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Paulo Cruz

Paulo Cruz

A liberdade é um direito radical. Coluna semanal

Patriotismo

7 a 1 foi pouco: o futebol brasileiro perdeu a alma, e nós também

futebol brasileiro
Neymar discute com o goleiro norueguês Nyland nos minutos finais da partida entre Brasil e Noruega, na Copa do Mundo de 2026. (Foto: Will Oliver/EFE/EPA)

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“O modelo mental não é sobre buscar um resultado – é mais sobre o processo de chegar a esse resultado. É sobre a jornada e a abordagem. É um estilo de vida. Eu realmente acho importante, em todas as empreitadas, ter essa mentalidade.” (Kobe Bryant, sobre sua Mamba Mentality)

No fatídico 8 de julho de 2014, estávamos na casa de minha mãe, eu e meu irmão mais velho – um tanto mais fã de futebol do que eu –, assistindo à derrota da seleção brasileira para a Alemanha. O jogo foi, de fato, dantesco. Mas não estávamos tristes; muito pelo contrário. À época, nossa desilusão com o futebol brasileiro já era patente. Embora não imaginássemos uma débacle tão peremptória, sabíamos que aquele time medíocre não iria longe.

Nós, que vimos a conquista do tetra e do penta, também vimos uma mudança acontecer no que – e, daqui para baixo, tudo o que escreverei é minha percepção pessoal – penso ser a mentalidade do futebol brasileiro. Parece-me que, há muito, os jogadores perderam a conexão com o país, com aquele espírito patriótico absolutamente necessário a um grupo esportivo que se pretende competitivo. Não se trata de falta de treinos, nem de entrosamento, tampouco perda de habilidade; ninguém é convocado sem que tenha mostrado algum destaque nos clubes em que joga.

Somos um país sem alma, sem amor nacional – no melhor sentido do termo. Somos uma nação dividida, fraturada, desesperançosa e que beira a um contraditório messianismo niilista

Trata-se de algo mais profundo, não de ordem física ou emocional: o futebol brasileiro perdeu a alma. As explicações de ordem financeira – são milionários e, por isso, não sentem necessidade de vencer pela seleção –, ou de que o futebol brasileiro perdeu a essência e agora emula o futebol europeu, sinceramente não me convencem. Que alguns sejam vaidosos, ostentadores, vulgares e que, tranquilamente, façam propaganda de bets que desgraçam a vida de milhões de brasileiros, para mim, não é a causa, mas o efeito de sua vida vazia de sentido, que se reflete em seu futebol insosso na hora de defenderem o país.

O filósofo Alasdair MacIntyre escreveu um ensaio chamado O patriotismo é uma virtude? Sua resposta à própria pergunta é afirmativa, no sentido de que o patriotismo pode constituir uma virtude moral quando nasce de uma comunidade histórica real e de vínculos que não se reduzem ao interesse recíproco. Segundo ele, apagamos ou perdemos uma dimensão fundamental da vida moral se não compreendermos “a narrativa vivida de minha [nossa] própria vida individual como inserida na história de meu [nosso] país”. É preciso que saibamos o que devemos aos outros e o que os outros nos devem, e compreendamos que “a história das comunidades das quais faço parte é, nessa perspectiva, uma única e mesma coisa”. E nos traz um insight valioso que, para a circunstância específica que trato nesse artigo, é inescapável:

“Vale a pena enfatizar que uma consequência disso é que o patriotismo, no sentido em que o compreendo neste ensaio, só é possível em certos tipos de comunidade nacional e sob determinadas condições. Uma comunidade nacional que, por exemplo, renegasse sistematicamente sua verdadeira história ou a substituísse por uma história em grande parte fictícia, ou uma comunidade nacional em que os vínculos derivados da história deixassem de constituir os verdadeiros laços da comunidade – tendo sido substituídos, por exemplo, por vínculos de interesse recíproco – seria uma comunidade em relação à qual o patriotismo seria, de qualquer ponto de vista, uma atitude irracional. Pelas mesmas razões pelas quais uma família cujos membros passassem a considerar sua pertença a ela como regulada apenas pelo interesse recíproco deixaria de ser uma família no sentido tradicional, também uma nação cujos membros adotassem uma atitude semelhante deixaria de ser verdadeiramente uma nação. Isso forneceria razões suficientes para concluir que o projeto que constituía essa nação simplesmente entrou em colapso.”

É exatamente isso que me parece ter ocorrido com os jogadores da Seleção Canarinho. E, nesse sentido, o leitor já deve ter percebido que não falo apenas da seleção, mas que ela é o espelho da própria sociedade. Não são somente os jogadores brasileiros que perderam a alma; nós a perdemos. Somos um país sem alma, sem amor nacional – no melhor sentido do termo. Somos uma nação dividida, fraturada, desesperançosa e que beira a um contraditório messianismo niilista. Ou seja, a aposta num salvador da pátria é só um jogo de cena.

Um exemplo é que tudo, absolutamente tudo, passou a ser visto em termos ideológicos e, nesse contexto, a seleção brasileira deixa de funcionar como um raro espaço de unidade nacional e passa a reproduzir nossas divisões.

A Copa de 2014, realizada no Brasil, já ocorreu sob um ambiente de crescente tensão política. As manifestações de 2013 ainda ecoavam, o país encontrava-se profundamente dividido em torno do desastroso governo Dilma Rousseff e a própria seleção começava a ser arrastada para esse clima de antagonismo. Hoje, esse processo parece ter chegado ao ápice. O jogador Neymar parece estar no centro da celeuma ao tornar pública sua opção política, tendo virado o “jogador bolsonarista”. Com isso, passou a ser odiado por metade do país, que, consequentemente, decidiu torcer contra a seleção. Numa frase espirituosa do meu filho, poucos dias antes da Copa – que tem um fundo de verdade: “só torcerá pela seleção quem gosta do Neymar”. E o mais engraçado foi ver esquerdistas torcerem por critérios decoloniais: seleções africanas tiveram a predileção daqueles que adoram sinalizar virtude com uma performática consciência social.

As pessoas estão definindo seus afetos de acordo com sua posição política, o que é um absurdo completo

Para mim, isso ficou provado após o vexame do último domingo, na eliminação para a Noruega. Ver Neymar – que, ao entrar em campo, estragara o esquema tático do time, tornando-o ainda mais vulnerável – arrumando briga e discutindo com o goleiro norueguês, antes de fazer um gol de pênalti e comemorá-lo com um injustificável deboche, enquanto estava sendo eliminado da competição, foi o início de uma evidência cujo veredito veio através das pessoas com as quais tenho algum contato e que sei serem simpáticas a Bolsonaro. Nas redes sociais elas simplesmente floodaram as postagens sobre o jogo dizendo que Neymar fora o único que fizera alguma coisa, e agradecendo a ele por ser o único jogador verdadeiramente empenhado. Esquerdistas, enquanto isso, diziam que Neymar jamais fizera nada de relevante pela seleção. Um notório exagero nos dois sentidos.

E minha avaliação não carrega um juízo de valor sobre Bolsonaro, mas sobre como a polarização política se espalhou por absolutamente tudo nesse país, denotando nossa total aridez espiritual. As pessoas estão definindo seus afetos de acordo com sua posição política, o que é um absurdo completo.

Temos um longo caminho para recuperar nosso verdadeiro senso de nação, de um povo que ama seu país e que deseja, verdadeiramente, vê-lo crescer e prosperar, estendendo os braços para os pobres ao mesmo tempo que dá ampla liberdade aos estratos médios e apoia aqueles que, por sua habilidade e diligência, tornam-se abastados e movimentam a economia do país. E, claro, que seja duro, duríssimo com corruptos e criminosos. Só depois disso, creio eu, teremos alguma chance de nos tornarmos campeões novamente.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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