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Nem toda literatura brasileira é feita de críticas sociais a serem exaustivamente analisadas nas universidades. Alexandre Soares Silva é a prova disso.
Nem toda literatura brasileira é feita de críticas sociais a serem exaustivamente analisadas nas universidades. Alexandre Soares Silva é a prova disso.| Foto: Reprodução/ Instagram

Apesar de dizer logo de cara que “O Homem Que Lia os Seus Próprios Pensamentos” é a melhor obra de ficção que li neste ano (até porque a outra foi “Torto Arado”), não vou resenhar a coletânea de contos de Alexandre Soares Silva recém-lançada pela editora Danúbio. Por uma questão ética. Conheço o autor há vinte anos, desde que escrevíamos para um site chamado Digestivo Cultural, que, com esse nome, aparentemente publicava textos para serem lidos apenas depois das refeições. E não me sinto à vontade para escrever sobre o trabalho de alguém que já foi meu hóspede.

Abandonei a ideia de escrever sobre “O Homem...” também por uma questão de respeito. Do contrário, me sentiria tentado a escrever um texto todo espertinho e cheio de firulas, como se eu quisesse aparecer mais do que o livro resenhado. E quero distância de tentações como essa. Se bem que alguém precisa dizer que a história que dá título ao livro e os soberbos, brilhantes, geniais mesmo “O Diabo e a Cura” e “A Paixão Obscura e Completamente Superduper de Jebediah Mendes” figurariam em qualquer coletânea de Melhores Contos do Século XXI – E Não Só Brasileiros, Por Favor.

Se escrevesse sobre “O Homem...”, ressaltaria ainda suas principais qualidades: leveza, inventividade, estilo deliciosamente coloquial e humor. Faria, porém, a ressalva de que talvez seja um livro para “entendidos”, e argumentaria que o universo de leitores capazes de se deliciar com uma guerra urbana entre Modernistas e Parnasianos é, infelizmente, bastante reduzido. O que não afeta em nada o livro como um todo, mas eu diria assim mesmo. Só para posar de imparcial.

E talvez citasse um trecho a esmo que na hora me pareceu adequado, mas que agora acho ligeiramente impróprio: “Começou a fazer pesquisas de campo, indo para várias favelas munido de binóculos e caderninho de anotações, e vestido – para camuflagem – com uma roupa que de costas parecia um telhado de zinco e de frente parecia um pedaço de madeira meio podre com restos de um pôster da Brahma. Instalava-se numa laje qualquer e ficava horas observando os pobres soltando rojão”.

Por fim, sem querer escrever sobre o livro, mas ao mesmo tempo querendo que mais pessoas conheçam o trabalho de Alexandre Soares Silva, me restaria a nobre saída pela tangente de entrevistá-lo. Não sem antes fazer uma recomendação constrangedoramente empolgada: leiam "O Homem Que Lia os Seus Próprios Pensamentos".

Como mencionei para você, hoje em dia é difícil fazer uma entrevista que fuja do óbvio, daquela coisa boba de “quais são suas influências?”. Dito isso, quais são suas influências?

São muitas, mas estão tão misturadas que acho que não dá pra distinguir nenhuma: Evelyn Waugh, PG Wodehouse, Nabokov, Mencken, Paulo Francis, Machado de Assis, Tolstói, Woody Allen.

Há uns 20 anos, você me deu uma entrevista na qual reclamava de Guimarães Rosa ter colocado coisas tão belas na boca de jagunços e capiaus. Aquilo me marcou profundamente porque, na época, era uma ousadia falar essas coisas - nem que fosse só falar por falar. Você não acha que falta aos artistas de hoje esse descompromisso com o cânone, essa vontade de dizer coisas só por dizer?

Três coisas acontecem: um, ao ver resenhas na Amazon dá pra ver um número muito grande de pessoas desprezando o cânone sem ter conhecimento nem espirituosidade pra isso (“Meu, Machado de Assis é muito chato!!!”, etc). Não que não tenham o direito de fazer isso, mas a iconoclastia dos burros desvalorizou pra mim a iconoclastia como um todo. A segunda coisa que acontece é que a famigerada classe artística brasileira respeita demais o cânone brasileiro, e viram todos tias escandalizadas se você menosprezar os nomes sagrados. Três, e pior, isso está mudando justamente do pior modo, o cancelamento por “racismo" ou “sexismo”, que são os motivos mais estúpidos pra se desprezar um grande autor.

Agora vou fazer jus ao meu diploma de jornalismo com aquela perguntinha capciosa para deixar o entrevistado constrangido. Como você se sente quando uma pessoa “nem muito inteligente nem pouco inteligente, mas um pouco burra” elogia entusiasmadamente um livro seu?

Minha vaidade é tamanha que assim que a pessoa me elogia parece que ela ganhou uns vinte pontos de QI, e isso deixa de ser um problema.

Seus livros me chamam a atenção porque conseguem falar de coisas muito sérias, mas sempre mantendo uma voz meio infantil, de traquinagem mesmo. Você acha que a literatura hiper-realista de hoje em dia ficou muito adultona, e por isso mesmo não consegue dialogar com a porção mais criativa da imaginação?

O escritor brasileiro moderno cede a uma tentação, que acho uma tentação imbecil, que é a de ser um comentador de seu tempo, um sociólogo, um jornalista, ou pelo menos uma alma sensível reagindo aos problemas que todo mundo comenta no jornal. Houlellebecq faz isso muito bem, porque por faro jornalístico ou sociológico (ou por ser mais inteligente mesmo) ele antecipa os assuntos que só muito depois vão ser comentados pelos jornais. Já os escritores brasileiros analisam com delicada sensibilidade os assuntos que a sua turminha já vem falando faz algum tempo. Que até o Marcelo Rubens Paiva deve falar lá na coluna dele. De qualquer maneira, variações de talento à parte, o escritor brasileiro atual parte da premissa de que ser só um escritor é estar num status abaixo de um sociólogo ou de um bom jornalista. Além disso, falando em adultices, eles (mas isso é geral da humanidade) acham a seriedade é melhor que o humor, como se uma boa frase do Barão de Itararé fosse inferior a um chute dado com bota de sola de ferro na parte sensível da sua canela. Mas o maior escritor brasileiro era engraçado, o maior escritor português era engraçado, o maior escritor inglês era engraçado, assim como o maior escritor espanhol, o maior escritor francês (Flaubert em Bouvard e Pécuchet), americano (Mark Twain), etc.

Se o convidarem para a Festa Literária Internacional (!) de Paraty, você vai de sunga ou bermuda?

A triste verdade é que provavelmente vai ser com uma camisa apertada demais na barriga. E já sei que vou passar o tempo todo encolhendo a barriga. Provavelmente foi por isso que o Salinger não ia nesse tipo de evento.

Você concorda com a ideia de que escrever hoje em dia é muito perigoso, porque vivemos “tempos bicudos” ou coisa assim?

Não, nem acho que vivemos em tempos especialmente ruins, mesmo com o corona; o corona só canaliza a dose natural de insatisfação e medo que parece que a humanidade tem que sentir de qualquer maneira e em qualquer época. Escrever passou a ser um pouco mais perigoso com os cancelamentos, ou pelo menos escrever de jeito honesto. Mas qual foi a época em que ninguém tinha pressão pra se autocensurar? Nenhuma.

Qual o seu sanduíche preferido na Mercearia São Pedro? (Para quem não sabe, a Mercearia São Pedro é, ou foi, o reduto dos escritorezinhos da moda, aqueles gênios que ninguém lê, desde circa 2003).

Tenho um certo orgulho de nunca ter ido na Mercearia. Cada vez que passo de carro na frente aponto pra lá e digo com um orgulho besta: “Nunca fui lá!”. Mas um conhecido meu de internet me disse faz pouco que me conheceu lá uns dez anos atrás, o que se for verdade me entristece um pouco. Cresci tendo uma antipatia por escritores brasileiros, não individualmente porque também não sou psicopata, mas como classe. Se o artista tem que "resistir e incomodar”, como dizem os pascácios, ele tem que resistir e incomodar justamente as pessoas que estão mais próximas e que podem reagir contra ele - ou seja, o seu próprio grupo. Não as pessoas com as quais eles nunca têm contato, que é o que a maioria dos escritores fazem (“estou aqui pra incomodar - mas só as pessoas que não leem os meus livros!”).

Já pegou Covid? Como foi? Se não pegou, tem medo de pegar? Se pegar e (toc, toc, toc) morrer, como você imagina o seu epitáfio?

Não peguei, por sorte, e tomo cuidado, tenho um medo racional e moderado de pegar. Meu epitáfio vai ser: “Aqui jaz Alexandre Soares Silva, que foi para uma outra festa, onde ficará fingindo que examina os discos. Orai por ele!”

Você achou a pergunta anterior de mau gosto? Outro dia o Felipe Neto (conhece?) andou dizendo que tem algo de errado com quem faz humor “nesses tempos sombrios”. Para você, existe tema proibido?

Não achei, e conheço, infelizmente - como queria só conhecer os nomes de pessoas que morreram cem anos atrás. Pessoas sem humor (me diga rápido alguma coisa engraçada que ele disse) sempre acham que essa não é a hora de fazer piada. E não digo que existam temas proibidos, mas eu provavelmente me seguraria pra não fazer piada com os sofrimentos horríveis de pessoas reais, o que inclui Jesus Cristo.

Você é um conservador que outro dia apareceu aqui fumando cachimbo. Olha ali para a câmera da verdade e me responde: você sabe fazer nó de gravata-borboleta?

Não, mas usaria. Amo todas as caricaturas. Todas. Amo especialmente a caricatura do conservador que fuma cachimbo e usa paletó com remendo de couro nos cotovelos, que é distraído e bebe whisky um pouco além da conta, etc. É preciso ser humilde pra aceitar ser caricatural. Mas por preguiça a única coisa que eu faço de todas essas que mencionei é fumar cachimbo. Acho que já está bom. Aliás, um assunto interessante seria a história política do cachimbo. No século XX na Inglaterra ele era um sinal de radicalismo: políticos tories fumavam charuto, progressistas de origem mais popular fumavam cachimbo. Churchill dava os finais dos seus charutos pro jardineiro-chefe, que esfarelava tudo e punha no cachimbo. Mas divago.

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