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Todo ano é a mesma coisa. Vai chegando o 13 de maio e eu penso que tenho que escrever algo sobre o 13 de Maio, sobre essa data que é linda, que é de fato um ponto alto da nossa história, quando a sociedade reconheceu os horrores das senzalas e pelourinhos, e, por meio da Lei Áurea, corrigiu um erro que tanto sofrimento causou a milhões de pessoas. Que deveria ser feriado, justamente para lembrarmos que, por mais que possamos passar séculos escravizando nossos semelhantes, somos também capazes de deixar de fazê-lo. Isso é bonito demais. Mas esqueço. Teimo em esquecer.
Mas não este ano! O 13 de Maio que, já disse mas não custa reforçar, deveria ser celebrado. Por todos, independentemente da quantidade de melanina na pele. Mas não é. Porque o pessoal prefere reclamar, dizer que um pedaço de papel não garantiu liberdade coisa nenhuma, seu racista! Que os negros foram jogados à própria sorte, que a assinatura da Princesa Isabel pode ter acabado com a escravidão oficial, mas não com o racismo estrutural. E tudo bem. Há um quê de razão (e evidente sofrimento) em tudo isso. Mas, poxa, e se a gente se esforçasse um pouco para entender o poder simbólico da lei que, não por acaso, é chamada de Áurea.
Triste, triste, triste
Mas o mundo é assim. O Brasil é assim. O ser humano é assim. Isto é, sempre dado a procurar a rachadura que lhe ofusca a visão do que é belo, ainda que não seja perfeito. O ser humano é apegado a um passado e à dor desse passado. Uma dor que ele considera irreparável, mas não é. Nunca é. Triste, triste, triste. Mas é preciso superar dores ancestrais e é por isso que queria que o 13 de Maio fosse feriado: para nos abraçarmos, para pedirmos desculpas, se for o caso; para nos libertarmos de uma escravidão pior do que a do tronco: essa que nos mantém presos a uma mágoa histórica.
Eu, de minha parte, fico aqui imaginando a Princesa Isabel acordando naquele 13 de maio de 1888, sabendo que sua letra estaria para sempre impressa na história e que seu nome estaria para sempre associado a este documento que pôs fim a um regime de submissão e violência incondizentes com a dignidade humana. Não sei se fez sol, mas aqui do futuro imagino sol, sorriso e até um brilho santo nos olhos da monarca enquanto suas mãos deslizam o bico de pena sobre o papel no qual se lê, em seu artigo 1º, que “É declarada extincta, desde a data desta Lei, a escravidão no Brazil”. Você aí todo carrancudo pode até dizer que não. Mas é lindo.








