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Foto: Mark Ralston/AFP
Foto: Mark Ralston/AFP| Foto:

Melhor é o bom nome do que o melhor unguento, e o dia da morte do que o dia do nascimento.
Melhor é ir à casa onde há luto do que ir a casa onde há banquete; porque naquela se vê o fim de todos os homens, e os vivos o aplicam ao seu coração.
Melhor é a mágoa do que o riso, porque a tristeza do rosto torna melhor o coração.
O coração dos sábios está na casa do luto, mas o coração dos tolos na casa da alegria.
Melhor é ouvir a repreensão do sábio do que ouvir alguém a canção dos tolos. (Eclesiastes 7,1-5)

No dia 16 de agosto deste ano o mundo perdeu uma de suas maiores referências musicais do século 20: Aretha Louise Franklin, a Rainha do Soul.

Aretha nasceu em 25 de março de 1942, e iniciou sua carreira cantando, evidentemente, na igreja de seu pai, o famoso pastor C. L. Franklin – o homem da “voz de um milhão de dólares”. Apesar das controvérsias de sua vida pessoal – como o envolvimento com uma garota de 12 anos, com quem teve um filho –, reverendo Franklin foi um notável pregador e ativista pelos direitos civis. Foi ele que impulsionou a carreira da filha, Aretha, quando ela tinha 12 anos.

Aretha Franklin teve uma carreira absolutamente brilhante, que lhe garantiu 18 Grammys (de 26 indicações), bem como os prêmios especiais Grammy Legend Award (em 1991) e o Grammy Lifetime Achievement Award (em 1994). Teve seu nome inscrito na Calçada da Fama de Hollywood em 1979 e foi a primeira mulher a ser inserida no Hall da Fama do Rock and Roll, em 1987. Foi honrada com o Kennedy Center Honoree (1994), a National Medal of Arts (1999) e com a Presidential Medal of Freedom (2005), dentre muitos outros prêmios.

Sua discografia, que inclui mais de 30 álbuns, é um vasto e maravilhoso mundo de musicalidade e excelência vocal. Eu, particularmente, amo o disco ao vivo Amazing Grace, gravado em 1972, na New Temple Missionary Baptist Church, em Los Angeles, com o ícone da música gospel James Cleveland e o Southern California Community Choir. Um clássico que lhe rendeu um Grammy de melhor performance gospel.

Mas este artigo, caríssimo leitor, tem outra intenção. Na verdade quero falar, brevemente, sobre o funeral-show (um costume americano) de Aretha, que ocorreu no dia 31 de agosto.

Sim, foi um show (quem tiver paciência, está todinho aqui e tem 8 horas de duração), com vários artistas se apresentando, pastores pregando e amigos testemunhando sua relação com a inigualável Aretha Franklin. Na linha de frente, no palco, um time para lá de controverso: Louis Farrakhan, líder da Nação do Islã – islamismo negro e racista radical, que crê que os homens brancos são demônios criados em laboratório (se não acredita, leia a autobiografia de Malcolm X ou pesquise por Yacub); Reverendo Al Sharpton, o apóstolo dos justiceiros raciais, que se notabilizou por ter apoiado uma falsa e midiática acusação de estupro, em 1988, feita por Tawana Brawley, uma garota com 16 anos à época, contra um jovem promotor branco. Sharpton também foi acusado de ter se tornado informante do FBI, após ser filmado negociando drogas, em 1983, mas o caso foi arquivado. Reverendo Jesse Jackson, que assumiu o comando do movimento pelos direitos civis após a morte de Martin Luther King Jr. e se tornou um dos maiores cabos eleitorais do Partido Democrata (que criou a Ku Klux Klan e as leis Jim Crow); e Bill Clinton, o ex-presidente americano cujas credenciais podem ser dadas por Monica Lewinsky. Detalhe: Aretha era filiada ao Partido Democrata.

Tudo ia muito bem até que o primeiro fato pitoresco aconteceu: Ariana Grande, uma das cantoras convidadas para homenagear Aretha, entra no palco usando um minivestido, atraindo os olhares atentos de Sharpton e, como não poderia deixa de ser, Clinton. A moça estava vestida para matar. Foi criticada na internet – por isso e por ter levado o noivo, que não havia sido convidado –, mas a família de Aretha não se pronunciou a respeito. O outro fato pitoresco se deu logo em seguida, quando o bispo pentecostal Charles H. Ellis III agarrou Ariana e, sob o olhar absolutamente desconcertado da moça, colocou (por detrás, ao abraçá-la) as mãos na região de seu seio e fez uma brincadeira sem graça; depois pediu desculpas. A família de Aretha não se pronunciou sobre isso também.

Mas aí veio o escândalo, o inconcebível, o inacreditável, o vergonhoso – ou, nas palavras dos familiares, que rapidamente se pronunciaram em repúdio, o “ofensivo e desagradável”: um sermão conservador, pregado corajosamente pelo Reverendo Jasper Williams Jr., da Salem Bible Church, velho conhecido da família, amigo de infância de Aretha, que, inclusive, pregou no funeral do Reverendo Franklin, em 1984.

Reverendo Williams subiu o tom e sacudiu toda aquela celebração democrata – com Bill e Hillary posando para fotos e Al Sharpton atacando o presidente Donald Trump – com uma profunda reflexão que agradou a alguns e desagradou a muitos, principalmente os artistas e políticos. Pregou um sermão criticando o chamado black-on-black crime e a quantidade catastrófica de mães solteiras entre as mulheres negras. Atualmente, 75% das crianças negras americanas crescem num lar sem o pai presente, e 93% dos negros assassinados nos Estados Unidos são mortos por outros negros. Em 2015, 6 mil negros foram mortos por outros negros, enquanto “somente” 258 foram mortos pela polícia. Disse o Reverendo Williams: “Um estudo realizado recentemente, pelo Instituto Tuskegee, diz que a Ku Klux Klan matou 3.446 negros em 86 anos. Foram muitos negros mortos nesse período. Mas os negros matam esse número de negros não em um ano, não em 86 anos, mas a cada seis meses (…) E me aflige quando a polícia mata um de nós, nos dispomos a protestar, marchar, destruir propriedades de inocentes. Saquemos, roubamos o que podemos. Mas, quando matamos uma centena dos nossos, ninguém diz nada”.

Reverendo Willliams mandou a real em seu sermão, uma verdadeira homenagem à sua amiga de infância. Ele começou dizendo que Deus havia escolhido o título de Rainha do Soul para Aretha Franklin desde a fundação do mundo; depois deu uma explicação do que significava o termo soul (alma) music, derivada da cultura musical negra americana; depois passou a falar da alma propriamente dita; lembrou que não importa o que você fizer nessa vida se, ao fim de seus dias, sua alma não estiver salva; e disse que o título de Rainha do Soul está totalmente de acordo com a própria vida de Aretha, que dedicou toda sua alma (vida) à comunidade negra. E então chegou ao cerne da coisa: disse que a América Negra está perdendo sua alma. Comparou o abandono de crianças pelos pais a uma espécie de “aborto após o nascimento”; que as mães solteiras não têm condições de ensinar os filhos a se tornarem homens – o rapper Tupac Shakur também diz isso em sua autobiografia. Na comunidade negra americana, altamente violenta e influenciada pelo crime, é muito difícil criar um filho sem o pai.

Franklin também deu uma bela alfinetada no grupo racista Black Lives Matter (“Vidas Negras Importam”): “vidas negras não devem importar até que negros comecem a respeitar vidas negras e parem de matar a si próprios”. E, com isso, apresentou a segunda palavra-chave (a primeira é alma, evidentemente) de seu sermão: respeito – evocando a música que catapultou Aretha para o estrelato, Respect.

Os jornais veicularam que Stevie Wonder, que se apresentou após o sermão do Reverendo Williams, tinha dado a ele uma resposta, quando disse que o necessário para o mundo atual é o amor, e finalizou dizendo: “vidas negras importam porque todas as vidas importam”. No entanto, em 2017, numa Conferência pela Paz, Stevie Wonder disse exatamente a mesma coisa que o Reverendo Williams: “vocês não podem dizer ‘vidas negras importam’, e então saírem matando uns aos outros”.

O Reverendo Williams não disse nada que os negros americanos já não saibam. O problema é que disse isso para um bando de democratas progressistas, que insistem em jogar a culpa dos problemas que os negros enfrentam hoje nos outros – principalmente em Trump. Que adoram falar em encarceramento em massa (há um documentário ridículo, de Ava DuVernay, no Netflix, sobre isso), quando os negros cometem 50% do total dos crimes sendo somente 13 % da população.

Spike Lee, o famoso cineasta (sobre o qual já falei neste artigo), fez um filme, recentemente, muito interessante, levantando a questão sobre os crimes de negros contra negros. Apesar de ser eleitor e defensor ferrenho do Partido Democrata – o filme, inclusive, faz críticas ao Dr. Ben Carson –, Lee não foge do problema, pois sabe que ele é real. O filme se chama Chi-Raq(junção de Chicago com Iraque), apelido da cidade de Chicago, cuja taxa de crimes violentos é maior que a média do país todo. Chicago tem 59 gangues ativas, mais de 2 mil facções, totalizando mais de 100 mil membros! O filme inicia com dados assustadores (não para nós, brasileiros, e nossos 63 mil assassinatos anuais):

De 2001 até hoje, 2.349 americanos foram mortos na guerra do Afeganistão; de 2003 a 2011, 4.424 americanos foram mortos na guerra do Iraque; de 2001 a 2015, 7.356 foram assassinados em Chicago. Os homicídios em Chicago, Illinois, superaram o número de mortes das forças especiais americanas no Iraque. Mais de 400 crianças em idade escolar foram mortas esse ano. Na semana de 4 de julho de 2015, dia da independência americana, 55 pessoas foram alvejadas e feridas, e dez morreram – incluindo um garoto de 7 anos. Onde estava sua liberdade? Onde estava seu direito à vida, à liberdade e à procura da felicidade? Esses e vários números sobre homicídios são cometidos por jovens negros contra jovens negros. Que os céus nos ajudem.

Chi-Raq é uma releitura muito bem realizada de Lisístrata: a greve do sexo, comédia clássica de Aristófanes, escrita no século IV a.C.. As mulheres de Chicago – assim como as gregas e troianas da peça, e, mais recentemente e na vida real, as mulheres da Libéria (África), lideradas por Leymah Roberta Gbowee, que recebeu o Nobel da Paz pelo feito em 2011 – decidem que não farão sexo com seus companheiros enquanto as gangues não fizerem um acordo de paz. O filme não é nenhuma obra-prima, mas trata de um assunto sério e é divertido, principalmente pelas referências e pelos diálogos, construídos em versos bastante sonoros que dão um clima teatral à trama. O filme ainda conta com Wesley Snipes, Samuel L. Jackson e Jeniffer Hudson.

Eric Voegelin, filósofo que a quem sempre recorro para analisar fenômenos ideológicos do século 20, afirma, em seu excepcional livro Hitler e os alemães, utilizando a frase do poeta John Donne – “nenhum homem é uma ilha” –, que, na época da Segunda Guerra Mundial, as igrejas alemãs renunciaram à sua função profética e se abstiveram em relação ao nazismo – e, em alguns casos, se aliaram a ele. Diz Voegelin:

Esta humanidade elementar – o que diz respeito a meu vizinho diz respeito também a mim – estava faltando. Num sentido mais largo, estava faltando em todo o mundo ocidental e, no que se tornou um sentido muito criminoso e específico, na Alemanha, especialmente nas igrejas, que usaram sua posição teológica para renunciar à humanidade.

E acrescenta:

Uma vez que uma representação política de oposição ao regime já não existia depois de este ter chegado ao poder, a Igreja foi deixada como a representação da ordem espiritual do homem. Era um remanescente da representação do homem contra o nacional-socialismo e, a partir dessa situação estranha, coube a ela o papel de defender e manter os interesses e a dignidade do homem. Entretanto, a Igreja não podia satisfazer essas demandas. As Igrejas não foram capazes de defender a dignidade do homem – não apenas de defendê-la com sucesso, mas sequer de defendê-la – porque eles próprios, leigos e clérigos, também foram participantes dessa corrupção, mesmo que num grau menor que o dos próprios nacional-socialistas. A Igreja foi incapaz de lidar com a situação de uma sociedade desumanizada porque a perda de realidade já acontecera dentro da própria Igreja.

Em comparação à cegueira da igreja em relação ao nazismo, também ocorre o mesmo em relação ao seu fenômeno irmão, o comunismo (e seus derivados). A igreja se encontra igualmente incapacitada para resistir – e pior: em muitos casos se aliou aos ideais socialistas.

O sermão do Reverendo Jasper Williams, chamando o indivíduo à responsabilidade, clamando pela união das famílias (da família tradicional, diga-se), pelo retorno a Deus e à vida espiritual sadia, evidentemente não faria sucesso num público que vota maciçamente no Partido Democrata, secularizado e anti-cristão. Mas ele foi corajoso e profético. Não ligou para o que as pessoas iriam pensar e falou aquilo que mais importa no momento, e disse estar seguro de que Aretha não veria problema, pois também tinha essas preocupações. Numa entrevista coletiva que deu após o ocorrido, disse: “Eu não acho que devemos, continuamente, ficar sentados esperando que alguém nos ajude. Acho que nosso papel como raça deve vir de dentro [de nossa comunidade]. Devemos fazer por nós mesmos. Ninguém pode colocar valores dentro de uma pessoa. Não podemos pagar o governo para que ele nos mostre os valores pelos quais devemos viver. Nossos valores têm de vir de dentro”.

E, em relação à reação das pessoas (e da família), ele disse: “Não estou surpreso. Tenho pregado por 68 anos, e tive tantas surpresas na vida que cheguei ao ponto de não me surpreender com mais nada. O que me magoa é ver pessoas fazendo chacota, criando dificuldades e tentando colocar na minha boca palavras que eu não disse. Isso me machuca mais do que qualquer outra coisa”.

Não sei da vida do Reverendo Jasper Williams, e pode ser até que ele tenha lá seu calcanhar de Aquiles. No entanto, nesse caso, contra todas as difamações que vem sofrendo – inclusive da família, que diz que ele não homenageou Aretha –, creio que ele foi profético e certeiro em suas palavras, e sua homenagem a Aretha Franklin é exatamente a expressão daquilo que ele traduziu em seu sermão: o negro americano precisa voltar a respeitar (R-E-S-P-E-C-T!) a si mesmo e entregar sua alma (soul) a Deus.

Creio que precisemos fazer o mesmo.

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