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Paulo Cruz

Paulo Cruz

A liberdade é um direito radical. Coluna semanal

“Filosofia política” na internet

O império da ignorância

luana piovani preto de direita
Luana Piovani disse que não consegue entender como um negro pode ser de direita. (Foto: Imagem criada utilizando ChatGPT/Gazeta do Povo)

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“O fato de que somos um país novo cria limitações para as nossas possibilidades de assimilação cultural que precisaremos aprender a aceitar com simplicidade e modéstia, se quisermos realmente possuir um dia a estrutura de uma consciência verdadeiramente nacional.” (Mário Vieira de Mello)

Como o atento leitor já sabe, sou uma pessoa ativa nas redes sociais. Não sei se posso afirmar que seja um heavy user, mas estou sempre dando uma olhadela nas postagens e, apesar de cuidar para que o algoritmo me mantenha, basicamente, gravitando mais em torno de assuntos de artes, cultura, lifestyle e humor (e Ouro Preto) do que política, vez por outra me chegam temas políticos. E, quase sempre, são frustrantes, pois evidenciam aquilo que Mário Vieira de Mello diz na epígrafe.

Somos um país jovem, de horizonte cultural e espiritual exíguo. Se comparado aos milênios de civilizações anteriores, nossos 500 anos nos colocam em franca desvantagem imaginativa. Alguns exemplos nos bastam: a cultura e a religião, trazidas pelos jesuítas, receberam contornos sincréticos e pouco definidos até, pelo menos, o desenvolvimento do barroco; o jornalismo só teve início em 1808, com a abertura da imprensa por dom João VI; a literatura, que demorou três séculos para ser produzida por aqui, só encontrou expressão verdadeiramente brasileira com o mulato Teixeira e Sousa e seu O Filho do Pescador, publicado em 1843.

Não é mais possível dizer uma bobagem, ainda mais quando se trata de política, sem que esta não encontre eco em outra pessoa, igualmente desprovida não de inteligência, mas de senso comum

Entretanto, nada disso deveria ser um problema caso assumíssemos, de bom grado, tal limitação como um desafio a ser superado – sobretudo por nossas elites. Se assumíssemos, como diz o (sempre repetido nessa coluna) artigo de Sílvio Romero, a “consciência positiva do que realmente somos”, sem nos darmos ares de muito evoluídos, seria mais simples e justificável, inclusive, nosso esforço e investimento em educação de qualidade.

Iniciei falando da internet, pois retomo. Essa semana, dois vídeos demonstram, de modo bastante acentuado, o tamanho do abismo em que nos lançaram as redes sociais. Explico – talvez de novo, sem dizer novidade: antes da internet, um idiota era só um idiota de seu bairro. Alguém que dissesse uma estupidez diante dos amigos ouvia, de bate-pronto, um “cala a boca, para de falar asneira” e a vida seguia seu curso. Um arrogante, cheio de certezas, em não muito tempo passava a comer merenda sozinho na escola.

Mas agora, com a internet, toda, absolutamente toda estupidez é acolhida por um grupo não desprezível de pessoas. Não é mais possível dizer uma bobagem, ainda mais quando se trata de política, sem que esta não encontre eco em outra pessoa, igualmente desprovida não de inteligência, mas de senso comum. Porque alguns absurdos são tão patentes que não é preciso ser um especialista para perceber as – para dizer o mínimo – inconsistências e incoerências.

O primeiro vídeo é de um curtíssimo trecho de uma entrevista – toda ela pura alucinação – da atriz e apresentadora Luana Piovani. Bem, sobre o fato estranhíssimo de darmos atenção a artistas falando sobre coisas que não são sua arte, já tratei aqui mesmo, nesta Gazeta do Povo. Grandes artistas conseguem canalizar sua sensibilidade aflorada em sua arte e nos brindar com verdadeiras obras-primas que sobrevivem ao tempo. Já artistas medianos (para não dizer “medíocres”), não raro, encontram no debate político uma maneira de externar sua pretensão egocêntrica de resolver todos os problemas da humanidade com suas opiniões – não raro, estúpidas.

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Piovani, em determinado momento, com um ar de quem consegue penetrar nos recônditos da alma humana, diz: “como pode, preto ser de direita?!”, e fez uma careta de indignação. O racismo explícito contido nessa frase deveria ser o suficiente para ser inquirida duramente pela entrevistadora. Porém, como se trata de uma conversa entre pessoas – como diria minha amada mãe – da mesma laia, a outra só aquiesceu. E nos comentários, aplausos.

Óbvio que um preto, num país que insistiu no escravismo por quase 350 anos, pode e deve exercer sua liberdade de pensamento e ação – dentro da ordem constitucional e legal – desde o glorioso dia 13 de maio de 1888. E é imperativo que o faça, mesmo diante de pessoas que o tentem reduzir a um mero tema de suas diatribes ideológicas. Piovani, ao se indignar que um preto não se preste a ser o seu vassalo ideológico, nem pense como ela acha que ele deve pensar, projeta em toda uma população sua ignorância não só a respeito da liberdade de pensamento alheia, que não lhe interessa, mas sua completa falta de conhecimento do que ela chama de direita.

Não preciso me alongar aqui, pois o leitor habitual dessa coluna já me viu falar inúmeras vezes sobre isso. Há muitas maneiras de se classificar “direita” e “esquerda”: política, econômica e moralmente. O problema é partir de um argumento completamente desprovido de racionalidade, da mera reprodução da ignorância maniqueísta de outros, de que a “direita” é ruim e a “esquerda” é boa, pois, segundo se convenceram, esta se preocupa com os pobres, enquanto aquela só olha para os ricos.

Luana Piovani não aceita que um preto não se preste a ser o seu vassalo ideológico, nem pense como ela acha que ele deve pensar

Basta dizer que, durante os governos do PT, os bancos bateram e seguem batendo recordes de lucro em cima do endividamento dos pobres. E ainda que reduzíssemos a “direita” àquela que deseja manter o status quo, isso, por si só, não pode ser algo ruim, pois, não raras vezes, a “esquerda” foi o status quo – como agora, com Lula pela terceira vez sendo o presidente do país e pleiteando o quarto mandato. Manter o estado de coisas é algo que não pertence a um lado político específico, é algo inerente ao exercício do poder. A alternância democrática exige renúncia do ímpeto de continuidade, ainda que contestada pela realidade.

Às vezes, manter o status quo é o mal menor, é, como diz Michael Oakeshott, “preferir o familiar ao estranho, preferir o que já foi tentado a experimentar, o fato ao mistério, o concreto ao possível, o limitado ao infinito”. Muitas vezes, manter as coisas como estão é uma atitude sábia até que se encontre um horizonte melhor. Não se trata de inércia, mas de prudência, uma vez que nem todo progresso é virtuoso.

E não deveria ser escandalosa para ninguém a constatação de que, antes do advento do que se chama hoje de capitalismo, a pobreza era a regra. Como diz o economista Richard Ebeling:

“Ao longo da maior parte da história humana, o poder político, o privilégio econômico e o status social foram frutos das façanhas físicas da conquista e do controle. O saqueio da produção de outros e a escravização de outros eram os métodos usados naqueles tempos passados para tomar posse dos meios de obter riqueza e luxo. Era realmente o caso de ʻpoucosʼ poderem governar ʻmuitosʼ e viver do que os ʻmuitos produziamʼ, lançando mão para isso da ameaça da força física. Pouquíssimos de nós estaríamos dispostos a trocar de lugar com a vida curta e difícil dos aristocratas de poucas centenas de anos atrás.”

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As dificuldades de hoje não são nem sequer comparáveis com as de um pobre do século 15. Devemos, sim, buscar a superação de nossos males sociais atuais; e, claro, o capitalismo tem seus problemas. Mas não precisamos, para isso, sermos acometidos de cegueira histórica de um messianismo ideológico que julga ser capaz de construir um mundo melhor baseado única e exclusivamente na vontade.

Pode-se contestar o capitalismo como um sistema que pensa a liberdade em detrimento da igualdade; essa é uma discussão filosófica saudável. Mas fingir que o sistema de trocas voluntárias que ele sistematizou ao longo de pouco mais de 200 anos não foi responsável por tirar milhões de pessoas da miséria, só se você for propositalmente ignorante como Luana Piovani.

O outro vídeo poderia ser de alguma professora de Piovani, que lhe ensinou essas distorções simplórias sobre filosofia política que ela demonstra em seu comentário na entrevista. Mas não. É de uma garota de 20 anos, influenciadora de Divinópolis (MG), e que, fiquei sabendo há pouco, é pré-candidata a deputada federal pelo PT (surpreso, leitor?). Ana Elisa Santos é o nome dela. Num vídeo com pouco mais de oito minutos de duração e 120 mil visualizações, a moça se propôs a explicar o que é “direita” e “esquerda” e o resultado é algo indescritivelmente infantil. Repete todos os jargões possíveis de “esquerda é boa e direita é ruim”, chegando a dizer que, se você tem consciência, deveria estar do lado dela. Seu vídeo constrangedor não resistiria nem sequer a uma análise séria de um esquerdista honesto (?). Mas os quase 400 comentários louvando a moça me fazem perder a fé no Brasil.

E aqui volto ao início: nas redes sociais, as maiores atrocidades sempre encontram guarida na cegueira generalizada; e tal cegueira é, em grande medida, resultado de nosso irrisório horizonte intelectual e do contraditório desprezo ao conhecimento real que ele gera. E eu aqui, que nem gosto de ser chamado de “preto de direita”, sou obrigado a me defender de uma atriz que, há muito, nem sequer vive de sua arte, mas das polêmicas em que sua estupidez pretensiosa lhe permite entrar.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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