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Pedro Menezes

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O que a história tem a ensinar

As camélias da segunda abolição virão?

  • Por Pedro Menezes
  • 12/05/2020 21:22
Na ilustração da Revista Illustrada, de 1888, José de Seixas Magalhães entrega camélias para a princesa Isabel
Na ilustração da Revista Illustrada, de 1888, José de Seixas Magalhães entrega camélias para a princesa Isabel| Foto: Reprodução/Revista Illustrada

O português José Seixas de Magalhães estava à frente de seu tempo até mesmo nos negócios. No fim do século 19, ele era um empresário do ramo de malas, produzidas com máquinas a vapor bastante modernas para o Brasil da época, com excelência que lhe rendeu prêmios até mesmo na Europa. Mas não foi por isto que José Seixas de Magalhães entrou na história do Brasil. Além dos negócios, ele mantinha o quilombo do Leblon, um dos grandes símbolos do abolicionismo brasileiro.

Os primeiros quilombos foram formados como esconderijos para aqueles que fugiam da escravidão, como uma forma de transgressão e resistência. Conforme o movimento abolicionista avançava entre a elite brasileira, esse modelo mudou. Na parte final do século 19, diversos quilombos tinham sua existência amplamente reconhecida e estavam nas grandes cidades brasileiras. Abolicionistas que gozavam de status social protegiam esses quilombos da polícia. Alguns exemplos famosos são os quilombos do Jabaquara, em São Paulo, e o do Leblon, no Rio de Janeiro.

O quilombo do Leblon ocupava uma propriedade de José Seixas de Magalhães, no bairro que leva esse nome até hoje. Lá, negros livres produziam camélias, uma flor que rapidamente se transformou em símbolo do movimento abolicionista. Para fabricar uma camélias, era preciso conhecimento técnico e métodos modernos de produção, características escassas no Brasil escravista. Não por acaso, Olavo Bilac, poeta abolicionista e conservador, chamava as camélias de “filhas da civilização”.

As camélias do quilombo ornamentavam a casa da Princesa Isabel, amiga pessoal de José Seixas de Magalhães e protetora do quilombo. Sua capela pessoal, local de oração da então princesa do Brasil, era repleta de flores vindas do Leblon. Foi esse o contexto social que, num 13 de maio ocorrido 132 anos atrás, levou à abolição da escravatura.

A história do movimento abolicionista foi longa. O avô de Isabel, Dom Pedro I, rompeu com José Bonifácio de Andrada e Silva justamente por causa das opiniões dele sobre a abolição. O patriarca da independência foi, também, um pioneiro ao pensar nas potencialidades do Brasil. Por isso, propunha que o fim da escravidão fosse combinado a uma reforma agrária e educacional, que abrisse universidades e escolas e expandisse as oportunidades disponíveis aos pobres brasileiros.

Ao longo das décadas, permaneceu no movimento abolicionista a ideia de que, além de findar o escravismo, era preciso combater o legado da escravidão. O objetivo final dos abolicionistas era a construção de um novo país, onde a libertação dos negros não seria uma formalidade trabalhista. Como se sabe, este passo seguinte nunca foi dado. Mesmo após a abolição, os pobres brasileiros – majoritariamente negros – não tiveram acesso à educação básica ou quaisquer políticas públicas de compensação.

É triste notar que, 132 anos depois, a ideia de uma abolição incompleta tem sido associada exclusivamente à esquerda. Nem sempre foi assim. Muitos conservadores e principalmente liberais integraram o movimento abolicionista. Joaquim Nabuco, patrono do liberalismo brasileiro, já previa que a escravidão seria a característica fundamental do Brasil por muitas décadas, o que de fato ocorreu.

Apesar de merecer a devida comemoração, a abolição que hoje aniversaria foi incompleta. E mais: como Nabuco também sabia, o Brasil só vai realizar as suas potencialidades quando o legado da escravidão também for abolido.

Este precisa ser um projeto de todo o espectro ideológico nacional. Socialistas, liberais e conservadores podem ter agendas distintas sobre como finalizar o projeto abolicionista, mas este deve ser um dos primeiros pontos na lista de prioridades de todos os grupos políticos.

O acesso universal a uma educação de qualidade, sem dúvida, é uma ideia que pode ser abraçada por todos, assim como a implementação de um sistema tributário progressivo – um objetivo que não precisa envolver elevação de impostos.

Acima de tudo, o Brasil precisa reconhecer que a atual distribuição desigual da renda não foi construída de modo natural. Processos sociais, principalmente a escravização de negros, nos trouxeram à situação atual. Portanto, só políticas públicas resolverão o problema. Inúmeros trabalhos acadêmicos de economistas mostram a correlação entre o número de escravos que cada região possuía no passado e a desigualdade que persiste no tempo presente.

Numa música sobre as camélias do Leblon, Caetano Veloso termina em tom de esperança: “as camélias da segunda abolição virão”. No título da coluna, incluo a interrogação, pois esta superação não parece estar na agenda prioritária de nenhum grupo político. O grande desafio nacional tem sido escanteado em nome da política baixa do dia-a-dia. Em tempos de pandemia, a situação se agrava e é cada vez mais raro encontrar quem esteja disposto a pensar em projetos de longo prazo. Mas o país continua existindo e continua sofrendo com a incompletude da abolição que hoje completa 132 anos.

Espero que, em meio a toda esta confusão, algum tempo para conversarmos sobre o que realmente importa. Bolsonaro, Maia, Doria e Lula passam, assim como a Princesa Isabel e José Seixas de Magalhães passaram. A escravidão, por outro lado, será persistente enquanto não lidarmos com ela. Seu legado segue como característica central do país, conforme previsto por Nabuco. Esta herança aparece até mesmo no modo como o novo Coronavírus afeta diversos setores da população. O Brasil só se transformará em país do futuro quando for capaz de lidar com o seu passado.

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Comentários [ 11 ]

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    Gilberto Hey

    ± 43 dias

    Com o ensino que taí, correndo nas últimas posições e a doutrinação nas primeiras, melhor estudar só on line,As camélias são para todos.

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    Marcelo Gurgel

    ± 43 dias

    A escravidão não acabou apenas trocou os braços dos negros pela inteligência da nossa juventude. Hoje totalmente escravizadas por pseudo-professores que estão mais para feitores que sob a ameaça das notas enfiam na cabeça da garotada, com pais desatentos, as idéias comunistas por quase 10 anos. O resultados dessa tragédia escravagista são jovens recém-reformados que acreditam que a solução para as suas deficiências profissionais trazidas das escolas e universidades é um Estado gigante que cuidará igualmente de todos.

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    ALEX NASCIMENTO GONCALVES

    ± 43 dias

    No fim, não falou do principal problemas dos negros na America: a falta de pai! O pior resultado da escravidão foi a perca do conceito de paternidade entre os negros. Na época da escravidão, se um escravo era recompensado pelo senhor com uma noite com a escrava, o filhos não eram do escravo que inseminou a escrava, e sim do senhor. infelizmente este conceito cultural continua ate hoje, entre os negros de toda a América! repare na quantidade de crianças negras que crescem sem o pai na infância! no máximo manda o dinheiro da pensão, como se dinheiro pudesse substituir a figura paterna dentro de casa!

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    FB

    ± 43 dias

    E ainda assim, graças mistificação irracional, o dia da consciência negra foi parar em 20 de novembro, em homenagem Zumbi dos Palmares, um senhor de escravos e déspota ele próprio, ao invés do dia da abolição. Coisa do Brasil, que transformam o dia da consciência negra num ode à escravidão ao invés de ser contra ela.

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    Sergio Vianna

    ± 43 dias

    Criança! Volte para o berçário! Conversa fiada de Universidade. Foi assim que destruíram a Educação. Todos os Brasileiros estão recebendo apoio do Governo. Não seja leviano. Acaba de tirar zero na redação por mentir. Não passou. Está reprovado. Ano que vem tente de novo. Não precisa para a mensalidade até lá. Avise ao Papai que a Escola não vai cobrar a sua repetição de ano. E avise que só saíra da Escola depois de parar de mentir contra o Governo que está salvando a Nação abandonada pelos que implantaram este discurso nesta sua cabeça de amendoin torrado!

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    Admar Luiz

    ± 43 dias

    Do contrário teremos sempre milhões de brasileiros dependentes do estado e de políticos corruptos. Os famosos defensores de pobres e oprimidos. Adoooram dar uma esmolinha aos pobres - bolsa isso, bolsa aquilo, né Lularápio? - e depois pedir seus votos. Como sair disso? Esforço próprio, méritos, coragem, correr atrás, estudo, muito estudo. Não ficar a espera de esmolas de algum demiurgo, ou do estado - que na realidade é dinheiro de quem trabalha e empreende. Né Pedro?

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    Admar Luiz

    ± 43 dias

    Depois que citou Caetano Veloso, parei de ler. Mas aproveito pra dizer: Pobreza só se acaba com educação de qualidade. Não o paulofreirismo que nos deixa na rabeira de qualquer avaliação que se preze. O lulismo, a esquerda incompetente e corrupta, nos legaram milhões de semi-analfabetos. E, pasmem, a maioria universitários. Lembram das universidades cala-níquéis? Fora a ideologia nefasta que fez e faz lavagem cerebral nos nossos jovens. Instrução, eis o que dá independência ao cidadão. Só assim ele terá um emprego de qualidade. Como consequência terá renda digna e, se for pai de família, educará sua prole também. Só assim sairá do círculo vicioso da pobreza.

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  • E

    Eden Lopes Feldman

    ± 43 dias

    Desde que que criaram o sistema de cotas retiraram parte da responsabilidade do estado pela educação. Foi uma forma de justificar um padrão de ensino centrado no superior que deveria ser centrado no ensino básico e médio. Precisamos de uma formação mais sólida na base social. Não adianta colocarmos pessoas na faculdade quando as dificuldades acabam abortando os sonhos do ensino superior. Melhor termos uma estrutura básica de ensino que ensine, e não apenas crie o "passar de ano".

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    Roberto Garcia

    ± 43 dias

    Como todos o discurso A favor dos desfavorecidos esse também é relevante mas não fala nada na solução. A questão do Brasil não são de uma categoria mas de todos os pobres que são pobres porque a única proposta é essa tal de “política pública” milagrosa quando na realidade o que os pobres querem é renda para daí ser verdadeiramente livres. E para ter renda é preciso dar as condições para produzir.

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    Guilherme Milone Silva

    ± 43 dias

    Pedro, me preocupa quando vc recomenda a adoção de políticas públicas para o fim da desigualdade gerada pela escravidão. Está provado que os governos republicanos que se sucederam ao Império provocaram um aprofundamento do problema. Menos governo e livre mercado é que vão tirar nosso povo da miséria

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    Sergio

    ± 43 dias

    Concordo com o texto, existe ainda uma amarra ao nosso passado que, além das necessidades não supridas no pós abolição, aliou-se a isto vários outros movimentos que invariavelmente os levaram à pobreza; entre outros, o movimento do êxodo rural que os levaram ao encontro da falta de oportunidades, de trabalho e renda. Quando olhamos para isto, percebemos que tudo que é para a classe mais necessitada tem que ser precário, com a ajuda dos resquícios do coronelismo que ainda habita em algumas regiões, isto precisa mudar.

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