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Paulo Cruz

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A liberdade é um direito radical. Coluna semanal

Luto

Pastor Josias Isidoro: o legado de um homem de Deus e a vitória sobre o banal

pastor josias isidoro
O pastor Josias Isidoro e o colunista. (Foto: ChatGPT sobre foto de arquivo pessoal)

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“O adeus de Jesus traz um suave convite para compreendermos nossa vida como uma constante partida: daquilo que nos é familiar, para o que é eterno; daquilo que desfrutamos de forma temporária para aquilo que um dia desfrutaremos para sempre.” (Henri Nouwen)

Ontem, 14 de julho de 2026, as portas do Céu se abriram para receber um de seus mais dedicados filhos. O querido pastor Josias Isidoro, após uma longa batalha contra problemas renais e contra o câncer, descansou. Quem conhece alguém que passou por tratamento dessas duas doenças sabe o quão desafiadores são esses processos, para dizer o mínimo; e o pastor Josias passou pelos dois com a resignação de quem sabia estar nas mãos de Deus.

Josias Isidoro era primo de meu sogro – sobre o qual também escrevi, por ocasião de sua morte, em 2021 –, de uma família numerosa de pastores e músicos talentosíssimos ligados à música gospel brasileira, fundadores da lendária Banda Kadoshi. As famílias sempre foram muito unidas, sobretudo por conta das matriarcas, Lázara (mãe de meu sogro), Antônia (mãe de Josias) – já falecidas – e Maria, ainda viva, firme e forte aos 96 anos. Um povo festivo e unido numa fé inabalável. Os encontros são sempre animados numa mistura de carnaval e culto, com muita música e muita oração, tudo junto, ao mesmo tempo; celebrações de uma alegria piedosa e comovente.

Não nos reunimos com tanta regularidade quanto gostaríamos, moramos em lados opostos da cidade, cada um em suas respectivas igrejas, cuidando de suas vidas corridas. Mas sempre que nos encontramos, é festa. E Josias sempre foi um elemento marcante dessas reuniões: com sua voz potente, de timbre grave, e seu semblante sisudo, distribuía ordens e sorrisos com a mesma proporção. Sempre alinhado, com seus sapatos impecáveis, era aquela figura apolínea dos encontros apoteóticos de êxtase familiar.

O pastor Josias Isidoro não brincava com a Palavra e não se deixava levar por emocionalismos baratos. A mensagem era direta, sem vacilações

Na música, era uma espécie de versão gospel de Tim Maia – de quem era grande fã –, com uma musicalidade soul e vocal suingado. Em 2005, tive a alegria e a honra de gravar, junto com minha esposa, minha cunhada e os amigos Karyn Ebony e Adonias, os backing vocals de seu álbum Amor Sem Fim. Uma experiência marcante para mim. O álbum, vale dizer, ficou bem bonito; é possível ouvi-lo no YouTube.

Outra coisa que me liga profundamente ao pastor Josias foi a visita que ele fez a meu pai quando ele convalescia do câncer que também o levou, em 2012. Orou por ele e passamos um tempo precioso juntos. Atravessou a cidade para abençoar meu paizinho, que se despedia desse mundo.

Sua igreja, a Assembleia de Deus Novo Tempo, é uma família querida. Sempre que vamos lá, somos recebidos com amor e carinho. Reúne músicos de grande envergadura – dentre eles, seu filho, Josias Júnior, o Juninho, baterista virtuoso – e tem momentos de louvor sempre marcantes, conduzidos pelas ministrações sua filha, Joyce. A Biga sempre canta e, não raro, Josias me chamava para dar uma saudação à igreja. A visita sempre se estendia para almoço... e jantar. A última vez que estivemos lá, em maio, do culto da manhã fomos para a casa da Joyce e saímos de lá já era madrugada de segunda-feira. É quase sempre assim.

O pastor Josias era um homem simples teologicamente. Não tinha a envergadura intelectual dos grandes teólogos e pastores badalados. Mas note o leitor: quando digo “simples”, não quero dizer simplório. Sua pregação era firme, exortatória e ancorada nos princípios basilares do Evangelho. Sua firmeza era temperada com a piedade de quem sabia que não era senão um instrumento nas mãos de Deus. Não brincava com a Palavra e não se deixava levar por emocionalismos baratos. A mensagem era direta, sem vacilações, sempre pronta a corrigir os que tropeçam e disposta a acolher os feridos. Sem floreios e filosofias, era, no melhor sentido do termo, querigmática.

Isso significa muito nos tempos atuais, em que evangélicos andam metidos em discussões políticas e parecem ter se esquecido em quem devem confiar. Tempos em que pastores, de um lado, se tornaram agentes partidários, propagadores de ideologias materialistas; e, de outro, apóstatas e adeptos de um messianismo imanente (sobre isso, há uma série de três artigos meus, iniciados aqui). Tempos em que fieis se digladiam nas redes sociais em defesa de políticos, como se destes é que viesse o seu socorro; tempos em que igrejas se tornaram sinagogas de Satanás (Ap 2,9), palcos de negociatas e disputas terrenas; tempos em que pregadores usam de todo o seu poder de persuasão, de sua vocação, para induzir seu rebanho inteiro ao erro; tempos em que a reação ao identitarismo tem se convertido em um reacionarismo ímpio.

Nestes tempos controversos, em que evangélicos ganharam projeção nacional e seu número expressivo de fieis, somados à sua relevância política, se tornaram temas de estudos acadêmicos e discussões em diretórios partidários, manter os olhos no alvo, que é Cristo, não é fácil. Nestes tempos em que os ataques à Igreja têm se multiplicado, ao mesmo tempo em que setores progressistas tentam, a todo custo, converter a si esse público, é fácil sucumbir à tensão dos acontecimentos.

É nessas horas que pastores como Josias Isidoro fazem a diferença. E não estou aqui falando de suas preferências políticas, que pouco conheci e que, em muitos de nossos encontros, nem sequer eram pauta. Estou falando de sua pregação e de seu compromisso com o Evangelho de Cristo. Estou falando de um homem que soube combater o bom combate. Que, em meio a muitas dificuldades que sua comunidade passava, sempre se manteve firme no propósito de manter a chama das Boas Novas viva, tremulando no templo sem luxo na região de Interlagos, zona sul de São Paulo.

Em meio a muitas dificuldades que sua comunidade passava, o pastor Josias Isidoro sempre se manteve firme no propósito de manter a chama das Boas Novas viva

Henri Nouwen (sobre o qual também já escrevi, aqui) escreveu uma das páginas mais comoventes sobre a morte que li em minha vida. Em sua obra Transforma meu pranto em dança, o capítulo final é um convite para compreendermos a morte não como um fim, mas como a consumação da vontade de Deus em nós. Quase ao final, ele afirma:

“Não somos feitos para amar coisas imortais. Só o que é insubstituível, único e mortal pode tocar nossa mais profunda sensibilidade humana e ser uma fonte de esperança e consolação. Deus só se tornou passível de ser amado quando se tornou mortal. Tornou-se nosso Salvador porque a Sua mortalidade não foi fatal, mas, sim, o caminho da esperança. Temos visto muitos partirem do nosso meio. Milhares se vão: grandes líderes, amigos queridos, e muitos outros desconhecidos, mas que são parte de nossa vida. Nós os amamos porque não podem ser substituídos, pois eram humanos. Talvez precisemos começar a ver, através do adeus de Cristo, que mesmo os nossos dias podem ser dias de esperança, abrindo caminho para o Espírito Santo vir, abrindo as portas fechadas de nossos medos e conduzindo-nos à plena liberdade e à plena verdade.”

É nessa esperança que quero depositar toda a tristeza que estou sentindo pela morte do amado pastor Josias Isidoro. A certeza cristã de que não só ele está com Deus, mas também de que seu legado se perpetuará através de todos aqueles que conviveram com ele, aprenderam com ele, foram tocados pelo seu ministério e poderão testemunhar que toda a banalização da mensagem do Evangelho só pode ser vencida por quem, na simplicidade e na submissão, se entende conduzido pelas mãos poderosas do Criador. Que sua querida esposa, pastora Mera Isidoro, e seus filhos Juninho, Joyce e Juliana sejam consolados. Que sua comunidade, a ADNT, permaneça firme.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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