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— Acorda, Brasil! — diz, ou melhor, grita, berra, esbraveja, se esgoela a Pátria-mãe Gentil ao menino safado, malandro e notório gazeteador dos deveres cívicos, que dormia em berço esplêndido depois de passar a noite anterior na farra.
Nada.
— Acorda, Brasil! — repete ela, mais alto. — Acorda, senão...! Acorda logo que o Nikolas tá chegando aí!
— Pô, mãe. Mas hoje ainda é sábado...
— Não, hoje é domingo! Acorda e levanta que você vai me ajudar na faxina. Precisamos passar o Brasil a limpo. E rápido. Ninguém aguenta mais tanta sujeira. Além disso, o Nikolas tá chegando aí...
— O Nikolas? O Nikolas, o Nikolas, o Nikolas. A senhora só sabe falar desse Nikolas. Que saco!
— Não fale assim do garoto! Ele tá chegando com o pessoal cheio de esperança lá dele e eu não quero passar vergonha. Não quero receber ele nesse chiqueiro. Nessa pocilga. Toma logo seu café e vai arrumar pelo menos o seu quarto. Tem corrupção pendurada até no teto.
— Ah, mãe. Dá um tempo. Na segunda a dona Donalda vem e arruma tudo pra gente.
— Não vem mais. Parece que ela tá comprando uma ilha no Ártico ou coisa assim. Tá sem tempo pra gente.
— Ah, que saco!
— Tudo pra você é um saco. Já falei: vai lavar o rosto e tomar café, menino. Depois vem cá que eu te dou as instruções. Quero ver este lugar tinindo, tá me ouvindo? Ti-nin-do!
— É que eu queria tanto ver um porta-aviões no lago Paranoá... — diz o Brasil, decepcionado com a dona Donalda, mas se alegrando no instante seguinte. Já deu para perceber que o Brasil não bate bem da bola, né? — O Nikolas tá mesmo vindo aí? Legal!
— Tá. Ele e uma turma da caminhada. Imagina que vergonha se eles encontram a casa assim, nesse estado em que o Lula deixou... Até uma janja eu encontrei debaixo da pia! E ali naquele canto... Ui. Dá nojo só de lembrar. Tinha um... Tinha um...
— O que mãe? Fala logo!
— Tinha um gilmarmendes assim, ó. Desse tamanho!
Para disfarçar o nojo, o Brasil cai na gargalhada.
— Ah, mãe. A senhora tá exagerando. A casa não tá tão suja assim. A senhora não viu os últimos dados do IBGE?
— Dados do IBGE? E eu lá tenho cara de quem acredita em dados do IBGE? Você só pode ter puxado ao seu pai mesmo... — diz ela, furiosa. — Tá suja, sim! A casa tá imunda! Olha ali aquela mancha do Banco Master na parede. Acha que aquilo sai fácil? E ali no canto, aquele monte de privilégio pra político vagabundo. E... Ah, não acredito! — disse ela, bufando e levantando a almofada do sofá. — Eu queria só saber quem foi que encheu o sofá de farelo de escândalo do INSS.
Brasil dá de ombros. Arrastando os pés, ele vai tomar café. Depois de se empanturrar, volta esfregando os olhos. Isso é o que dá passar a noite jogando GTA Brasília com a turma do Centrão.
— Pronto, mãe. (Saco). O que é que eu faço? Por onde é que eu começo? — pergunta ele naquele tom lamurioso de adolescente preguiçoso.
— Toma aqui, Brasil. Pra começar, pega essa Constituição e passa com força no STF. Não quero ver nem uma manchinha de ilegalidade ali, hein!
— Xi, mãe. Vai ser difícil. O STF tá sujo demais. Não tem Constituição que dê jeito nele. E ainda por cima... Olha aqui. Eu sabia. Tá quebrado. Não é melhor jogar tudo fora de uma vez?
— Não fale uma coisa dessas, menino! O último que sugeriu isso tá preso na Papuda.
— Desculpa, mãe. É que... — Ele esfrega com toda a força do mundo. Ou do país. — ...não sai mesmo. A desonestidade tá incrustada aqui, tá vendo? Nem com césio 137 eu vou conseguir limpar essa coisa.
— Se vira! Dá um jeito. Começa pelas beiradas. Tira um ministro, depois outro. Tem que ter um pouco de paciência. Mas não muita. E depois vai lá no seu quarto e dá um jeito de esconder aquele monte de corrupção. O certo seria jogar tudo no lixo antes de o Nikolas chegar. Mas não vai dar tempo.
— Vou jogar tudo no cesto da CPI, tá bom? — Antes que a Pátria-mãe Gentil possa responder que CPI não serve para nada, ele sai e, depois de uns quinze minutos, volta todo suado. — Mãe, mãe! O que é que eu faço com isso aqui? – pergunta o Brasil, segurando um toffoli com a ponta dos dedos.
— Ai, que nojo! — grita a Pátria-mãe Gentil, contendo mais uma vez a vontade de vomitar. — Joga isso na privada e dá bastante descarga. Agora!
Nisso toca a campainha.
— Deixa que eu atendo! — diz o Brasil, todo entusiasmado. — Mãe, é o Nikolas e o pessoal da caminhada. — E para o Nikolas: — Pode entrar. A gente tava te esperando.
— Oi, dona Pátria-mãe Gentil. Oi, Brasil. Desculpe chegar assim, antes do combinado.
— Não tem problema, não — diz a Pátria-mãe Gentil, meio encabulada. — A gente tava mesmo te esperando. Entre. Sinta-se à vontade. Tem pão de queijo quentinho pra você.
— Obrigado, mas eu e o pessoal aqui já tomamos café na estrada.
— Não repare a bagunça — diz ela, constrangida.
— Isso, infelizmente, é impossível. Mas tamos aí pra isso mesmo. No que é que a gente pode ajudar, hein?
— Ajudar? Ah, em tudo. Eu me distraí e isso daqui virou uma Casa da Mãe Joana. E o Brasil, você conhece, né? O Brasil é um vagabundo. Acabou de acordar. Acredita?
— Acordei, mas continuo com sono — faz questão de esclarecer ele.
— Não tem problema, não, dona Pátria-mãe Gentil. O Brasil sempre foi preguiçoso mesmo. Mas ele vai mudar. Né, Brasil?
— Vou?
— Vai, sim. Aliás, já tá mudando. E pelo menos hoje... ele acordou — diz Nikolas, lançando uma piscadela cúmplice na direção do Brasil.
— Vamos ver por quanto tempo...
— Vamos ver. Mas chega de papo. Cadê os apetrechos? Pode deixar que a gente ajuda — disse o deputado, munindo-se de discursos, deliberações, comissões, emendas e projetos de lei para deixar o país em ordem. Limpinho.
Ao dar meia-volta e começar a limpeza, porém, Nikolas tropeça numas peças do Sistema que o Brasil deixou espalhadas pela sala e cai de boca numa poça fétida e viscosa de alexandredemoraes. Para piorar, a imprensa que estava ali perto fingindo contribuir com a faxina derruba uma pilha de inquéritos ilegais sobre o jovem parlamentar, que desmaia, coitado.
— Viu, Brasil? Viu o que você fez? Eu te disse pra limpar essa sujeira que o teu tio Temer deixou aí. — E para a imprensa: — E vocês? Vocês não servem pra nada, não? Mais ajuda quem não atrapalha!
A imprensa sai de fininho, como se não fosse com ela, enquanto o Brasil tenta ajudar Nikolas a se levantar. Mas, desajeitado que só, ele próprio escorrega numa poça de petismo e se estatela no chão, provavelmente faturando, digo, fraturando uma vértebra. Só me falta ficar paralítico!
— Ai —diz ele simplesmente, antes de aproveitar que está deitado para, quer saber?, cair no sono de novo. Esse Brasil...
— Acorda, Brasil! — grita a Pátria-mãe Gentil. — Acorda! Me ajuda! Eu não aguento mais tanta imundície.
Mas talvez seja um pouco tarde demais. Tomara que não.
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