ser produzido, de fato, por um fantasma. Não por outra pessoa, mais preparada e inteligente (ou, ao menos, com mais tempo), mas por um sistema de inteligência artificial, uma LLM (Large Language Model), que emula, de forma ainda um tanto viciada – por exemplo, com excesso de travessões –, o texto de uma pessoa real.
Não me tornei um amante da filosofia e da literatura para, agora, simplesmente trair a minha vocação apostando na falta de critério de meu leitor
Ontem mesmo, ao fazer um comentário numa postagem no Instagram sobre o aumento do número de evangélicos em Ouro Preto, no qual defendi, por motivos óbvios (aqui, aqui e aqui, por exemplo), o respeito à tradição católica do local, a primeira “crítica” que recebi foi: “ChatGPT! kkk”. Espantei-me, pois eu nem havia escrito um tratado tomista; apenas um comentário com começo, meio e fim, que, sendo evangélico e amante da cidade, me senti na obrigação de escrever. Fiquei tão ofendido que estou aqui, reclamando com o leitor, que não tem nada a ver com isso. Mas, pelo menos, me deu ideia para esse artigo de retomada.
Esses dias vi comentários sobre uma jornalista que teria escrito sua coluna com uso de IA. Bem, não é de se espantar, pois a facilidade que esse recurso traz é, de fato, sedutora. Com o uso de um prompt com uma ou duas linhas, que até um chimpanzé treinado seria capaz de escrever, a filha-da-mãe entrega um texto coerente, estruturado, praticamente pronto para ser publicado. É lindo de ver, mas cheira a enxofre. O sticker do cérebro saindo da cabeça num foguete vem à mente na hora.
Mas, infelizmente, essa é a realidade. Com o tempo, as LLMs aprenderão a escrever textos cada vez melhores, o que diminuirá sensivelmente nossa capacidade de diferenciá-los de textos produzidos por gente. Se eu digitar: “escreva um artigo emulando o estilo de Dostoiévski”, não posso dizer que ela me entregará um novo Crime e Castigo, mas leitores pouco experientes – tal qual aqueles que espalham pela internet frases de motivação de Machado de Assis que Machado jamais escreveu – sucumbirão. Estaremos numa Torre de Babel ainda mais nefasta que a bíblica, pois a confusão de línguas receberá tradução – com lip sync e tudo.
Não foi por falta de aviso. C.S. Lewis, por exemplo, escreveu, nos anos 1940, em meio à grande inovação tecnológica do momento – a bomba atômica –, que a abolição do homem nos tornaria artefatos. A lógica quase se inverterá, tal qual nos filmes de ficção científica: assistiremos, de braços cruzados, às máquinas nos devorarem.
Óbvio que exagero, mas não muito. A automação tem seu custo. Não como um mal em si, mas como um recurso ao qual o homem pode recorrer para substituir sua própria capacidade de discernimento. Gustavo Corção nos aponta, em As fronteiras da técnica, que “existe em nossa civilização uma fadiga moral e um enorme desejo de capitulação”. E analisa:
“Como é a técnica, aparentemente, a única coisa que não tem envergonhado o homem; como indubitavelmente funcionam bem os aparelhos de rádio, embora não funcionem bem os organizadores de programas; acontece o que era de esperar: os homens irão pedir à técnica uma receita de prudência e até de felicidade. Irão procurar em testes, organogramas e ábacos, algo que os liberte da angustiosa opressão da liberdade.”
Textos não podem ser apartados de seus autores porque estes se perpetuam através de suas obras
O perigo está exatamente na facilidade sedutora com que as pessoas podem abdicar de sua liberdade de pensamento para entregá-la a uma inteligência artificial, o impulso de trocar a reflexão pelo reflexo e perder a alma na otimização do tempo.
Não me tornei um amante da filosofia e da literatura para, agora, diante dos enormes avanços da automação, simplesmente trair a minha vocação apostando na falta de critério de meu leitor, que sempre me respeitou e merece respeito. Textos não podem ser apartados de seus autores porque estes se perpetuam através de suas obras. E é exatamente dessa união entre vida e produção imaginativa que a cultura vive. Modelos de linguagem não substituem a visceralidade da experiência humana.
Mas não serei profeta do apocalipse. Podemos ser beneficiados por toda e qualquer inovação tecnológica. Como diz Corção: “a técnica é uma glória do homem. A máquina é um instrumento de libertação com o qual o homem, de certo modo, recupera o domínio sobre as coisas, o império que lhe foi dado no dia da criação”. Porém, “a palavra é o elo entre o mundo do espírito e o mundo dos sentidos; e assim como tudo o que está na inteligência passou pelos sentidos, reciprocamente, só voltando ao sinal sensível é que a inteligência se exprime”. E isso nenhuma máquina ou banco de dados superindexado é capaz de substituir, tampouco superar.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos








