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Michael Eric Dyson, Michelle Goldberg, Jordan Peterson e Stephen Fry no Debate Munk sobre o politicamente correto, realizado em 2018.
Michael Eric Dyson, Michelle Goldberg, Jordan Peterson e Stephen Fry no Debate Munk sobre o politicamente correto, realizado em 2018.| Foto: Divulgação/Munk Debates

“Quando a realidade é manipulada para se encaixar numa visão particular, essa informação manipulada se torna um instrumento inapropriado para tomar decisões numa realidade que não perdoa nossas fantasias; por isso, devemos todos nos ajustar à realidade, pois ela não se ajustará a nós.” (Thomas Sowell, Os intelectuais e a sociedade)

O politicamente correto já foi tema de um artigo meu, aqui, nesta Gazeta do Povo, e naquela ocasião defini, com a ajuda de Michael William, autor de The genesis of political correctness: “o politicamente correto é o ʻmecanismo para a imposição da ideologia neomarxistaʼ. Ao contrário da ideologia marxista pura, baseada na crítica econômica, a ideologia neomarxista ʻé focada na cultura e em [pseudoconceitos como] raça, feminismo e direitos gays (sic) em particular. Também se opõe firmemente à nacionalidade, pelo menos no que diz respeito aos países ocidentais, e aos de língua inglesa em particularʼ”. Óbvio que nenhum defensor de tal ideologia concordaria com isso, como é possível constatar no recente lançamento da editora É Realizações: Politicamente Correto: os debates Munk, que é a transcrição do debate entre Jordan Peterson, Michelle Goldberg, Michael Eric Dyson e Stephen Fry, ocorrido em Toronto, no Canadá, em 2018. O livro traz, ainda, entrevistas individuais, pré e pós-debate, com os comentários sobre as expectativas e, depois, os resultados do debate.

Os “debates Munk” ocorrem desde 2008, promovidos pelo filantropo Peter Munk (falecido em 2018), e são famosos por trazerem sempre temas importantes para serem discutidos por vários pensadores célebres como Niall Ferguson, Steven Pinker, Christopher Hitchens etc., buscando uma verdadeira pluralização do debate público – algo raro em nossos dias. E nesse caso não foi diferente, pois conseguiram unir não só quatro pensadores de visões bastante distintas, como unir visões, em geral, contrárias, mas que se uniram sob o mesmo prisma – como as de Peterson e Fry. O tema partiu de uma resolução: O que você chama de “politicamente correto” eu chamo de “progresso”, e os debatedores discorreram, primeiro respondendo às perguntas do mediador, depois reagindo uns aos outros.

O politicamente correto nada tem a ver com a defesa de direitos, mas com um tipo de recurso retórico que visa a controlar a linguagem e as ações das pessoas

O psicólogo Jordan Peterson dispensa apresentações. Conhecido por sua oposição pública à lei canadense que tornou obrigatório o uso de pronomes neutros, atualmente tem quase 4 milhões de inscritos em seu canal no YouTube (no qual discorre sobre diversos assuntos com uma capacidade de comunicação invejável), um best-seller12 regras para a vida – com mais de 3 milhões de cópias vendidas, e figura entre os intelectuais mais influentes do mundo. Michelle Goldberg é escritora, colunista do New York Times e comentarista na MSNBC. Michael Eric Dyson é pastor batista, escritor, professor de Sociologia na Universidade Georgetown e apresentador, desde 2009, do programa The Michael Eric Dyson Show, na NPR. E, por último, o famoso ator, roteirista, comediante e apresentador de TV Stephen Fry, o Gordon Dietrich de V de Vingança. No debate, Peterson e Fry debateram contra o politicamente correto, enquanto Goldberg e Dyson defenderam a legitimidade da ideia (e da prática).

O livro é interessantíssimo, pois, para mim, é uma demonstração cabal de como o politicamente correto nada tem a ver com a defesa de direitos, mas com um tipo de recurso retórico que visa a controlar a linguagem e as ações das pessoas. Stephen Fry, que é um homem de esquerda, homossexual assumido, pontua bem em sua entrevista inicial: “acho que a esquerda, se ela quer conquistar tudo o que deveria, é uma questão de como se atinge o objetivo maior de tornar a sociedade mais tolerante, não de prescrever o uso da linguagem e forçar as pessoas a usar frases desconfortáveis e idiotas”. Peterson também se mostra bastante incomodado com o discurso castrador do politicamente correto, dizendo: “A coisa da liberdade de expressão é realmente interessante porque, na esquerda radical, não existe discussão sobre liberdade de expressão. Você não pode ter uma discussão sobre liberdade de expressão daquela posição ideológica porque lá não existe tal coisa. Tudo o que há são aqueles que manobram, por poder, em seus grupos respectivos, fazendo reivindicações que os beneficiam”.

Michelle Goldberg foi sincera ao dizer que “há várias coisas que caem sob a rubrica do politicamente correto que eu não considero progresso”, e tentou se colocar numa posição intermediária em relação ao tema, dizendo que, na verdade, em muitos casos, a única coisa que estão pedindo é por “um pouco mais de educação. [...] Algumas dessas mudanças parecem antinaturais para as pessoas; elas meio que ficam entaladas na garganta. As mudanças que funcionam e têm utilidade social serão incorporadas com perfeição à linguagem, e as que não funcionam vão desaparecer, assim como desapareceram as exigências mais exageradas de épocas anteriores de agitação política”. Ela usou como exemplo a mudança do termo índio para indígena, mas não sei o quanto isso, na prática, mudou mesmo. Muito provavelmente tem mais adesão nas redações de jornais que no dia a dia das pessoas.

Michael Eric Dyson é, sem sombra de dúvidas, o sujeito mais intragável e desonesto desse debate, pois não foi capaz, nem por um minuto, de manter-se no tema a ser debatido. O que fez foi desferir insultos e provocações ad hominem a torto e a direito, como se tivesse pensado: “essa é minha oportunidade de lacrar e não vou perdê-la por nada”. Negro, pastor e militante – não necessariamente nessa ordem –, da linha de Al Sharpton e Jesse Jackson, transformou sua participação num amontoado de acusações de privilégio e racismo; é difícil acompanhar os seus “argumentos” sem irritação. Em sua entrevista inicial, já dispara – leviandade que repete durante o debate –: “Quando ouço homens brancos bancando os snowflakes, choramingando e reclamando sobre privilégio – falarei disso hoje à noite, mas agora vou apenas citar aquela grande influência, Keyser Söze, que supostamente disse que a maior façanha do diabo foi fazer com que as pessoas acreditassem que ele não existe. Esse é o privilégio do homem branco”.

No entanto, é forçoso admitir que ele, de certo modo, acerta quando diz: “Não tenho certeza, mas quando eu consulto a história parece que foram os brancos que inventaram a raça. E agora que isso saiu do controle e vocês perderam a narrativa... agora vocês ficam chateados? Os negros não inventaram a raça. As mulheres não inventaram o gênero”. Durante os séculos de escravidão os negros foram impedidos de exercerem sua individualidade, sendo vistos como um grupo. Ele generaliza muito, mas tem um ponto. Durante o debate, entre um insulto generalizado e outro, Dyson dirá:

“As políticas identitárias têm sido encaradas como uma bête noire [ovelha negra] pela direita, e mesmo assim a direita não compreende o grau com que a identidade foi imposta sobre as pessoas negras e as pessoas mulatas [...] desde o começo, e sobre as mulheres e as pessoas trans. Vocês acham que eu quero fazer parte de um grupo que é constantemente abominado pelas pessoas na Starbucks? Estou cuidando dos meus assuntos de negro, andando pela rua, e empurram a identidade de grupo em cima de mim. Eles não dizem: ‘Ah, aha, lá vai um negro – muito inteligente, articulado, eloquente, capaz de investir em uma fúria retórica num piscar de olhos –, e a gente não devia interrogá-lo sobre a bona fide de seu status legal’. Não, eles me tratam como parte de um grupo, e o problema – que os nossos amigos não querem reconhecer – é que a hegemonia, a dominância daquele outro grupo tem sido tão perversa que negou para nós a oportunidade de existir como indivíduos”.

Tudo muito bonito e eloquente, mas que não tem nada a ver com o debate. E ainda, posteriormente, chamou, numa provocação absolutamente despropositada, Peterson de “homem branco perverso e raivoso”.

“A coisa da liberdade de expressão é realmente interessante porque, na esquerda radical, não existe discussão sobre liberdade de expressão. Você não pode ter uma discussão sobre liberdade de expressão daquela posição ideológica porque lá não existe tal coisa.”

Jordan Peterson, nos Debates Munk

Stephen Fry pondera e tenta colocar as coisas no lugar: “minha maior objeção ao politicamente correto não é que ele tenha tanto a ver com as coisas que desprezei e às quais me opus a vida inteira: pregação (com todo respeito), piedade, arrogância, caça às bruxas, delações, shaming, afirmações sem evidências, acusações, inquisição, censura. Não é por isso que estou incorrendo na ira dos meus companheiros liberais [o tradutor usou o termo original em inglês, liberal, que no Brasil tem o sentido de “progressista”, e não liberal clássico] ao me posicionar deste lado do debate. Minha real objeção é que acho que o politicamente correto não funciona”.

E Jordan Peterson coloca uma questão – que não é respondida durante todo debate:

“O que não vejo acontecendo na esquerda – e isso em consideração à esquerda sensível, porque existe tal coisa – é a mesma coisa sendo feita em relação à esquerda radical. Então, aqui vai uma questão aberta: se a diversidade, a inclusão e a igualdade não são o triunvirato que caracteriza a esquerda exagerada – e, a propósito, a igualdade definida não como igualdade de oportunidades, que é um objetivo absolutamente louvável, mas igualdade de resultados, que é como eles definem –, então como, exatamente, nós demarcaremos a esquerda extremista? O que nós fazemos?”

Ou seja, o que era para ser um debate sobre o conceito de politicamente correto e seus efeitos práticos na sociedade contemporânea se transformou numa discussão sobre raça e gênero. Peterson e Fry saíram visivelmente decepcionados; Dyson e Goldberg (mais Dyson), com a sensação de terem exposto e envergonhado um fascista – nesse caso, Peterson. Goldberg ainda, quase no final do debate, distorce descaradamente uma entrevista de Peterson ao site Vice, dizendo que ele teria defendido que “se as mulheres não querem que o ambiente de trabalho seja sexualizado, elas não devessem ter permissão de usar maquiagem”. O que ele disse, na verdade, é que a maquiagem é um evidente componente de sexualização (ele ainda pede ao entrevistador que encontre outra serventia ao batom vermelho que não a atração, mas ele não consegue). Óbvio que suas declarações são polêmicas, e ninguém gosta de admitir – pois é algo absolutamente natural em nossa cultura – que saltos altos servem para inclinar a região pélvica, deixando-a mais sensual e atrativa. Pois é, é duro de ouvir, mas é verdade.

Mas o livro é ótimo, com momentos argumentativos realmente interessantes, e vai agradar tanto pessoas à direita quanto à esquerda, pois, como em todo debate atual, o que as pessoas querem mesmo é somente marcar suas posições. Boa leitura!

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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