
Ouça este conteúdo
Na semana passada, em Singapura, ocorreu a 23ª edição do Diálogo de Shangri-La, um importante fórum internacional de discussão de Segurança e Defesa, com foco na região do Indo-Pacífico, promovido pelo Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS).
Todos os anos, estrategistas de todo o mundo, militares e civis, prestam atenção ao que é dito e discutido nesse evento, buscando compreender melhor a conjuntura estratégica internacional. No evento deste ano, dois discursos, em especial, chamaram a minha atenção: o primeiro, proferido pelo Ministro da Defesa de Singapura, Chan Chun Sing, e o segundo, feito pelo Secretário da Guerra dos EUA, Pete Hegseth.
Chan construiu um argumento interessante, afirmando que a guerra havia evoluído em termos de “três aléns”: “além da geografia”, “além do poderio militar” e “além do aqui e agora”.
“Além da geografia”, para o Ministro da Defesa da pequena ilha do sudeste asiático, destaca o fato de que a hiperconectividade econômica, informacional e cibernética faz com que conflitos extrapolem em muito as suas regiões. Um conflito na Europa ou no Oriente Médio — ele exemplificou fazendo clara referência à Ucrânia e ao Irã — perturba as cadeias globais de abastecimento e produção muito além dessas regiões.
No campo militar, o “além do poderio militar” relembra que os conflitos utilizam os múltiplos campos do poder, para além das capacidades militares. Coerção econômica, guerra de narrativas e guerra jurídica são exemplos.
Ao se referir ao “além do aqui e agora”, Chan destaca que as guerras de hoje criam parâmetros para os conflitos futuros. Em outras palavras, os atores não estão lutando apenas para vencer uma disputa presente, mas para definir as condições sob as quais as futuras disputas ocorrerão. Isso significa que as decisões tomadas hoje sobre IA, ciberespaço, infraestrutura digital, sistemas autônomos, cabos submarinos ou computação quântica definirão a distribuição de poder internacional das próximas décadas.
Para enfrentar esse momento, Chan defende três ideias. A primeira é a defesa dos princípios, das instituições e das normas no relacionamento entre os Estados. A segunda advoga a criação de mais parcerias entre os Estados, focadas em temas específicos para o enfrentamento dos novos desafios. A terceira é prestar atenção aos problemas internos. O ministro destaca que, quanto mais forte for a confiança interna das populações nos seus próprios países e quanto mais coesão houver, melhor posicionadas estarão as nações para trabalhar umas com as outras.
Hegseth, por sua vez, apresentou uma visão bastante diferente. Do seu ponto de vista, o principal desafio estratégico na região do Indo-Pacífico é impedir que surja uma potência que se torne hegemônica na região, alterando o equilíbrio de poder hoje existente. Não é difícil perceber que ele está se referindo à China.
O norte-americano afirma que os EUA perseguem uma estratégia baseada na “paz pela força”, sustentada por capacidades militares robustas, pelo fortalecimento da dissuasão ao longo da chamada “Primeira Cadeia de Ilhas” — o que inclui Taiwan — e por maiores investimentos em defesa por parte dos aliados dos EUA.
Assim, o discurso de Pete Hegseth foi em uma direção quase diametralmente oposta à de Chan Chun Sing, ao oferecer respostas distintas para os mesmos problemas. Enquanto Chan enxerga as regras internacionais como condição de sobrevivência, especialmente para países pequenos como Singapura, Hegseth afirma textualmente que “você pode ter todas as regras que quiser, mas, se não puder respaldá-las com poder militar, elas não valem o papel em que estão escritas”, enxergando as regras apenas como consequência do equilíbrio de poder.
Nesse sentido, o Secretário da Guerra dos EUA proferiu a frase mais comentada de seu discurso: “Não precisamos de mais conferências. Precisamos de mais poder de combate. Lamento dizer isso aqui: menos Shangri-La, mais navios, mais submarinos”.
O Secretário da Guerra está literalmente afirmando que a segurança não será garantida por reuniões, declarações conjuntas ou fóruns multilaterais, mas sim por sistemas de armas
Para isso, o norte-americano propõe aos seus aliados gastos em defesa de não menos de 3,5% do PIB. Mais do que isso, ele ameaça aqueles que, no entender de Washington, não fizerem o que é necessário para sua própria defesa: “os aliados que se recusarem a assumir a sua parte e contribuir para a nossa defesa coletiva enfrentarão uma clara mudança na forma como fazemos negócios”.
O aspecto mais interessante da análise dos dois discursos não é a constatação da diferença entre eles, mas, sim, o fato de ambos coincidirem no diagnóstico de que o mundo atravessa uma fase de profunda transformação estratégica, geradora de muita instabilidade.
Para Chan, a administração dessa instabilidade deve ser calcada no respeito às regras e às instituições. Ele prega o reforço do multilateralismo, portanto. Hegseth, pelo contrário, atribui importância secundária a esses mecanismos e confia apenas na força militar.
Entre a confiança de Chan no multilateralismo e a confiança de Hegseth no poder militar, o futuro da ordem internacional provavelmente dependerá de uma combinação dos dois. Afinal, regras sem poder dificilmente sobrevivem, mas poder sem regras raramente produz estabilidade duradoura.




