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Paulo Filho

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Novo campo de batalha

A guerra híbrida da Rússia contra a Europa: a ameaça que cresce na zona cinzenta

A guerra híbrida russa testa a Europa: responder pouco incentiva Moscou; reagir demais pode provocar a escalada que todos querem evitar. (Foto: VYACHESLAV PROKOFYEV/SPUTNIK/KREMLIN POOL/EFE)

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No dia 1º de setembro, os ministros das Relações Exteriores e do Interior da Alemanha reuniram-se com a imprensa para informar que o governo do país está convencido de que a Rússia está por trás das tentativas de ataques com drones ao aeroporto de Leipzig, ocorridas no último dia 4 de agosto. Segundo investigações da polícia alemã, dois homens russos de dupla cidadania, um também bielorrusso e outro também letão, seriam responsáveis pela presença de drones com explosivos e detonadores na área do aeroporto, que serve como importante centro de distribuição de sistemas e materiais de emprego militar para a Ucrânia. O atentado, que teria como alvo uma aeronave Antonov An-124, somente não ocorreu por falha do detonador.

Episódios como esse entram na categoria de atos de guerra híbrida e estão se multiplicando na Alemanha e em outros países europeus, levando as autoridades a denunciarem uma crescente campanha russa com o objetivo de testar as reações europeias.

As ações da chamada guerra híbrida são aquelas que acontecem na “zona cinza” dos conflitos. Ou seja, permanecem abaixo do limiar da violência aberta e da guerra, de forma a evitar que a ação seja percebida pelo lado atacado como suficientemente grave para provocar uma reação militar, ao mesmo tempo em que preserva a ambiguidade e o espaço necessário aos autores para sustentarem a negação da responsabilidade pela ação. Entre os instrumentos disponíveis para a guerra híbrida estão a propaganda, a desinformação, as ações cibernéticas, a sabotagem, a subversão, a interferência política e ações econômicas, financeiras, tecnológicas, jurídicas e informacionais.

Os alemães já listam 160 possíveis ataques a infraestruturas críticas no país que podem ser incluídos na categoria de guerra híbrida, somente neste ano. São ações que incluem os recentes ataques a estações de fornecimento de energia em Brandemburgo e Colônia, o ataque a uma estação ferroviária em Augsburg e a descoberta de artefatos incendiários nas proximidades de empresas do setor de defesa em Munique, por exemplo.

As ações não se restringem à Alemanha. A Dinamarca acusa a Rússia de recrutar cidadãos de seu país para perpetrarem atentados contra indústrias de defesa que, de alguma forma, participam do esforço de guerra ucraniano. Segundo a denúncia, pessoas estariam sendo contatadas por canais do Telegram e pagas em criptomoedas, o que dificulta em muito a comprovação da responsabilidade russa no planejamento das ações.

Na Romênia, um caça F-16 destruiu um drone naval russo nas proximidades de uma plataforma de extração de gás natural, no Mar Negro, o que levou a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, a alertar que a Rússia empreendia uma crescente campanha de guerra híbrida, com o objetivo de inquietar os cidadãos europeus e dividir os Estados da União Europeia.

Na Polônia, o ministro das Relações Exteriores, Radoslaw Sikorski, afirmou que a guerra híbrida em curso da Rússia na Europa envolve “esquadrões da morte, ataques incendiários, sabotagem de infraestrutura e repetidas violações do espaço aéreo por drones e mísseis”.

A Rússia, cumprindo o previsto na própria definição teórica de guerra híbrida, nega todas as acusações. Em relação ao incidente no aeroporto de Leipzig, o presidente Putin acusou o chanceler da Alemanha de tentar distrair os eleitores antes da importante votação regional ocorrida no último fim de semana na Saxônia-Anhalt (onde o partido AfD, simpático à Rússia, saiu vitorioso). O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, por sua vez, declarou a jornalistas que nenhuma prova foi apresentada e acusou Berlim de "seguir por um caminho de maior escalada" nas relações entre os dois países.

A relevância desses episódios não está propriamente nos efeitos produzidos sobre os alvos. Uma tentativa malsucedida de sabotagem contra uma aeronave, um incêndio em uma estação ferroviária ou uma tentativa de sabotagem contra uma indústria de defesa são, isoladamente, eventos de importância limitada. Essa é justamente a ideia, uma vez que, como já vimos, ações de guerra híbrida devem manter o conflito abaixo do limiar da guerra justamente para não provocar uma reação de alta intensidade por parte dos atacados. Somados, entretanto, esses episódios obrigam os governos europeus a mobilizar recursos, aumentar a proteção de suas infraestruturas críticas e conviver com uma permanente sensação de insegurança.

Assim, na avaliação dos europeus, Moscou testa os seus limites. Cada ação mostra para os russos até que ponto se pode ir sem provocar uma resposta mais contundente

Ao mesmo tempo, ao atacar alvos relacionados ao apoio europeu à Ucrânia, a Rússia torna mais oneroso esse apoio. Isso, aliado à crescente insegurança que as ações russas causam nos cidadãos europeus, pode criar nas populações a percepção de que esse apoio embute riscos cada vez maiores, o que pode levar a uma diminuição do apoio europeu à Ucrânia.

Dessa forma, o dilema dos europeus é calibrar a resposta. Uma reação insuficiente pode convencer Moscou de que existe espaço para ações cada vez mais ousadas. Uma reação excessiva, por outro lado, pode desencadear a escalada que todos procuram evitar. Trata-se de responder a um desafio difícil: como dissuadir um adversário que deliberadamente procura atuar na zona cinzenta existente entre a paz e a guerra.

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